1998

  • Após o reencontro de Josh Homme com outro ex-integrante do Kyuss, é lançado o primeiro álbum do Queens of the Stone Age, pela gravadora de Stone Gossard, guitarrista do Pearl Jam. O Queens of the Stone Age torna-se uma promessa para o rock atual;
  • Os singles Push It e I Think I’m Paranoid, do Garbage, são uma bela amostra do que é o álbum Version 2.0. Um pouco mais eletrônico do que o anterior, e explorando ao máximo os efeitos, este álbum agrada aos fãs e à crítica;
  • Vinda de uma safra de bandas que alargaram o quadro dos britpops, a banda Doves aparece no cenário inglês com suaves melodias, letras sofisticadas e apresentações ao vivo intensas;
  • Peloton é o segundo trabalho da banda underground Delgados (nome este tirado do ciclista espanhol Pedro Delgado). Há maturidade nas letras e arranjos mais rebuscados, além de sons orquestrados e o vocal meloso de Emma Pollock, tornando o álbum imensamente melancólico. Talvez por ter sido gravado e mixado numa igreja de formação de padres, o álbum tenha ganhado um tom meio gótico. Ainda neste ano, eles iniciam a gravação do terceiro disco, The Great Eastern, que levaria nada menos do que quinze meses para ficar pronto.

Sua solidão era a doença mais cruel que poderia atingir seu corpo frágil.

Todos os dias eram uma ameaça à parte. Todos os dias eram ainda mais incisivamente cruéis que o anterior. Andreas sabia muito bem o que isso significava. Sabia muito bem aonde dariam seus medos – o terror do amanhã era o destino final de pensamentos inquietantes. Tudo era vazio – ele era vazio – e não havia nada no mundo visível capaz de fazer-lhe abundar calor e propósito definidos.

Se havia alguma coisa que havia lhe dado um propósito era o King Jeremy. Mas até mesmo isso lhe escapara por entre os dedos. Todos os planos e objetivos resumidos agora a pó sobre cinzas. Jovem tolo que não aprendera as regras. A correnteza do medo levava-o para lugares inabitados e sombrios.

Fazia tempo que ele não tinha contato com Aquiles e Fábio. Às vezes, ainda conversava com Elou. Os comentários sobre a banda eram superficiais, mas por vezes, Elou era enfático:

– Você não vê que estamos perdendo tempo com essas bobagens? Foi a maior idiotice termos terminado a banda? Sabia que li na Internet que temos fãs, e eles ficaram desconsolados com o fim da banda?

Elou dizia “termos terminado a banda”. Mas ele não terminara nada. Talvez dissesse isso para que a conversa tivesse um tom conciliador. Ou talvez sentisse certa dose de culpa por tudo o que acontecera. Seja como for, Andreas preferia conversar com alguém que não o acusasse de ser o culpado pelo fim do King Jeremy. Pelo menos, não o único. Sua ansiedade, a decepção com a imbecilidade no mercado da música, o anonimato, a falta de criatividade, os problemas com Aquiles – tudo se somara em sua cabeça jovem e sem experiência. A carga fora pesada demais para ele suportar. Quando a depressão roçou-lhe a cabeça, Andreas achou que enlouqueceria. A única decisão cabível era darem um tempo. Ainda que este tempo se provasse, no final das contas, definitivo. E o fim de King Jeremy parecera ter causado um impacto emocional ainda mais violento em Andreas. Em vez de se sentir melhor, a angústia tomara conta de sua vida.

Com a intensificação da solidão, isolado de tudo e de todos, Andreas começou a se sentir criativo. Com a angústia se tornando afiada, as músicas ganhavam vida em sua mente fértil e forma no papel e violão. Segundo sua modesta opinião, eram as melhores que ele já criara.

Mas apesar disto, continuava sozinho. O que ele faria sem o King Jeremy? O que ele faria sem alguém para amar?

E, em seu peito, apenas fustigadas vorazes de uma solidão psicótica e mortal.

