É constrangedor este teatro vil. Madrugadas elétricas e inconsequentes não eliminam o denso véu

Veraline, fisicamente, estava na casa de seus pais, em pé, diante de um grande espelho. Porém, mental e emocionalmente, parecia residir em outra dimensão. O coração batia em um ritmo destoado da realidade. O rosto estava bem mais fino e o desgosto parecia se desenhar em traços mal definidos pela sua face. “Derrotada” era o resumo de tudo aquilo que podia ser visto no espelho.

Seu casamento passara de mal a pior desde o baile no final do ano anterior.

Veraline tirara Aquiles para dançar naquela noite e o par inusitado chamara a atenção da maioria. Incluindo Marcos. Talvez ele tivesse reagido diferente se Veraline tivesse dançado com uma dúzia de homens. Mas dançar com Aquiles fora o cúmulo. Marcos nutria um especial desprezo por ele, e a atitude de Veraline pareceu gerar um efeito contrário ao que esperava.

A relação que estava tensa foi se deteriorando a cada dia. Quase não havia diálogo entre o casal, e a regra só era quebrada quando havia alguma cobrança a ser colocada em questão. Com o passar dos meses, Marcos começara a se ausentar. Houve ocasiões de avançar madrugadas, segundo ele, com os “amigos”.

Os dias se arrastaram exaustivamente. Em dado momento ela decidira ceder, e tentara de tudo para reconquistar o amor dele. Mas, enquanto se esforçava em corrigir a situação, Veraline percebia seu marido cada vez mais distante, uma amarga solidão em dividir a cama com um homem invisível.

No dia em que ela pedira perdão por todas as coisas erradas que havia feito – embora no íntimo, não achasse que estivesse errada – Marcos anunciara que iria abandoná-la.

Tempestades, ondas frias, um turbilhão de emoções – tudo correu e corroeu simultaneamente o corpo de Veraline. Uma confusa viagem por dimensões paralelas, cada qual mais fria e sombria que a outra. Quando voltara à realidade, descobrira-se sozinha, o corpo trêmulo, tendo Marcos já partido.

Após o divórcio, Veraline voltou a morar com os pais. E agora, ela posicionava-se novamente diante do espelho que tantas outras vezes presenciara sua postura dominante. Hoje, Veraline não era mais a mesma menina imponente de beleza irradiante. Era apenas uma máscara de angústia.

Ela ficou por horas naquela posição, parada diante do espelho. Ignorava os apelos dos pais para sair do quarto, e a comida que sua mãe trouxera à tarde, esfriara.

Veraline só saiu daquela posição no momento em que desabou de exaustão.

___

Ela se encontrou com Aquiles, no dia seguinte.

Veraline saíra com alguns amigos depois de muita insistência de Márcia, demasiadamente preocupada com seu estado letárgico. Veraline queria se recompor, embora no fundo, não acreditasse que fosse possível. Esquecer Marcos parecia uma vã tentativa de romper uma muralha inexpugnável. Em um instante, ela dizia a si mesma que seria capaz de superar tudo, e no segundo seguinte, invadiam-lhe lembranças tão reais como se Marcos ainda estivesse ao seu lado. Por isso, talvez conseguisse clarear ideias e sentimentos se saísse um pouco de casa.

Elas foram até um barzinho no centro. Era noite de sexta-feira. Quando lá chegaram, encontraram um casal de amigos. Entre beijos e abraços, Veraline foi bombardeada com olhares carregados de piedade. Detestava a ideia de alguém sentir pena dela.

O casal era Flávia, dos tempos de escola, e seu novo namorado, cujo nome Veraline esquecera. Sua memória não estava funcionando muito bem, ultimamente.

O tema das conversas procuravam manter Veraline longe de sua angustiante realidade. Todos atuavam bem, fingindo-se interessados em assuntos banais. A própria Veraline fingia, forçando sorrisos a cada 10 segundos.

Ela olhava a sua volta enquanto respondia mecanicamente às perguntas mecânicas de seus amigos mecânicos. Naquele momento, eles pareciam tão distantes. Falsos, vagos e distantes.

Amigos com falas mecânicas em um deserto do mundo (ir)real.

Logo, Flávia e o namorado resolveram conversar apenas entre si, ignorando o universo ao redor. Veraline aproveitou a pausa nos assuntos vazios para examinar sua volta. No palco, uma banda tocava músicas dos anos 60. O ambiente nostálgico evocava emoções. E não era das melhores. Aquele ambiente todo pintado em preto e branco tinha um aspecto deprimente.

– Que achou? – perguntou Márcia, ao perceber que Veraline estudava o ambiente.

– Antigo.

– Acho que é isso o que querem transmitir.

– Uma tentativa de fugir da realidade? – Ela deu uma pausa causticante. – Espero que dê certo.

Márcia colocou sua mão sobre a dela.

– Você vai superar – sussurrou para o casal não ouvir.

– Estou superando – mentiu. Depois, voltando ao assunto: – Você vem sempre aqui?

– Quase toda semana. Hoje quis vir por causa do Aquiles.

– Ele vem aqui?

