Todo o universo pode mudar da noite para o dia – desde que tal dia seja 3 de Dezembro de 1995.

Ele estivera mergulhado entre cinzas e pó, isolado, sozinho, apenas uma figura soturna próxima ao colégio, a medida que os alunos chegavam para o grande baile (que de “grande”, não tinha nada).

O súbito surgimento de Fábio, que deveria estar em turnê, foi uma visita realmente surpresa. Mais surpreendente ainda era a razão dele estar ali, e não viajando com a banda.

Dias atrás, ele cometera o erro de comentar com os integrantes dos Aborrecidos sobre o convite que recebera de Andreas. A partir deste dia, Rodrigo começou a persegui-lo. Cobranças, ameaças, desconfianças – um resumo da convivência com o pequeno ditador “aborrecido”.

A princípio, Fábio, sempre calmo, ignorara. Mas Rodrigo parecia precisar de alguém para perseguir. Andreas achava que ele carregava em si uma terrível insegurança, como se soubesse que os dias da banda estavam contados. A insegurança era convertida em perseguição até contra quem nunca o desafiou.

Certo dia, após uma discussão, Fábio deixou de comparecer dois dias aos ensaios. Sua ausência seria o seu silencioso protesto. Não houve necessidade de um motivo maior para Rodrigo chamar outro baterista. Ele alegou que Fábio havia deixado a banda “para se juntar aos desertores”.

– E por isso, eu voltei – concluiu a história.

– Mas, isso é oficial? Você está fora mesmo?

– Documentadamente fora.

– Rodrigo vai acabar sozinho nesta banda.

– Não duvido muito.

– Bom, no final das contas, há um lado positivo nisso tudo.

– Qual?

– Ainda precisamos de um baterista.

– O prazo que me deu não era uma semana?

– Resolvi estender.

Fábio ficou pensativo. Mas as linhas em seu rosto denunciavam que a ideia lhe agradava, e muito.

– Se você entrar para nossa banda – continuou Andreas – seremos uma verdadeira família. A gente se conhece e se entende. Com você, estaremos completos.

– Qual o nome da banda de vocês?

Andreas deu uma risadinha sem graça.

– Ainda não temos um. Talvez agora, se estivermos completos, conseguiremos definir isso. Mas, antes, você precisa me dizer se aceita a oferta ou não.

– Posso pensar no assunto?

– Você já teve prazo demais. Sim ou não?

Fábio sorriu.

___

O primeiro ensaio do quarteto se deu no dia seguinte, a noite. Elou e Andreas estavam inspirados com o novo integrante. Aquiles, porém, era uma figura distante. Tinha o semblante carregado, e não rendia tanto quanto era capaz.

O ensaio prosseguira por duas horas a fio. Eles já tinham um bom repertório de músicas compostas pós-Aborrecidos. Eram músicas mais maduras e mais ousadas, porém, que exigiam ouvidos mais apurados. Eram tão ousadas que poderiam levar uma banda definitivamente ao fracasso.

Mas Andreas procurava não pensar nisso. Ele deixava-se levar para o universo musical, entusiasmado com o som produzido pelos 4 jovens. Ele gostava do modo improvisador de Fábio tocar sua bateria e acreditava que, finalmente, a banda estava completa. Não havia nada que estivesse faltando.

Exceto um nome.

– Que tal decidirmos um nome para a banda? – sugeriu Fábio. – Estamos sem identidade.

– Já pensamos em mil nomes – disse Aquiles. – Mas nada combina com a gente.

– Nem é tão difícil assim.

– Dá uma ideia, então.

– Deixe-me ver … – Fábio pensou durante alguns instantes. – Defensores de Marrakesh?

Andreas simplesmente meneou a cabeça, desaprovando. Ele já tinha um princípio formado:

– O nome precisa nos colocar no topo da situação. Algo que não deixe dúvidas do nosso propósito: revolucionar o mundo da música.

– Aí começa a parecer mais difícil. Que tal Soul and Body?

– Previsível.

– My Friend Hurricane? – sugeriu, Elou.

– Isso soa melhor numa banda irreverente.

– Love Cats? – Foi a vez de Aquiles.

– Dispensa comentários.

– Caramba, Andreas. Tudo para você não presta, nada serve, nada encaixa.

– É como eu disse: nenhum desses nomes mostram o porquê viemos.

– Revolucionários da Música – finalizou Aquiles, mais em protesto do que como sugestão.

– Cara, nós vamos carregar este nome para a posteridade. Não podemos ter simplesmente um nome que soa bem. Precisa ser o melhor.

– Então acho que caberá a você escolher. Minhas opções se esgotaram.

Andreas deu de ombros. Seu cérebro também se recusava a cooperar.

– Bom, gente – disse Elou – acho que por hoje já chega. Que tal darmos uma saída?

Todos olharam-no desconfiado.

– Ir onde? No cemitério?

– Sim.

– Estou fora – apressou-se em dizer, Fábio.

– Acho melhor não, Elou. Já está tarde.

– Qual é? Vamos conversar um pouco, tomar alguma coisa.

– Uma ideia interessante, mas … não num cemitério.

– Deixe de preconceito. Um cemitério é um local público como outro qualquer. Com a diferença que é pura paz. Vamos lá. O que acham?

Os três convidados se entreolharam.

