Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 24

Era uma mente que insistia em produzir; um coração que se recusava a bater

No início de 1996, Os Aborrecidos lançaram seu segundo álbum: “Coisas de Adolescente”. O álbum era uma palhaçada de 9 faixas sem criatividade. Os arranjos fugiam de sua inicial característica grunge para um rock melódico de dar dor no estômago. As letras eram um espetáculo a parte. Sem a inspiradora presença de Aquiles, o grupo ficara entregue a uma série de baboseiras rimadas. Não se lançava nada tão ruim no meio musical desde a extinção dos dinossauros. Consequentemente, as vendas do álbum eram pífias. E a banda se encaminhava rapidamente para um grande fracasso comercial.

Enquanto isso, King Jeremy ganhava espaço. Após apresentações relevantes em bares na cidade, eles foram contatados por Haroldo, um empresário disposto a agenciar a banda. Os contatos dele possibilitaram aumentar o leque de oportunidades para a nova banda, apresentando-se em casas de shows e festivais.

Segundo as previsões de Elou, e com o esforço conjunto de todos, o som do King Jeremy chegou aos ouvidos de profissionais da música alternativa na Europa, mais acostumados às ambientações sonoras distantes do comercial. Após intensos contatos e depois de ouvir o material da banda, uma gravadora inglesa demonstrou interesse em lançar o álbum de estreia do King Jeremy. A notícia pegara todos desprevenidos e gerara uma onda de êxtase e excitação nunca vista antes. Era um pequeno selo, mas um gigantesco passo para eles.

E apenas algumas semanas depois, os 4 jovens que, há pouco tempo ainda causavam estranheza e espanto entre colegas de escola, estavam a bordo de um avião com destino à Londres. Quando lá chegaram, Andreas experimentava uma sensação de antegosto do sucesso. Caminhando por entre prédios antigos e imponentes, ele se sentia como um astro incólume, camuflado na multidão. Mas que, em breve, seria impossível cobrir aquele percurso sem ser abordado por dezenas de pessoas.

O que tirou seu fôlego, e provavelmente de todos os outros, foi a visita que fizeram ao mais famoso estúdio da história: o Abbey Road, o mesmo estúdio usado por Beatles e Pink Floyd.

– Posso sentir o cheiro deles aqui – comentou Aquiles.

– Algum dia, sentirão nosso cheiro aqui também.

– Não viaja, cara – disse Elou. – Nosso destino está do outro lado da cidade.

Com um aperto no coração, Andreas deixou o Abbey Road para ir ao outro estúdio em questão. O restante daquele dia envolveu reuniões e avaliação da tecnologia que teriam à sua disposição para a gravação do álbum.

Os dias seguintes foram uma maratona de ensaios e gravações. Andreas concentrava todos os seus esforços no que a banda precisava criar no curto espaço de tempo. Como se tratava de uma gravadora para bandas alternativas, estavam acostumados às maluquices lançadas no mercado que agradavam tribos específicas de várias partes do mundo. Por isso, ele aproveitou para dar asas à sua imaginação e, junto com Elou, exploraram diversas sonoridades.

O trabalho foi intenso naqueles dias, porém, revigorante. Eles produziriam um álbum com 12 faixas. A primeira, Happy Beginning (Feliz Começo), seria uma estranha mistura de sons eletrônicos com arranjos de uma pequena orquestra. A sonoridade seria cativante, uma pequena referência ao título da faixa. A música porém terminaria pela metade, subitamente. A continuação dela estaria na última faixa Unhappy End (Triste Fim) – a mesma canção, porém, com a sonoridade mudada para um clima denso e triste.

As demais dez músicas não eram tão experimentais quanto desejado. Grande parte do que Andreas concebera anos antes já havia sido explorado por outras bandas inovadoras, e deixara de ser uma novidade. O resultado obtido pelo trabalho do King Jeremy seria um disco bem-feito, mas não revolucionador.

Após um mês de gravações e mixagem, ele estava pronto.

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Misery and mythology

O Misery and Mythology (Angústia e Mitologia), primeiro álbum do King Jeremy, foi lançado no mês de novembro. A capa era o desenho de uma jovem dançando. A imagem fora tirada de uma revista dos anos 50. Transmitia a ideia de contentamento e segurança. No encarte do álbum, porém, havia várias fotos de estúdio que não seguiam o cenário animador. Apresentava a mesma jovem, porém, em situações de zombaria, abuso de bebidas, e envolvimento com pequenos delitos. Segundo Andreas, isto expressava a condição humana sempre decadente, rumo ao fracasso, necessitando urgentemente de alguma orientação confiável.