– Sim. Ele vai tocar mais tarde.

Aquiles era pior que um vírus. Veraline tinha impressão de que, se pegasse um ônibus espacial, daria de cara com o bêbado vesgo em Marte.

– Você está gostando dele, não é, Márcia?

– Talvez. – Suspirou. – Na verdade, gosto sim. É um cara que realmente se importa. Ele não quer entrar em um relacionamento pensando no proveito que vai tirar. Ele quer dar de si, proteger, entende?

– Parece nobre. E por que não abre o jogo com ele?

Márcia desviou o olhar parecendo um pouco constrangida.

– Eu abri.

Isso é surpreendente, pensou Veraline.

– E então?

– Ele não aceitou.

– Não??? Esse cara é idiota?

– Ele me disse que … que gosta de outra pessoa.

A resposta pegou Veraline de surpresa, afinal sabia quem era o alvo do amor de Aquiles. E a situação era especialmente constrangedora porque Márcia também sabia.

Aquilo parecia uma obsessão. Depois de tantos anos ignorando-o, Aquiles ainda encontrava forças para continuar apaixonado por Veraline. Ele precisava urgentemente de uma camisa de força.

Márcia continuou:

– Ele disse que não estaria sendo honesto se me namorasse, sendo que gosta de outra pessoa.

Aquilo sim era nobreza. Honestidade. Exatamente o que faltara em seu casamento.

– E como você recebeu este “não”?

– Passei a amá-lo ainda mais, Vera. Que homem no mundo faria o que ele fez?

Veraline observou atentamente os olhos da amiga enquanto falava. Ela realmente gostava daquele esquisito. Mas não havia como negar: a decisão dele, embora nada inteligente, era honesta. E o fato de saber que ele estava agindo assim exatamente por gostar de Veraline conseguiu fazê-la sentir-se um pouco menos deprimida.

– E o que vai fazer, Márcia?

Ela olhou bem dentro dos olhos da amiga.

– Fazê-lo esquecer-se desta pessoa.

___

Meia hora depois, Aquiles subiu ao palco com sua banda. Ele estava com o cabelo desgrenhado e parecia sem muita coordenação. Seu olhar era perdido e distante. Aquiles viu Márcia e acenou-lhe.

– Ele mal se aguenta em pé – comentou, Veraline.

– Estou preocupada. Ele anda bebendo muito.

Isso não é de hoje, minha querida. Daqui a pouco ele começa a destruir tudo.

Veraline observou os quatro homens no palco. Velhos rostos conhecidos da escola. Além de Aquiles, ali estava Fábio, um negro alto e imponente. Andreas parecia uma pequena criatura de outro planeta, mas cantava muito bem. Elou poderia ser o único homem realmente bonito daquela banda, porém, fazia questão de ser esquisito. A cabeça raspada, um preto vivaz contornando seus olhos, inteiramente vestido de preto – era uma figura assustadoramente mórbida.

– Eles têm nome? – perguntou Veraline.

– Acho que é Jing Keremy – disse Cristiane.

King Jeremy, Cris – corrigiu-a, Márcia.

– O que significa isso?

– Deve ser algum rei medieval que ouviram na aula de História.

O namorado de Flávia, cujo nome Veraline ainda não se lembrava, disse:

– Eles sempre tocam aqui nos finais de semana. Mandam muito bem, você vai ver.

Depois de duas ou três canções, Veraline viu Aquiles aproximar-se do microfone e dizer, com a voz trêmula:

– A letra desta canção é dedicada a todos aqueles que tiveram suas esperanças amorosas construídas sobre uma base frágil. Amores perdidos, pecados mantidos – somos os únicos neste mundo tão cheio de nada.

Veraline viu os olhos de Aquiles pousarem sobre ela, e sentiu-se envergonhada porque notou que Márcia percebera a mesma coisa. Parecendo constrangida, Márcia levantou-se e disse que ia ao banheiro.

Até aquele momento, o King Jeremy havia cantado apenas músicas em inglês. Esta era a primeira em português. Andreas começou a cantar. A letra falava de esperanças infundadas, a dor da traição. O modo como a música definia o sentimento de Veraline era surpreendente. Elas faziam todo o sentido do mundo, e pareciam ter sido escritas a partir de suas experiências. Tamanho foi a identificação que Veraline abaixou a cabeça e precisou controlar as lágrimas.

Neste momento, Flávia colocou um pequeno comprimido ao lado do copo de Veraline.

– Experimente. Vai ajudá-la.

– O que é isso?

O namorado sem nome de Flávia inclinou-se e disse, sorrindo:

– Passagem para o paraíso.

– Confie em mim. Não é nada pesado. E vai aliviar sua dor.

Aliviar a dor. Era tudo o que ela queria. Tudo o que precisava.

Veraline hesitou durante um tempo. E Flávia parecia aproveitar a ausência de Márcia para tentar convencê-la. A música continuava fincando-lhe pregos na alma, denunciando sua dor para dezenas de jovens embriagados.

No momento em que divisou Márcia saindo do banheiro e vindo em direção a mesa, Veraline tomou uma decisão e engoliu o comprimido.

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