As belas palavras tiveram um efeito entorpecente, e ele não sabia mais em qual direção deveria sorrir.

1996

  • O grupo escocês Belle and Sebastian lança seu álbum de estreia: Tigermilk. Fazendo um rock melodioso com uma sonoridade sessentista, o grupo se destaca pela sua conduta antimarketing, que chega ao ponto de se apresentarem apenas em colégios e salões de igrejas;
  • Priscilla Leoni, mais conhecida como Pitty, funda a banda underground Inkoma;
  • Em junho, o Blur toca Song 2 em Dublin, Irlanda, música esta que viria a ser lançada no disco do ano seguinte. A música é uma composição de Damon Albarn, do Blur, e Stephen Malkmus, do Pavement. Este é o sinal de que a banda está tomando uma nova direção, sendo mais experimental e deixando um pouco de lado a levada pop;
  • Sob influência do The Byrds e Dire Straits, Jakob Dylan e sua banda Wallflowers lançam Bringing Down the Horses. A canção One Headlight explode nas rádios do mundo inteiro;
  • Chris Martin, Guy Berryman, Jonny Buckland e Will Champion se conhecem na Universidade de Londres. Começa a ser escrita a história do Coldplay.

A primeira apresentação do King Jeremy foi no Long Island. O barzinho era um tributo aos anos 50, 60 e 70. Era todo pintado de preto e branco, os garçons usavam roupas e penteados típicos da época, e a parede possuía vários quadros de figuras importantes da cultura mundial como Chaplin, Elvis e Capra. Um lugar agradável e perfeito para uma apresentação musical de qualidade.

No dia da estreia, Aquiles não conseguia abandonar a melancolia, ao ser esbofeteado com flashes de sua realidade estática. A despeito de estar em uma banda recém-formada, não podia deixar de pensar no fato de avançar impiedosamente para os 21 anos. Era verdade: o King Jeremy poderia conseguir uma gravadora. Talvez ele conseguisse passar sua vida na estrada, fazendo o que tanto gostava. Mas, a pergunta mórbida persistia: e se não desse certo? Grande parte dos jovens em sua idade estavam na faculdade ou fazendo cursos técnicos. Enquanto isso, Aquiles e seus amigos estranhos tocavam em uma noite de sexta-feira por alguns trocados. A sensação de envelhecer sem rumo, sem estrutura, amedrontava-o profundamente.

Um mês antes, os 4 jovens estiveram naquele cemitério assustador. Fora ali que Andreas tivera a maluca decisão de nomear a banda com o nome de um explorador de diamantes. Resumidamente, ele tomou a decisão sozinho. Aquiles acreditava que os outros não gostaram da sugestão, mas ninguém discordou. Na verdade, o entusiasmo de Andreas naquele momento foi o fator determinante em convencê-los.

Aquiles gostaria de ter bem vívido em sua memória os acontecimentos daquela noite, mas estava tão travado da bebedeira que acabara mergulhando numa nuvem alcoólica que bloqueava a lembrança dos detalhes.

Mas ele conseguia se lembrar do que acontecera após a escolha do nome para a banda. Andreas, o senhor das ideias malucas, decidira fazer um pacto. Apesar de sinistro (um pacto em um cemitério), o conteúdo se referia basicamente à união e lealdade dos 4 jovens. Na ocasião, Andreas dissera algo como:

– Este local, nesta noite, é o palco do surgimento daquilo que esperamos ficar gravado na história. Talvez, finalmente, seremos reconhecidos pelo que realmente somos. Não queremos apenas ser bons, queremos ser os melhores. Não queremos estar entre os elogiados, queremos ser os únicos. Mas tudo o que somos e seremos de agora em diante faz parte de um único conjunto. Todos nós aqui reunidos somos parte de um corpo. Somos membros individuais que se completam. Poderemos conquistar nosso lugar ao sol, mas precisamos estar unidos para isso. Assim é hoje. E terá de ser assim, sempre. Portanto, eu proponho a todos um pacto: hoje, dia 3 de dezembro de 1995, o King Jeremy nasceu. E ele há de viver enquanto estivermos juntos. Se um dia qualquer um de nós abandonar o barco, o Rei Jeremias voltará ao túmulo. Sua vida depende de nossa união. É o que proponho, e aqueles que concordarem comigo, coloquem sua mão sobre a minha. – Ele estendera a mão e, um a um, todos colocaram a mão sobre a dele.

Naquele dia, eles sacramentaram seu pacto. Disso, Aquiles conseguia se lembrar. Mas da história de que desabara sobre o túmulo do velho Jeremias, para ele, era apenas conversa furada.