Numa entrevista a uma revista londrina de pouca circulação, Andreas disse:

Misery and Mythology não é um álbum otimista. A vida humana não oferece otimismo algum.

Antes de voltar ao Brasil, Haroldo e a gravadora conseguiram espaços para eles tocarem em um festival. Era o Festival de Edimburgo, na Escócia, que contaria com a participação de doze bandas. Esta apresentação tornaria o King Jeremy conhecido no cenário alternativo, visto que revistas e sites especializados nesta vertente do rock davam ampla cobertura ao festival.

O dia da apresentação foi um dia ensolarado. Os 4 músicos estavam nos bastidores esperando sua vez para se apresentar diante de um público de quarenta mil pessoas. Um jovem de uns 20 anos corria de um lado para outro e disse a todos, em inglês:

– Depois desta banda, vocês terão dois minutos para se posicionarem. É tempo suficiente. – E saiu correndo novamente.

– Que foi que ele disse? – perguntou Fábio.

– Temos dois minutos para nos posicionar no palco – respondeu Elou.

– É tempo suficiente para ligar nossos instrumentos e levar a cervejinha – disse Aquiles, que a esta altura já estava bastante atordoado.

– Vá devagar com isso – disse Andreas, com autoridade. – Seu rendimento cai quase pela metade.

– Uma a mais, uma a menos, não fará diferença.

Todos ficaram em silêncio, um estado de transe e concentração, esperando o momento certo para entrar em ação. Andreas observava seus companheiros – há poucos anos, eles ainda eram ilustres desconhecidos, estudando no mesmo colégio, ignorado pelas mesmas pessoas. Quem os vira durante aquela época, jamais poderia imaginar que hoje estariam na Escócia, tocando para milhares de pessoas. Embora apenas o circuito alternativo tomaria conhecimento desta apresentação, Andreas não podia negar que haviam evoluído muito. Talvez não atingissem o tão esperado sucesso, mas já haviam deixado para trás o mundo estático onde estavam acostumados a viver.

Quando chegou o momento certo, eles entraram no palco. Andreas divisou a grande multidão. E gelou. Eram 40 mil pessoas, mas de sua privilegiada visão do palco, parecia ser um milhão. Seu coração batia aceleradamente. O público gritava e aplaudia embora nunca tivessem ouvido falar no King Jeremy. Na verdade, era a boa receptividade a todos aqueles que amavam o rock e queriam mantê-lo vivo.

Andreas disse, antes da primeira música:

– Todas as bandas presentes neste festival estão aqui para contar a história do rock. Mas não vamos contar como essa história termina. Viemos aqui para contar como é que ela começa.

O público vibrou, e enquanto os gritos da multidão faziam o sangue de Andreas correr mais rápido em suas veias, o som pesado da guitarra de Aquiles entrou nos seus ouvidos.

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king-jeremy

Eram apenas poucas linhas resumindo o festival, mas Andreas, de volta ao Brasil, sentiu-se satisfeito de ver o nome de sua banda estampado em um grande site de música. Poderia ser uma notícia destinada ao ostracismo. Ou, quem sabe, talvez fosse o reconhecimento catapultando o nome deles para o próximo nível.

Haroldo trouxe notícias animadoras: o Misery and Mythology havia atingido a marca de mil cópias vendidas. E isto em pouco tempo após a apresentação no festival de Edimburgo, que foi a porta de divulgação do álbum. O fato de saber que naquele momento, mil pessoas poderiam estar ouvindo seu trabalho, colocou-os em um estágio acima de êxtase.

No entanto, para atingir seus sonhos mais ambiciosos, Andreas sabia que precisariam vender bem mais do que 1.000 cópias. Se assim fosse, eles poderiam comemorar a conquista de um mercado tão concorrido.

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Era uma sexta-feira, uma noite fria, embora estivessem próximos do final do ano. A avenida estava movimentada. Os jovens eram os donos da rua. Os bares estavam apinhados de pessoas que tentavam se divertir depois de uma semana estressante. Carros arrancavam num barulho ensurdecedor a cada pequeno espaço de tempo. Vozes ecoavam, pessoas se deslocavam, vultos se divertiam.

E por entre a multidão, caminhava o Sr. Diferente. Andreas, sozinho, caminhava naquela noite, sem vir de lugar algum, sem ter para onde ir. A nuvem negra voltara a pairar sobre sua cabeça. E seus hesitantes passos que se arrastavam pela calçada úmida denunciavam isso.

