1997

  • Radiohead lança OK Computer que ajuda a banda a cravar definitivamente seu nome na história do rock. O disco, que exige uma profunda concentração para ser compreendido, é chamado de Dark Side of the Moon dos anos 90;
  • Em Detroit, Jack e Meg White montam uma banda. Com um som influenciado por bandas como o Led Zeppelin, eles se autodenominam White Stripes;
  • Los Hermanos surge no cenário alternativo carioca. A banda inova ao misturar a velocidade e o peso do rock com a dramaticidade das letras do samba-canção;
  • Influenciado por bandas como Rage Against The Machine e Biohazard, o som do grupo Prodigy passa a incorporar elementos mais pesados. Somado a isso, há a combinação bombástica de Leeroy Thornhill e Keith Flint – incendiando a plateia com suas performances ensandecidas – com os vocais do rapper Maxim Reality e o aparato instrumental de Liam Howlett. O resultado disso pode ser ouvido no álbum The Fat Of The Land;
  • Bill Berry, baterista do REM, deixa a banda. O disco seguinte, chamado Up, tem a participação de alguns bateristas convidados. Esse disco é o mais experimental do REM, contendo elementos eletrônicos. É muito elogiado pela crítica, mas o público parece não entender a visão moderna da banda.

Nem os mais pessimistas poderiam prever isso: a fase musical do King Jeremy não era nada boa.

Depois do sucesso do álbum de estreia e de algumas apresentações em festivais alternativos, a banda voltava ao estúdio. Mas, contrário à direção dos favoráveis ventos iniciais, eles começavam a ter problemas.

Não havia como negar: a pressão existente por um álbum genial, após a receptividade entusiástica do Misery and Mythology, perseguia a banda durante aquele período. Enquanto ainda em estúdio, notícias sobre o início promissor do King Jeremy no cenário alternativo catapultava o ego da banda. E isso teve um terrível efeito emocional e criativo sobre todos. Especialmente sobre Andreas e Aquiles, as duas figuras mais inconsistentes, em sentido emocional, da banda.

Além disso, os frequentes episódios de bebedeira do guitarrista contribuíam para potencializar a tensão já existente.

Tornara-se rotina Aquiles aparecer bêbado no estúdio e nos shows. Neste estado, ele praticamente não sabia o que fazer com as mãos. Qualquer amador teria um desempenho superior. Às vezes, passava grande parte das canções tocando um mesmo acorde, enquanto seu olhar lânguido e vazio se perdia entre a audiência. Sem contar o espetáculo que sempre promovia, como nos tempos dos Aborrecidos. Em uma ocasião, após um solo enérgico (muito mal executado, por sinal), Aquiles jogara a guitarra para o alto. Mas, as mãos hesitantes, os olhos perdidos na nuvem alcoólica não colaboraram: e o resultado foi uma guitarra acertando em cheio sua testa desprotegida. Aquiles passou o resto do show com a testa sangrando e, o pior de tudo, se acabando de tanto rir.

Não havia como ignorar a realidade: Aquiles estava com sérios problemas. E seus problemas, logo, eram problemas da banda. Os conselhos de Andreas convergiam rapidamente para discussões, e o orgulho ferido do guitarrista o impedia de ceder.

Neste dia, a história tinha tudo para se repetir… pontuada com alguns agravantes.

Aquiles gravava a linha de guitarra. Não havia coordenação em seus braços, mãos e dedos. Seus olhos pareciam ainda mais estrábicos, perdidos no meio do nada. Os solos de guitarra eram lentos e falhos. Ele era chamado na sala de controle onde recebia algumas instruções. Então, voltava e não fazia nada do que ouvira, ignorando completamente o que lhe fora passado. Se aquilo fosse lançado, o álbum seria motivo de risada.

Andreas, sentado à mesa de som, levantou-se subitamente. Entrando na sala de gravação, disse:

– O que pensa que está fazendo?

Aquiles deu com os ombros, contorceu os lábios, mas não conseguiu proferir qualquer palavra, embora parecesse realmente empenhado.

– Se acha que precisamos de um idiota bêbado nesta banda está muito enganado. Você não tem a mínima condição de gravar.

– Eu estou bem. – Ele mal conseguia se equilibrar de pé. – Dá um tempo.

Andreas arrancou a guitarra de Aquiles a força, embora este lutasse em vão para resistir.

– Vá para o hotel e se recomponha. Volte amanhã, sóbrio, ou você não grava mais uma linha sequer.

– Você se acha o dono desta banda, não é mesmo? É igualzinho o Rodrigo. Ditador desgraçado.

Depois disso ele saiu, tropeçando em tudo, e deixando Andreas furioso por ter sido comparado a Rodrigo, o sujeito mais detestável da história humana. Andreas olhou para a equipe de gravação, depois para Fábio e Elou. Todos o observavam em silêncio.

Começou a afinar a guitarra com a sua voz, colocou os fones, e disse:

– Vamos continuar gravando.

Hesitaram.

Andreas olhou para todos e disse, firmemente:

– Eu vou gravar a porcaria da guitarra. Se apressem com isso.

Dizendo isso, a equipe de gravação entrou em ação.

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Nos dois dias seguintes, Aquiles não apareceu no estúdio. Andreas nem se importou, mas Elou e Fábio, os pacificadores, procuraram Aquiles no hotel insistindo para que voltasse a trabalhar. No entanto, segundo eles, Aquiles fora enfático em dizer que não estava nos melhores dos seus dias, e que esperassem sua boa vontade.