___

A chuva rompia o vazio e batia com fúria em sua janela. O vento soprava, irado, parecendo buscar o corpo frágil do coelho exposto. Andreas estava acuado em seu quarto, observando a tempestade tentando alcançá-lo. Podia ver os olhos frios da tempestade, olhos ameaçadores – ela queria pegá-lo, despedaçá-lo, tirar-lhe a vida. Coelhos têm pavor de tempestades.

Ele tentava pensar em seu futuro, mas a tarefa lhe parecia complicada e estafante. E de que adiantava planos? Ele era apenas as sobras de um homem sem amor-próprio. Ou qualquer coisa neste sentido. Se ele pudesse, faria tudo diferente. Uma nova vida erigida sobre mármore. Se tivesse o poder de escolher, teria nascido belo. Ou teria feito com que King Jeremy tivesse estourado nas paradas de sucesso do mundo inteiro, sendo ele hoje reconhecido como um dos maiores gênios que o rock já criara.

Se pudesse escolher, Andreas preferiria não ter nascido.

Mas ele não podia fazer nada destas coisas. O interessante e o estimulante fugiam de sua presença. Tudo o que estava ao seu alcance era a mediocridade de um moribundo depressivo. Nada lhe era completo e o que lhe restava era morrer cheio de arrependimentos.

Nisto o telefone tocou.

Era Elou.

Ele parecia um pouco excitado. Depois dos preâmbulos, perguntou:

– Como está se sentindo, hoje?

– Melhor não responder.

– Talvez se sentisse bem se conseguíssemos fazer algo de proveitoso.

Andreas não estava a fim de conversa, mas decidiu levá-la um pouco adiante.

– Como o quê, por exemplo?

– Pensar em nosso futuro. Dessa vez, com um pouco mais de carinho.

Ramphf – O típico grunhido de Andreas que nem ele era capaz de traduzir.

– O velho Knoxville está se revirando em seu túmulo. – Elou continuou.   – Vem aqui em casa e te explico.

– Que ir na tua casa, maluco? Está chovendo canivetes.

– Eu busco você.

– Por que não deixamos isso para outro dia? Tipo, amanhã?

– Não, Andreas. Vamos resolver isso de uma vez por todas.

– Resolver isso o quê?

– Quinze minutos.

– O quê?

– Em 15 minutos, estarei aí.

E desligou.

A tempestade parecia mais furiosa agora. Andreas estremecia ao ouvir as violentas fustigadas contra o vidro. E ainda podia ver os olhos dela o encarando, o tempo todo. Ao menos, ela lhe dava atenção.

E isto era tudo o que lhe restava.

___

O pontual Elou chegou, 15 minutos depois. Surpreendentemente, a chuva parara pouco antes e, no momento, apenas um leve chuvisco caía do céu ainda relampejante. Andreas olhou pela janela do seu quarto – os olhos da tempestade tinham ido embora.

– Que inferno de assunto importante você tem pra falar? – perguntou Andreas, assim que entrou no carro de Elou.

– Em casa a gente conversa.

– Péssima hora para me tirar de casa, Elou – comentou. – Não estou nos melhores dos meus dias.

– Aconteceu alguma coisa?

– Esse é o problema. Nada aconteceu. O mundo gira e o Nada corre em minhas veias.

– Sente falta de algo?

– De mim mesmo. Perdi minha identidade em algum momento da história e não sei o que faço para me reencontrar.

– Talvez eu saiba quando você perdeu sua identidade. Foi quando você e o Aquiles tiveram a ideia idiota de dar um fim na banda quando estávamos indo tão bem.

– Chama aquilo de “indo bem”? Aquilo foi um fracasso total.

– Dentro das suas expectativas de megalomaníaco, talvez. Mas dentro do que é comum com a maioria das bandas, estávamos indo muito bem. Você achava que nosso caminho seria muito mais fácil que o de qualquer outra banda de sucesso?

– Achava.

– Você é um idiota, Andreas. Se um dia resolver colocar seus pés no chão, talvez consiga algo de verdade.

– Eu tenho talento, (ou, pelo menos tinha), e gostaria de ser reconhecido por isso.