Sua banda estava indo bem. Tocavam a cada intervalo regular e já tinham apresentações agendadas até meados do ano seguinte. O disco de estreia vendera dez mil cópias. E entre uma apresentação e outra, o King Jeremy já trabalhava em cima daquele que seria o 2° álbum da banda.

Mas nesta noite, Andreas sentiu-se só e desestimulado. Estranhas sensações tomavam seu corpo e, no final das contas, eram apenas sensações. Eram apenas fantasmas mantidos vivos por uma mente que funcionava na velocidade da luz, e um coração carente que parecia não bater. Tudo o que Andreas queria era suplantar sua dor, mas a agonia em seu íntimo rasgava-lhe as veias. Por mais que tentasse, a dor sempre vencia. E ele se sentia não mais do que um dejeto humano.

Dejetos humanos e a busca de um sentido na vida.

Andreas parou diante de um bar. Em uma mesa havia vários jovens rindo sabe lá do quê. Desde criança, Andreas detestava ver pessoas sorrindo enquanto ele estivesse deprimido. Será que tinham esperança? Ou seriam aquelas risadas apenas o medo disfarçado? Provavelmente, o horror do amanhã dominava a alma de todos, mas alguns sabiam disfarçar bem.

E o horror caminhava de mãos dadas com ele.

Por que não termina logo com toda essa porcaria, coelho?

Caminhando por entre tantos, Andreas percebia que ninguém o conhecia. Eram personagens anônimos de crônicas grandes, pequenas, frívolas. Ele tinha uma banda que vendera milhares de discos, era comentada em sites especializados em rock, e ele já tocara para 40 mil pessoas em um grande festival na Europa. Isso já era motivo suficiente para inflar seu ego, mas … de que adiantava? Nenhuma daquelas pessoas sabiam dos seus feitos. Para todas aquelas pessoas, King Jeremy era apenas uma inóspita exalação. Andreas trabalhava exaustivamente dia e noite para produzir algo capaz de inflar o coração das pessoas. Mas aquelas pessoas seguiam suas vidas, sem nunca ter ouvido um de seus acordes. King Jeremy não fazia diferença na vida delas. E era exatamente ali que residia sua infelicidade. Andreas era um escravo da aprovação alheia. Dependia da capacidade de impressionar pessoas, em vez de usufruir sua identidade. Ele se sentia como uma pessoa que recebe uma boa notícia, mas não tem com quem compartilhar. Uma diferente forma de solidão que amplificava sua dor.

Logo ele se cansou de andar. Não tinha conhecidos, não tinha direção – e o que os infames coelhos deveriam esperar, afinal? Decidiu ir para casa enfrentar a solidão em um lugar mais quente, ao menos.

Quando deu meia-volta, ouviu uma voz atrás de si, gritar:

– Andreas.

Em uma fração de segundos, Andreas sentiu que seu coração voltava a bater. Como era bom saber que alguém no meio daquela multidão sabia quem ele era!

Você sabia que ainda não era sua hora, não é mesmo, coelho?

Quando ele se virou, se deparou com 3 pessoas na mesa de uma lanchonete. Uma delas, uma jovenzinha, lhe acenava.

Era Suzana.

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– Mas vejam se não é o talentoso Andreas. – Davi Mateus, o dono do estúdio dos primeiros ensaios dos Aborrecidos, apertou firmemente a mão de Andreas. Ele, a esposa e a filha comiam um lanche. – Sente com a gente, e peça alguma coisa para comer.

– Obrigado.

Ele se sentou, mas estava terrivelmente envergonhado. Em um palco ou mesmo em um estúdio, ele era outra pessoa. Tinha confiança, autoridade. Mas em qualquer outro habitat, Andreas não sabia como agir, nem sobre o que conversar.

Colocou as mãos sobre a mesa, depois sobre as pernas. Voltou a colocar as mãos na mesa só para mudar de ideia e voltar a colocá-las sobre as pernas. Andreas se arrependeu de ter aceitado o convite para sentar. Na verdade, muito provavelmente, Davi o convidou apenas por uma questão de gentileza. Mas não esperava que ele fosse aceitar. Afinal, o proprietário de um estúdio estava passando tempo com sua esposa e filha. E agora, Andreas surgia para atrapalhar aquele momento família. Andreas decidiu escapar daquela situação na primeira oportunidade que tivesse.