Aquiles soou o primeiro acorde de sua guitarra. Era a primeira vez que uma nota do King Jeremy se deslocava no ar para atingir um público, invadindo sentimentos e intensidades. Talvez este momento entrasse para a história.

Ou talvez fosse apenas mais um dia qualquer na vida de 4 idiotas sonhadores.

___

Dois meses depois, o King Jeremy foi convidado para tocar em um festival de rock alternativo, de 4 dias em Curitiba. Aquela seria a décima edição do festival e esperava-se um público de 60 mil pessoas no total. Seria uma grande oportunidade para a banda mostrar seu trabalho ambicioso para um público maior.

No dia em que viajariam para Curitiba, Márcia apareceu na casa de Aquiles. Ela usava camiseta branca, jeans e tênis. Não poderia estar vestida de forma mais simples, mas Aquiles não deixou de pensar:

Como está bonita!

– Fiquei sabendo que vão viajar hoje.

– Como ficou sabendo?

– Ouvi atrás das parreiras – disse ela, rindo. – Quantos dias vão ficar fora?

– Segunda-feira estamos de volta.

– Sei.

Aquiles percebeu que ela parecia um pouco tensa.

– Que bom que vocês estão ganhando espaço. Tocando nas capitais. Estou torcendo muito por vocês.

– Existe um companheirismo entre bandas alternativas. Elas não costumam pisar umas nas outras. As bandas se ajudam a conseguir gravadoras, shows, essas coisas. Ainda existe gente boa nesta humanidade decadente.

– Dá gosto de trabalhar assim.

– Esta apresentação em Curitiba foi conseguida graças a intervenção de uns camaradas que tocam rock lá na cidade. Eles deram uns toques para os organizadores, e aí fomos convidados.

– Que legal!

Aquiles suspeitou de que ela, talvez, não estivesse muito interessada. Pelo menos, não demonstrava, apesar de um comentário ou outro. Estava estranha, esta era a verdade. Por isso, resolveu mudar o rumo da conversa.

– E aí, conseguiu emprego?

– Vou fazer entrevista no jornal na segunda-feira. Tomara que dê certo. Daí no meio do ano eu presto vestibular para jornalismo, e já estarei dentro do ramo.

– Estou torcendo por você. Se ser feliz é uma questão de merecimento, então você merece.

Ela hesitou.

– Interessante falar isso. É exatamente sobre isso que vim falar.

Aquiles ficou sem entender.

– Sobre o quê?

– Ser feliz. É o que estou tentando fazer, mas falta algo.

– Tipo o quê?

– Não é tão simples assim. É tão difícil definir sentimentos.

– Basta tentar.

– O que eu sinto não é novo ou imaturo, como se nascesse da noite para o dia. É algo que vem crescendo dia após dia. Sem controle, mas com minha autorização. É algo que me faz sentir bem, mas ao mesmo tempo, insegura. – Aquiles começou a suspeitar do que ela estava querendo dizer. – Aquiles …

– O que foi? – Ele percebeu sua voz trêmula.

– Eu … Eu gosto de você!

As palavras ecoaram na cabeça de Aquiles causando-lhe vertigens. A frase de Márcia, tão simples, tão breve, tornou-se eterna em seu íntimo, ecoando repetidamente, milhares de vezes. As palavras chocavam-se de forma intensa contra as paredes da aorta, pulmão, estômago, garganta. Jamais poderia esperar que uma garota como Márcia pudesse lhe dizer algo parecido.

Aquiles tentou se situar no tempo e espaço. Olhou a sua volta, lembrou-se de onde estava, de quem era, do que Márcia acabara de lhe dizer. Ele observou que ela estava tensa, tremendo, mas logo chegou a conclusão de que ele mesmo tremia. Suas mãos suavam apesar de gélidas, o coração batia com violência, a boca tão seca quanto um deserto.

Ele tentou respirar fundo, mas não conseguiu.

– Diga alguma coisa, Aquiles.

– O quê?

– Eu sei lá. Diga qualquer coisa.

– Eu não sei o que dizer. Nem … no que pensar.

– Eu já sei. Você ainda gosta da Vera, não é?

Tudo o que Aquiles desejava era que Elou e os outros aparecessem de carro agora para tirá-lo daquela situação. Se Aquiles ao menos tivesse desconfiado de que Márcia sentia alguma coisa por ele, poderia ter se preparado. Mas como havia perdido seu amor-próprio havia muito tempo, nunca conceberia a ideia de que uma jovem estaria apaixonada por ele. Aquiles até chegara a se questionar se ele mesmo não estaria gostando dela. Mas, o contrário, estava além das expectativas racionais. Por isso, Aquiles era uma figura estática, sem palavras.

– Eu não sei exatamente o que sinto por qualquer pessoa, Márcia. Eu preciso pensar, me situar.

