Os quatro homens estavam sentados em uma lanchonete – os semblantes e os sonhos cerrados. Quatro figuras, parecidas extraídas de mórbida literatura. Aquiles, Andreas, Elou e Fábio, tentavam definir o futuro da banda. E havia tensões nas entrelinhas que fugiam dos visíveis problemas principais deles. E um deles, para variar, envolvia Veraline.

Aquiles ouvia comentários sobre Veraline ter começado a usar drogas. A princípio, recusou-se a acreditar. Veraline? Usando drogas? A declaração era de uma irrealidade torturante. No entanto, diversas pessoas que tinham contato com ela, ainda que contatos eventuais, testemunhavam isso. A própria Márcia, que ainda mantinha uma proximidade com a amiga, confirmou os temores de Aquiles. O que começara com pequenas doses apenas para fugir da angústia após o fim do casamento com Marcos arrastara Veraline para um lamaçal onde ela perdera, de uma vez por todas, sua identidade. Ela não é mais a mesma pessoa, dissera Márcia, palavras pontuadas com tristeza.

Aquiles ficou profundamente decepcionado com as notícias. Chocado, seria a palavra certa. Ela sempre fora sua princesa, e como tal, não havia margens para imaginá-la usando drogas. Aquiles a enxergava como uma garota pura, delicada, e nunca como uma jovem autodestrutiva. Aqueles comentários faziam com que a princesa fosse pouco a pouco destronada, e Aquiles parecia querer acordar para o mundo frio e real.

Ao mesmo tempo, os pensamentos de Aquiles começavam a encontrar um suave repouso nas lembranças de Márcia. Sua presença intensificava os momentos de Aquiles. Era como se seu coração batesse em um ritmo diferente. Nada parecido a uma emoção obsessiva. Era um impulso racional que a personalidade de Márcia, sua conversa, e sua risada única proporcionavam. E Márcia parecia se interessar pelo que Aquiles gostava, por tudo o que ele sentia. Ele achara Veraline uma tola por buscar amores falsos quando ele lhe oferecera a pureza de um amor verdadeiro. E não estaria Aquiles agindo da mesma maneira se ignorasse o amor de Márcia, permitindo-se iludir com a imagem da ex-princesa Veraline?

Eram os conflitos internos que não lhe dariam qualquer sossego até que finalmente (e oficialmente) se decidisse.

Agora, Aquiles observava Andreas, o Sr. Melancólico. O fato de saber que aquilo que eles estavam produzindo não tinha mercado, além do fracasso criativo e comercial do segundo álbum, causara uma profunda depressão em Andreas. Ele achava que o King Jeremy navegava sem direção em um mar infinito onde apenas quem seguia a moda tinha o seu lugar estabelecido.

E por conta destas e de outras tensões, Andreas tornara-se insuportável.

Aquiles perguntara certa vez para Elou:

– O que a gente faz para ele parar de “explodir”?

– Não o contrarie.

Definitivamente, não era uma tarefa fácil.

O pior era que o péssimo humor de Andreas não contribuía em nada para ajudar Aquiles a lidar com seus próprios fantasmas. Onde quer que Andreas estivesse, ali havia uma nuvem negra repousando sobre todos. E isto se refletira claramente nas letras de Aquiles para o último álbum. As letras carregavam tanta angústia e depressão que a banda chegou a receber críticas por isso.

Por isso, eles estavam ali reunidos, com o objetivo de saber quais seriam os próximos rumos a tomar.

Andreas dizia:

– Me sinto como se estivesse preso, amarrado. Tudo o que fizemos, nossos esforços… de que tem adiantado? As pessoas nem sabem quem nós somos. De que adianta querer ser criativo, revolucionar, fazer a diferença, se as pessoas não ligam para inovações? Se eu tivesse que manter uma casa sozinho, sem a ajuda dos meus pais, estaria passando fome. E provavelmente já teria sido despejado.

– Todos nós estamos nesta situação, Andreas.

– E isso não é deprimente? Nosso primeiro álbum vendeu quinze mil cópias. O segundo, até agora, doze mil. Vocês acham que eu montei uma banda para isso? Se bobear, até Os Aborrecidos venderam mais.

– Mas você deve admitir que nosso segundo disco não foi tão bom quanto o primeiro – disse Aquiles, dando uma espezinhada em Andreas. – Isso explica a diminuição das vendas.

– É verdade. Não é tão bom quanto o primeiro. – Ele estava se irritando. Quem mandou questioná-lo? – Mas o que você achou de Misery and Mithology?

