O Vazio era a companhia de Veraline. Ele a afagava carinhosamente noite e dia, e lhe prometia amor eterno. E ela corava diante de palavras tão cuidadosamente escolhidas, como se o Vazio fosse o seu particular e romântico poeta da literatura.

Veraline novamente deixara a casa dos pais. Desta vez, para morar sozinha. Seus pais alugaram um pequeno apartamento para ela perto da faculdade. Isto permitia economia de tempo no deslocamento entre sua casa e a universidade. E sobra de tempo para mergulhar em seu vazio existencial.

Após o divórcio, Veraline iniciara um tratamento psiquiátrico. Recorrentes pensamentos suicidas colocaram-na na perigosa tênue linha divisória entre a luta desesperadora e a desistência. Por isso, hoje, vivia a base de medicamentos controlados e efeitos colaterais com os quais ela tinha dificuldades de lidar.

A faculdade providenciara novas (e perigosas) amizades. Na busca desesperada de fugir de sua angústia, Veraline começara a frequentar festas regadas a bebidas e drogas. E a interação de drogas adversas potencializava a sensação de desespero. A combinação de álcool e fluoxetina exercia um efeito devastador sobre ela. As drogas agiam em direções opostas no seu corpo letárgico e cansado. A fluoxetina agindo como estimulante, e o álcool como agente depressor. Funcionando juntas, as duas drogas causavam grandes oscilações de humor em Veraline. Em momentos como esses, ela recorria às sobras de outros medicamentos que tomara nos meses anteriores, enquanto procurava encontrar o ideal para seus distúrbios de humor. E nas madrugadas destrutivas, cedia a outras drogas mais pesadas. O coquetel químico em sua corrente sanguínea fazia com que a outrora confiante e promissora Veraline mergulhasse rapidamente em um processo de autodestruição.

E colocava seu corpo cada vez mais próximo de entrar em um fatal choque tóxico.

___

– Você não está nada bem, Vera – comentou Márcia. – Você precisa de um tratamento.

Márcia era a única amiga dos tempos de escola com quem Veraline ainda mantinha contato. Seu círculo de amigos fora renovado nos últimos meses.

– Eu estou me cuidando, Márcia. Por que acha que vou ao psiquiatra toda semana?

– Talvez você precise de algo mais… radical.

– Como assim?

– Sei lá. Uma internação, talvez.

Veraline deu uma risada nervosa.

– Você não sabe o que diz. Agora está me chamando de louca.

– Você está se destruindo.

– Não precisa se preocupar. Veraline sempre vence. A maré não está boa, é verdade. Mas estou me recompondo.

– Se entupindo de drogas? Pensa que consegue me enganar?

– Eu usei uma ou duas vezes. Nada demais. Não exagere.

Cada linha do seu rosto denunciava a mentira. Havia uma tensão cadavérica em seu semblante e um brilho fosco em seu olhar perdido.

Veraline procurou mudar de assunto.

– Já faz um bom tempo que não vejo o Aquiles. Como vocês estão?

– Não estamos nos falando muito ultimamente. Ele está viajando.

– Com aquela banda dele?

– Sim. Estão gravando um disco na Inglaterra.

– Nunca ouvi falar deles.

– Eles tocam mais por aqueles lados. Não chegam fazer sucesso, mas viajam o tempo todo tocando no circuito alternativo.

“Viajam o tempo todo”. A rotina parecia bastante interessante. No final das contas, parecia que Aquiles estava tendo uma vida intensa, com bastante emoção. Bem contrário de Veraline que resumia seus dias a uma faculdade, a solidão em seu apartamento, e ao abuso de drogas em boates.

– Me diga uma coisa, Márcia. E se por acaso eu namorasse o Aquiles? Como você se sentiria?

– Por que isso agora? Está pensando nele?

– Isso mudaria sua resposta?

– Acho que não.

– Então…?

Márcia pensou antes de responder:

– Eu já o esqueci.– Márcia não foi convincente. – Até tentei, mas quando vi que não tinha chances, decidi cair fora. – Ela deu uma pausa. – Eu sei que ele ainda gosta de você, Vera.

– Como ele pode gostar de mim ainda? Isso começou há uns 8 anos. O mundo girou, eu casei, separei, ele está em outra parte do mundo… e ainda gosta de mim?

– Talvez seja isso o que chamam de amor verdadeiro.

– Conseguiria amar alguém só por saber que este alguém ama você?

– Se fosse um amor tão forte e persistente quanto o amor do Aquiles por você, acho que eu seria conquistada em pouco tempo.