– E talvez será. Mas existe um tempo para tudo. Não tente conquistar o planeta, se não tem maturidade para conquistar nem a si mesmo.

Palavras duras de Elou. Mas, no final das contas, ele estava certo. Andreas estava propenso a achar que todos tinham razão já que tudo o que ele achava ser correto e direito provara-se falso.

O fracasso se enamorou de mim. Não nego. Negação eu sempre serei.

Quando chegaram à casa de Elou, foram direto para o quarto dele. Ao entrar ali, Andreas surpreendeu-se com a presença de dois jovens – Aquiles e Fábio. Andreas ficou um momento em silêncio antes de dizer:

– O que está acontecendo aqui?

– Há quanto tempo não nos reuníamos! – exclamou, Elou, com um sorriso desenhado no rosto. – Este momento é emocionante. Os Quatro Reis reunidos novamente!

Aquiles se aproximou de Andreas e estendeu a mão.

– Como vai, Andreas?

– Respirando – respondeu, apertando a mão de Aquiles. – E você?

– Corro antes de me apanharem. É assim que sobrevivo.

Fábio veio em direção a Andreas e abraçou-o.

– Senti saudades, irmão.

– Eu também, Fábio.

 Andreas não pode deixar de sentir uma certa paz em estar com seus amigos novamente.

– E qual a razão dessa reunião?

– Eu já te disse, Andreas. O senhor Knoxville está se revirando no túmulo. Ele está cansado do lugar que voltou a ocupar desde o nosso fim. Ele está reivindicando seu lugar entre os vivos. – Elou olhou bem dentro dos olhos de Andreas. – Ele quer voltar. O Rei Jeremias quer respirar novamente.

Andreas entendeu tudo. Elou estava propondo a reunificação da banda. Não era mais como as eventuais críticas que ele fazia. Agora, ele preparara todo aquele esquema porque estava decidido a ressuscitar King Jeremy.

Andreas olhou em volta e percebeu que os outros dois também o encaravam como se esperassem dele uma resposta. Isso significava que eles estavam de acordo com Elou? Será que Aquiles realmente havia mudado de ideia ou estava ali na mesma situação de Andreas?

– O que acha de tudo isso, Aquiles?

– Preciso de ar, Andreas. E só há um lugar no mundo onde sou capaz de respirar. E este lugar é nos palcos.

Andreas tinha a mesma sensação. Um peixe fora da água. Tudo o que fazia era se debater, sem que isso lhe desse o ar de que tanto necessitava. Ele se lembrava muito bem dos problemas que passaram dentro da banda. Mas os problemas por existir naquele mar de solidão e improdutividade eram ainda mais assustadores. Aquiles era um bêbado, mas ainda assim, um gênio criativo com letras inspiradoras que fazia o trabalho de Andreas valer a pena. Talvez Elou estivesse com a razão. Se ele resolvesse ir mais devagar talvez conseguisse ir mais longe.

– Como está a votação? – perguntou, ele.

– São três favoráveis. Falta você. Mas precisamos de unanimidade. Se votar contra, ficamos como estamos. A decisão é sua.

Andreas olhou para os três homens. Eles pareciam com a respiração trancada. Ele mesmo estava com a respiração trancada.

– O que é que posso dizer?

Os quatro homens sorriram ao mesmo tempo.

___

O mundo parecia um lugar melhor para se viver. O ar parecia mais puro. O alimento parecia mais saboroso. Se Andreas tentasse definir o universo à sua volta usaria termos mais ou menos semelhantes a estes. Não que as coisas tenham sofrido alguma espécie de mudança cósmica; não, ele que passara a encarar tudo com um positivismo maior. O mundo era estático, mas os olhos de Andreas e sua concepção, não. E o responsável por tudo isso era King Jeremy. Se não fosse pelo velho Jeremias, Andreas ainda estaria em seu canto frio e distante.

A primeira coisa que fizeram foi trabalhar em cima de composições para o aquele que seria o terceiro álbum da banda. Andreas tinha à sua disposição mais de 20 composições escritas durante o período negro de sua história. Andreas tinha a honesta impressão de que aquelas eram as melhores canções que ele já fora capaz de criar.