– Bom.

– Bom??? É assim que define aquele trabalho? Poderíamos ter feito um álbum mais criativo, mas Misery ainda é um excelente álbum. Especialmente se comparado com o que o mercado oferece. E você acha justo que quinze mil seja uma cifra considerável para um trabalho daquela estirpe?

Aquiles teve de concordar com Andreas.

Era verdade que o trabalho que eles tinham realizado era de boa qualidade. Mas o problema era que Andreas queria estar no topo do mundo, ele sempre queria ser o melhor. Ser parado por um grupo de jovens pedindo autógrafos, ter o hotel cercado por fãs de todo o mundo – tudo isso se tornara uma obsessão para ele. No entanto, nestes devaneios egocêntricos, Andreas estava sozinho. Ninguém na banda compartilhava de seus ideais.

– E o que acha que devemos fazer, Andreas? – perguntou, Elou. – Estamos fazendo nosso melhor. O resto é com o público. Não podemos forçá-los a concordar com nossas ideias.

– Estou completamente desmotivado. Esta é a verdade.

– Não são apenas problemas ideológicos. Estamos tendo problemas dentro da banda também. Nossa comunicação está fraca, e isso está nos destruindo.

As palavras de Elou fizeram com que Aquiles e Andreas trocassem um rápido olhar. Elou generalizou, mas o problema de comunicação dentro da banda era específico apenas dos dois. Aquiles sabia que estava bebendo demais e sabia que já estava na hora de parar com aquilo. Mas Andreas o atormentava tanto que ele acabava bebendo só para provocá-lo. Não era uma atitude madura, mas maturidade não era exatamente uma característica que integrava a realidade de Aquiles.

– Talvez precisemos de um tempo – disse Andreas, pegando todos desprevenidos. – Só para esfriar a cabeça. Alguns meses de folga. Quem sabe as coisas não voltam ao seu devido lugar? – Todos ficaram em silêncio. Ele então perguntou: – O que acha, Elou?

– Está falando em acabar com a banda?

– Não, estou falando em dar um tempo. Só isso.

– E o que acha que isso significa? Que daqui dois ou três meses estaremos todos de cabeça fria, prontos para recomeçar? Grande parte das bandas que “dão um tempo” nunca mais retornam.

– Eu sou contra – opinou Fábio.

Andreas olhou para Aquiles como que esperando que este tomasse a sua decisão. Aquiles estava consciente do que o King Jeremy significava. Ele realmente gostava do que estava fazendo. Mas, ao mesmo tempo, sentia o peso desanimador do clima na banda sobre seus frágeis ombros. Algo que o fazia lembrar dos últimos meses sinistros nos Aborrecidos. E o mal-humor de Andreas exercia um terrível efeito sobre o emocional de Aquiles. Por isso, ele tomou a única decisão que lhe parecia razoável:

– Acho que é uma boa ideia. Eu sou a favor.

– Eu também – disse Andreas. Todos olharam para Elou. – Se der empate seguimos adiante como se essa conversa nunca tivesse acontecido.

Elou suspirou, desconsolado.

– Se der empate, vamos fingir que isso nunca aconteceu. Mas a tensão e as desilusões deste dia vão nos acompanhar… sempre. – Elou levou as mãos ao rosto. Parecia realmente decepcionado. – Eu não acredito nisto. Tivemos tanto trabalho para conseguirmos uma gravadora, para lançar nosso álbum e, de repente, vocês querem largar tudo.

– Ninguém falou em largar tudo, Elou. Só estou falando em dar um tempo. Você ouviu muito bem.

– “Largar tudo”, “dar um tempo”, é tudo a mesma coisa. – Elou estava irritado.

– Nós precisamos de um tempo. Se for a favor, paramos agora e, se tudo der certo, ano que vem voltamos a conversar. Simples assim, cara. – Andreas deu uma pausa. – Então, o que diz? É a favor ou contra?

Todos olharam para Elou. Ele levou quase uma eternidade para dizer:

– Se eu for contra a dissolução, nossos problemas continuarão, e vão nos impedir de vencer como verdadeiros amigos. Por isso, pensando no nosso bem, e esperando que isso seja apenas “um tempo”, eu sou a favor.

Naquele momento, houve um baque surdo. Era o corpo do velho Jeremias sendo arremessado dentro da cova fria para ser, mais uma vez, sepultado.

Mas desta vez, Aquiles tinha a impressão de que seria para sempre.

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