Veraline perdia-se em meio a pensamentos confusos. Não havia considerações racionais em sua mente. Apenas densas névoas em meio a nuvens entorpecentes. E exatamente por isso não conseguia enxergar soluções lógicas para seu futuro. Embora apenas uma jovem, via a si mesma em uma encruzilhada, e precisava tomar uma decisão. E a decisão que tomasse parecia definir sua vida a partir de então. A ideia de que era alvo de um amor verdadeiro, de certa forma, trazia-lhe um pouco de paz. E neste momento, em uma espécie de curto-circuito dos seus neurotransmissores, Veraline imaginou-se andando de mãos dadas com o vesgo, beijando suavemente seus lábios, sendo pedida em casamento. Chegou até a imaginar a vida a dois, como marido e mulher. Ele faria viagens pela Europa para fazer alguns shows, e Veraline o acompanharia. Sairia da rotina mórbida a que estava sujeita. De todos estes pensamentos em que se viu junto a Aquiles, o que mais agradou Veraline foi o das viagens. A ideia de beijar aquele rapaz esquisito era até nauseante, mas uma vida de aventuras em viagens constantes parecia ser agradável. Na verdade, não era Veraline quem pensava isso. Era apenas a vítima anestesiada de um coquetel químico.

– E quando Aquiles volta de viagem?

– Nem ele sabe.

– Tem algum telefone para entrar em contato com ele?

– Quer ligar para a Inglaterra?

– Pode ser. Por que não?

Veraline percebeu Márcia observando-a com ceticismo. E quem não a olharia assim? A nobre e exigente Veraline humildemente admitindo seus erros, se cobrindo de disposição em corrigir suas falhas? O universo ficaria boquiaberto se tão somente acreditasse na sinceridade dessa possibilidade.

– Para falar com ele só ligando para o hotel ou para o estúdio. Talvez eu consiga algum número com a mãe dele.

Veraline lhe estendeu o celular.

– Quer mesmo que eu consiga o telefone dele? – perguntou Márcia. Veraline continuou com o braço estendido, em silêncio. – Agora?

___

Naquela noite, Veraline ligou para o estúdio onde Aquiles gravava seu álbum. Apesar de seu inglês limitado, ela conseguira deixar recado para que Aquiles lhe retornasse a ligação, visto que não se encontrava ali no momento.

Ela achava que em questão de minutos ou algumas horas Aquiles lhe retornaria. Mas as horas foram passando furiosamente, ao ponto de se transformarem em dois dias. Até que ele finalmente retornou a ligação.

A ligação não estava muito boa, mas Veraline pode perceber que a voz dele estava um pouco embargada. Para variar, ele estava bêbado.

– Aqui é o Aquiles. Recebi seu recado.

– Oi. Que bom que me retornou. Achava que não ia me ligar. As coisas aí devem estar muito corridas para você…

– Estão, na verdade. Mas eu demorei porque achei… sei lá… que fosse um trote.

– Um trote? Por quê?

– Ora, vai me dizer que não tive razão para pensar assim? “Veraline ligou do Brasil e disse que precisa falar muito com você”. Achei que fosse uma piada.

– Bem, não é uma piada. Sou eu mesma e…

– Por que me ligou?

– Preciso falar com você. Muito mesmo. Quanto tempo acha que ainda vai ficar aí na Inglaterra?

– Quanto tempo? Bom, a gravação do CD ainda vai levar alguns dias, mas depois disso, vamos divulgar o álbum. Agora, quanto tempo vamos ficar aqui vai depender da agenda que conseguirmos. Se o álbum for bem recebido, talvez um mês. Dois, no máximo.

– Dois meses???

– Por quê? O que você tem para falar comigo? Se pudesse falar logo seria ótimo. Essa ligação internacional vai me custar uma fortuna.

– Nós precisamos conversar sobre nós dois.

Ele ficou um tempo em silêncio.

– Como assim?

– Eu andei reconsiderando tudo o que você já me disse e escreveu, entende? E acho que perdi tempo demais em minha vida me enganando. Tenho pensado nisso. Não sei se estou conseguindo ser clara.

– Se você está sendo clara… eu não sei. Mas nunca estive tão confuso.

– Eu compreendo. Eu dei motivos para isso.

– Preciso desligar, Veraline. Quando eu voltar, a gente se fala.

Ela esperava uma reação mais entusiástica, mais positiva.

– Tudo bem, eu aguardo. Afinal não tenho alternativa.

– Nem eu. Boa noite. – E desligou na cara dela.

Veraline não deixou de ficar surpresa com a atitude dele. Ela esperava que Aquiles começasse a chorar de emoção no telefone. Será que ele já havia superado seus sentimentos? Será que estava amando outra pessoa? Ou era somente uma letargia resultante do efeito do álcool em seu cérebro? Eram perguntas que, obrigatoriamente, só teriam resposta em semanas ou meses.

E o fato de precisar esperar tanto tempo fez Veraline se sentir rejeitada.

E para lidar com essa sensação, ela decidiu recorrer a uma garrafa de uísque.

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