– Fiquei sabendo que sua nova banda está indo muito bem. – Davi Mateus puxou assunto. – Qual é mesmo o nome dela?

King Jeremy, pai – apressou-se em responder, Suzana.

Andreas suspirou, satisfeito. Afinal, alguém em meio àquela multidão ouvira falar em sua banda.

– Ah, é verdade. – Ele apontou para a filha. – Essa aqui é fã de vocês.

Fã número 1 – corrigiu, ela.

– Me fez mexer os pauzinhos para conseguir comprar o CD da sua banda.

Por um momento, Andreas ficou sem fala.

– Como? Você comprou nosso álbum?

– Misery and Mythology – respondeu, Suzana. – O senhor de um disco. Valeu cada centavo da minha mesada.

Aquilo entrando no pulmão de Andreas era ar. Aquilo correndo em suas veias era sangue.

Suzana devia estar na faixa dos 13 ou 14 anos, e lembrava muito Andreas quando ele tinha a mesma idade. Naquela época, Andreas já possuía um gosto musical altamente apurado, guiando-se pela qualidade, e Suzana parecia seguir a mesma trilha. Quem sabe não seria a líder de uma banda decidida a revolucionar o mundo da música?

Suzana disse:

– Achei as fotos do encarte meio fortes.

– Esta é a razão do título “Angústia e Mitologia”. Todas as pessoas têm a expectativa de serem felizes. Mas, para muitas, isso não passa de fantasia. Uma mitologia. A realidade com que se deparam é a angústia que nos acompanha, dia após dia.

Houve um silêncio assustador na mesa assim que ele terminou a frase. As 3 pessoas encaravam-no, em um misto de surpresa e desaprovação. Afinal, o que o idiota esperava? Uma família feliz, curtindo um final de noite, e ele vinha com essas conversas depressivas.

Ele forçou algumas tossidas, disfarçando, enquanto Davi tentava quebrar o momento tenso:

– Vocês andaram tocando no exterior, não é mesmo?

– Sim. Tivemos uma oportunidade. Daqui a dois meses vamos tocar na Argentina. O mercado alternativo ali é muito grande.

– Mas nada se compara à Europa. Ali, uma banda pode enriquecer sem nunca tocar em uma rádio. E o som de vocês é muito bom. Acho que tem uma boa chance de conquistar aquele mercado.

– Fico feliz que tenha gostado. Respeito muita sua opinião.

– Vocês já estão pensando no próximo álbum? – perguntou, Suzana.

– Calma, filha. Você nem ouviu o primeiro direito, e já quer o segundo?

Andreas riu.

– Na verdade, eu tenho um vício: sempre estou compondo. Temos muito material. Mas grande parte delas, muito provavelmente, ficarão engavetadas.

– Não deixa de ser uma boa notícia.

– Mas para ser mais específico e saciar a sua curiosidade, pretendemos lançar o segundo álbum no próximo ano.

– Explore sua criatividade, garoto – disse, Davi. – Você tem de sobra.

– Seus pais gostam de que siga essa carreira? – Foi a mãe de Suzana quem perguntou.

– Sim, senhora. Eles querem me ver produzindo com algo que gosto. E sendo um trabalho honesto, eles dão apoio. – Ele voltou-se para Davi. – E como está o estúdio?

– Da mesma forma que antes. Alugo para ensaios, faço algumas gravações, essas coisas. Não mudou muita coisa desde que vocês passaram por lá. Mas dá para pagar as contas.

Andreas estava ficando sem assunto. E já havia passado da hora de desaparecer dali.

– Acho melhor eu ir embora.

– Mas está cedo. Você nem pediu algo para comer. – Davi Mateus era um bom ator. Quase era possível acreditar no seu desejo de que Andreas realmente ficasse.

– Obrigado, mas não estou com fome. Preciso ir mesmo.

Antes que ele conseguisse escapar, Suzana disse:

– Não se esqueça: sou sua fã número 1.

– Não vou esquecer. Prometo.

– Você é o cara, Andreas. Tenho certeza de que ainda vou ouvir falar muito do King Jeremy.

Ele desejava de todo o coração que ela estivesse certa.

Quando voltou a mergulhar na multidão, Andreas não se sentia mais como o Sr. Diferente.

Pelo menos naquela noite, o coelho acreditava que teria um momento de paz.

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1 Comment

  1. Esperando ansiosa pelos próximos capítulo, seu autor vamos mandar novos capítulos pliss….

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