Quando ele resolveu aparecer, teve uma surpresa.

– Todas as guitarras já foram gravadas – anunciou Andreas, casual.

Ele percebeu a surpresa de Aquiles. Primeiramente um silêncio, conjugado com um semblante cerrado e incrédulo. E depois a pergunta:

– Como assim?

– Eu fiz o seu trabalho. Você estava ocupado demais com suas garrafas.

Aquiles olhou para os demais como que tentando confirmar se aquilo não passava de uma brincadeira. O silêncio de todos alardeava a resposta que ele parecia temer.

– Então você pode jogar no lixo tudo o que gravou, e vamos gravar tudo de novo.

– O que está feito, está feito, Aquiles. E se não estiver contente pode voltar a “encher a cara” que estou pouco me importando.

– O que quer dizer com isso?

– Faça as contas, e tome sua decisão.

– Está querendo dizer que quer que eu saia da banda? – Ele estava visivelmente transtornado.

– Estou querendo dizer que vá para o inferno, se quiser.

Eles lutavam para não acreditar nisso.

Mas a tensão retumbante naqueles dias parecia pressagiar o temível e precoce fim.

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Road to perjuryO segundo álbum do King Jeremy foi batizado como Road to Perjury (Estrada para o Perjúrio). As 10 faixas eram um retrato vívido da atual fase da banda. Eles exploraram mais o uso das pesadas guitarras, e o resultado foi um álbum nervoso. A sonoridade abandonou o ambiente experimental e caiu na mesmice. Dez faixas típicas de bandas de garagem – muito barulho e pouca criatividade. As letras de Aquiles poderiam levar multidões ao suicídio. Ele parecia querer ser um novo Goethe com seu Jovem Werther. Assim, tudo o que Andreas conseguiu sentir, ao ouvir o resultado final, foi desânimo.

Sua fase criativa parecia ter ficado atolada no primeiro álbum. Road to Perjury apresentava-se como um indicativo de que, de agora em diante, os álbuns do King Jeremy ofertariam a mediocridade para quem quisesse ouvir. Andreas sempre desejara ser conhecido como uma grande mente da música e, por quase toda sua vida, acreditara nisso. Sempre se imaginara acima das trivialidades da cena pop musical. Agora, porém, ele se conscientizava de que estivera enganado, o tempo todo. O que ele tinha a oferecer à música estava bem retratado na capa do álbum – uma estrada, apenas, que levava a um horizonte desconhecido. Esta era a perspectiva de Andreas: trilhar uma estrada sem um objetivo definido. E sem objetivos, ele não responderia a estímulos. Ele se lembrava de algum poeta que havia dito que deixávamos de ser ordinários quando tínhamos sonhos. Mas Andreas não encontrava ânimo sequer para sonhar.

Andreas – ordinário, apenas um dejeto humano.

Os sites do mundo alternativo não receberam o álbum com entusiasmo. Um crítico de um site alemão escreveu:

“Seu álbum de estreia era o indicativo de uma banda criativa disposta a fazer da qualidade, sua marca registrada. Agora, porém, com Road to Perjury, o King Jeremy manifesta uma decepcionante decadência.”

Outros críticos tiveram a mesma opinião. A dura realidade era que o próprio Andreas concordava com cada letra. E estar em decadência fazia com que ele se sentisse extremamente desgostoso consigo mesmo.

As coisas não melhoraram durante os shows de divulgação. Andreas e Aquiles praticamente não se falavam. Embora tivesse diminuído consideravelmente a ingestão de bebidas alcoólicas, o desempenho do guitarrista continuava muito aquém do esperado. Tudo isso somado ao pouco entusiasmo gerado por Road to Perjury, elevava o estresse do imaturo Andreas ao ponto máximo. Ele se sentia cansado, esgotado, extenuado – muito embora, estivesse dando apenas os primeiros passos em sua carreira musical.

Elou aconselhava-o, frequentemente.

– Não percebe que enquanto está neste estado, seu processo de criação fica comprometido?

– E o que devo fazer? Eu não sou mais o mesmo.

– Pare de se preocupar tanto, pare de se cobrar. Tente usufruir o momento. Lembre-se de onde você estava anos atrás. Tempo atrás, isso não passava de um sonho. Hoje é uma realidade.

– Não quero simplesmente tocar, Elou. Quero fazer algo do qual eu possa me orgulhar. E não me orgulho do rumo que as coisas estão tomando.

Talvez Elou estivesse com a razão. Talvez Andreas desejasse demais. Mas pensar diferente era como se esquecer de quem ele era. Diante dos seus olhos parecia haver apenas duas opções: ou dava vazão aos seus ideais, ou acabaria desistindo de tudo.

Sentindo-se estranhamente vazio, Andreas decidiu compor uma canção. Pegou o seu violão e tocou vários acordes, tentando fazer com que as notas se conjugassem, flertassem com a essência vívida do universo ao seu redor, e retumbassem seus ouvidos exigentes. Ele precisava disso. Ele precisava exorcizar sua angústia nas notas de uma intensa melodia.

E como se não bastassem os presságios negativos, após 2 horas de luta intensa com o violão, Andreas não conseguira compor absolutamente nada.

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