Aquiles passara por uma experiência similar. Solitário, sem fazer qualquer coisa objetiva em sua vida, sendo desprezado por Veraline que, segundo a própria Márcia, estava se afundando cada vez mais nas drogas, Aquiles dava vazão à sua dor, escrevendo letras geniais. Mas desta vez, existia uma exploração maior de substantivos concretos combinados a um simbolismo errático. Isto dava às letras uma identidade própria que Andreas não via em qualquer outro letrista.

Quanto a Elou, ele trouxera novas influências da Europa durante as viagens que fizera nos últimos meses, o que enriquecia a nova fase do King Jeremy. Andreas tinha a convicção de que o terceiro álbum seria o melhor da banda. Havia uma maturidade estimulada por uma considerável dose de melancolia que fazia com que os músicos se arrepiassem, durante os ensaios.

Devido à ampla quantidade de material pronto, eles trabalhavam com a ousada meta de um álbum duplo – ousada, pelo menos, para uma banda alternativa com menos de 30 mil cópias vendidas nos dois primeiros álbuns. Conseguir o apoio da gravadora para um trabalho como esse foi uma tarefa dura. Mas com a ideia aprovada, o desafio de lançar um trabalho desta magnitude estava causando uma grande excitação entre todos.

– O estúdio já está reservado para as gravações no próximo mês – comentou, Elou.

– Temos que trabalhar rápido. Há algumas mudanças nos arranjos que precisamos considerar. Eu acho legal uma textura mais eletrônica ao fundo, sem tirar a atenção dos acústicos. Também tem uma ou duas faixas que acho interessante colocarmos harpa. Gostaria que ele fosse rotulado como progressivo.

– Não vai ser difícil isso acontecer – disse Aquiles, enquanto dedilhava no violão uma das novas canções. – Esse vai ser o nosso álbum mais maluco.

– Este é o objetivo. Temos de esquecer tudo aquilo que o mercado exige e fazer algo que seja a nossa cara. Somos a revolução.

– Mas, para isso, acho que precisamos de um produtor – disse, Elou. – Eu tenho feito esse papel, mas se tivermos um quinto elemento para nos ajudar a criar a atmosfera certa, acho que seria perfeito.

– Produtores podem ser uma faca de dois gumes.

– É uma questão de experimentar.

– Vamos pensar nesta possibilidade.

Aquiles disse:

– Vamos ao que interessa neste momento. Precisamos de um nome para o álbum. Sugestões, por favor.

– Não pensei em nada – disse Fábio.

– Pensei em algo que enfatizasse a loucura. Grave to the Crazy Men, por exemplo.

– Você só pensa em túmulos, Elou. Nosso trabalho é uma elegia a melancolia. Todas as composições carregam a tristeza como estandarte principal. A personagem do álbum se transforma em outra pessoa devido à extrema dor que ele sente. O nome do álbum tem de retratar isso de alguma forma.

– No que está pensando?

– Em um título que seja um discurso em defesa da melancolia. Afinal, é ela quem nos inspira. Sem ela não estaríamos aqui. Este álbum será uma apologia à tristeza.

– Apologia à Tristeza. É um bom nome.

– Não, talvez … – Andreas ficou pensativo – … Apologia de um Homem Solitário Sobre a Depressão. Não. Depressão, não. “Apologia de um Homem Angustiado Sobre a Dor e a Melancolia”.

Apology About the Melancholy and Pain by Distress Man. Uma pequena inversão na colocação para soar melhor.

– Isso! Parece perfeito. O que acham?

– Isso é o nome do álbum ou a letra de uma música?

– Lembre-se que estamos aqui para revolucionar.

– Por mim, tudo bem. Achei legal.

– Eu gostei – disse Fábio.

– Eu também – foi a vez de Elou. – Ele exprime muito bem o conteúdo do nosso trabalho.

Andreas estava satisfeito. Sentia-se bem com a ideia de defender a melancolia, colocá-la sob holofotes favoráveis.

Restava saber se haveria alguém no mundo interessado em ouvir sua versão da história.

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