– Tudo bem – disse ela, desanimada, parecendo interpretar isso como um “não”. – Pense o tempo que quiser. Eu não vou pressioná-lo. Apenas achei que deveria saber. Não seria justo eu sentir uma coisa tão bonita e esconder isso de você.

Esta última frase deixou Aquiles emocionado.

A sensação de ser amado era inebriante.

– Eu procuro você quando voltar. Na segunda, ok?

– Ok. Boa viagem!

– Obrigado.

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King Jeremy se apresentou na noite de sábado. Outras 8 bandas dividiram o palco com eles no decorrer de cinco horas. As primeiras bandas a se apresentar eram de uma vertente punk. O som pesado de três acordes levou o público ao delírio. Observando as milhares de pessoas no festival, Aquiles entendeu o porquê. Todos ali pertenciam às mais diversas tribos do rock, mas a presença de punks e metaleiros era evidentemente superior. Ele tinha a impressão de que a participação do King Jeremy não seria acolhida com tanto entusiasmo, já que eles faziam um som mais diversificado que chegava abranger blues, dando intensas escapadas para o eletrônico e psicodélico. Portanto, Andreas sugerira tocarem as músicas com maior acentuação de guitarra e bateria, para agradar o público específico.

Depois de duas horas de show, naquele sábado, houve um intervalo de meia hora. Logo em seguida, o heavy metal tomou conta do palco e mais uma vez, o público deixou-se levar pelo entusiasmo. Uma hora se passou, e chegou a vez do King Jeremy.

O apresentador do festival declarou:

– Temos agora mais um representante do rock do nosso estado. Com vocês o som criativo de … King Jeremy.

No meio dos aplausos, Aquiles se sentiu em casa. Estava meio bêbado, mas não o suficiente para desperceber a energia que vinha em ondas da multidão. Foi então que percebeu com quanta saudade estava de tocar para um público tão grande.

Eles tocaram durante meia hora. Cinco músicas no total. O resultado foi uma apresentação de qualidade, embora a banda não exibisse sua verdadeira personalidade inovadora.

Quando o show terminou, Andreas, Fábio e Elou discutiram o que saíra certo e errado. Mas Aquiles foi para um canto, com uma lata de cerveja, e pôs-se a pensar. Seus pensamentos viajavam desde Veraline até Márcia. Para ele, sua situação não poderia ser mais complicada. Ele sabia que amava Veraline. Por outro lado, não sabia exatamente o que sentia por Márcia, embora a presença dela lhe fizesse muito bem. Desde o baile do ano anterior, Aquiles percebera que a presença de Márcia lhe dava uma sensação de paz. Mas estaria ele sendo justo se começasse a namorar com ela, sendo que passava grande parte do tempo pensando em outra pessoa? No entanto, estaria sendo inteligente se dispensasse Márcia, mesmo sabendo que jamais conseguiria ter Veraline ao seu lado? Qualquer uma das decisões que ele tomasse seria tanto inteligente quanto idiota. Então o que ele poderia fazer?

Tomar outra cerveja, concluiu.

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Eles voltaram para casa pouco antes do alvorecer de segunda-feira. Aquiles aproveitou para dormir algumas horas. Estava muito cansado e, apesar de muito ansioso, não teve dificuldades em “apagar”.

Quando levantou às 10 da manhã, a cabeça latejando, tomou um café bem forte. Estava ansioso para poder conversar com Márcia. Havia tomado sua decisão e queria falar com ela o quanto antes. Enfrentara tamanha indecisão nos últimos dias que tinha medo de mudar de ideia.

Aquiles decidira agir como uma pessoa inteligente. Márcia era uma das poucas pessoas no mundo que se importava com ele. E este era motivo suficiente para considerar como realista um namoro com ela. Márcia tinha algo para lhe completar, uma faísca capaz de acender-lhe a chama, e ele não queria perder esta oportunidade. Veraline que fosse ao inferno. Ela estava casada mesmo. E nada poderia mudar esta triste realidade.

Sua mãe, que lia um jornal, disse, casualmente:

– Aquela menina que morava aqui perto se separou.

– Separou? – perguntou Aquiles sem muito interesse.

– Os casamentos de hoje em dia não são como antigamente. No meu tempo, eram para sempre. Hoje, as pessoas se casam num dia, passam por alguns probleminhas, e vão logo se separando.

– A modernidade é o veneno da humanidade.

– Tenho pena dos jovens de hoje.

A mãe de Aquiles largou o jornal e ele, sem muito interesse, apanhou para ver a notícia.

Seu coração falhou uma batida quando viu a foto, e leu a legenda:

“ Divorciaram: Marcos e Veraline Benevides. Dia 25”.

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