___

Meia hora depois estavam no cemitério municipal, reunidos ali pela segunda vez. Ainda era a noite de 3 de Dezembro. Uma data como outra qualquer, imaginariam eles. Mas até a meia-noite este dia se tornaria único na vida de todos aqueles jovens.

Os 4 estavam sentados em bancos – Elou dizia que era falta de respeito sentar nos túmulos.

– Como se sentiria se chegasse no cemitério e visse um bando de jovens bebendo e sentados no túmulo de seus pais? – argumentava.

Elou era um bom rapaz. A despeito da aparência e modos esquisitos, ele era dono de uma personalidade cativante.

Eles haviam trazido um pouco de bebida. Andreas e Fábio não bebiam. Elou bebia moderadamente. E Aquiles entornava a garrafa. Ele bebia com tanta avidez que parecia querer engolir a garrafa. Era evidente que já se encontrava em estado de dependência, e isto preocupava Andreas.

Depois de muita conversa, Aquiles levantou-se e começou a falar em voz alta, a garrafa vazia nas mãos:

– Aquela safada, ela é… uma safada.

– Inteligente a definição.

– Vocês ficaram sabendo o que Veraline fez comigo? – Sua voz estava embargada. O idiota mal conseguia ficar de pé.

– Eu sei – respondeu, Elou. – Eu vi tudo.

– Ela me tirou para dançar no baile, a safada.

Andreas olhou para Elou, surpreso.

– Sério isso?

– Sério.

– Primeiro, ela me despreza, me ignora, me teme, me ataca, tira tudo o que havia de bom em mim. Agora, depois de casada, ela me tira para dançar? – Ele começou a dar gargalhadas. – Quem ela pensa que eu sou?

Então, Andreas compreendeu o desânimo do amigo no ensaio, mais cedo.

Aquiles continuou seu discurso, falando cada vez mais alto:

– Mas tudo bem. Ela age assim porque pensa que sou um otário apaixonado. Mas sou muito mais do que isso. Meu nome… é Aquiles Lucká. – Ele tocou o pescoço onde outrora havia uma pequena cicatriz. – É assim que as pessoas me conhecerão. Aquiles Lucká, o maior guitarrista de todos os tempos.

– Se ele abaixar a braguilha, saiam de perto – advertiu Fábio.

– E se vocês quiserem conquistar o mundo, venham comigo. Vocês não vão se decepcionar.

De repente, ele ficou parado, em silêncio, olhando o vazio. Andreas achou que ele ia vomitar. Mas logo ele começou a caminhar em círculos, cambaleando, até que se sentou em um túmulo.

Elou protestou.

– Não sente no velho Jeremias, seu idiota.

– Quem? – perguntou Aquiles, os olhos tão fundos que mal se percebia seu estrabismo.

– Este cidadão que está debaixo da sua bunda branca.

Aquiles se levantou, com evidente dificuldade, e disse ao falecido:

– Me desculpe, seu … Jeremias. Foi sem querer.

Mal acabou de falar, Aquiles cambaleou novamente, e desabou sobre o túmulo. Andreas correu para ajudá-lo a se pôr de pé.

– Acho melhor você parar com essa história de beber, Aquiles, ou vai acabar se matando.

Parar??? Mas eu nem comecei direito.

Depois que ele se equilibrou, Andreas observou a lápide do túmulo do tal Jeremias. Havia algo de curioso ali:

Jeremias Knoxville

Nascido em 27 de Maio de 1910

Falecido em 27 de Maio de 1980

Trouxe dos Estados Unidos oportunidades de trabalho para milhares

e leva consigo nossa sincera gratidão pelos serviços prestados à comunidade.

Andreas comentou:

– Esse cara morreu no mesmo dia do nascimento?

Elou, que dizia conhecer a história de todos os sepultados ali, foi logo dizendo:

– Ao completar exatos 70 anos, o velho Jeremias faleceu. Nunca ouviu falar nele?

– Não.

– Era muito rico. Ele veio dos Estados Unidos quando tinha trinta e poucos anos. Chegou aqui e começou a trabalhar com a exploração de diamantes. Enriqueceu, abriu indústrias. Era um milionário. Certeza de que nunca ouviu falar do “Rei dos Diamantes”?

– Não.

– Ele ficou ainda mais famoso quando morreu no dia do aniversário. Ele deve ter tido um troço no momento em que assoprava as velinhas. – Ele riu, mas Andreas continuou sério.

Elou foi até Aquiles que parecia dizer ou fazer alguma traquinagem em cima de outro túmulo, mas Andreas não prestava atenção em nada do que acontecia à sua volta. Subitamente, não havia mais seres humanos no planeta. O mundo era habitado apenas por duas pessoas: Andreas e Jeremias Knoxville. Ele olhava para o túmulo, para a inscrição, parecendo hipnotizado. Ali estava a resposta. Naquela lápide estava a resposta que faltava para eles. Jeremias era o “Rei dos Diamantes”. O Rei dos Diamantes. Brilhe, Louco Diamante. O Rei Jeremias. E isso definia tudo. O futuro começava a fazer sentido para ele. Começava a se definir, de forma lúcida e perfeita.

Andreas primeiro sorriu. Depois disse, baixinho:

– Obrigado, senhor Jeremias. Fico lhe devendo essa. De todo o coração, muito obrigado.

Um momento depois, ele virou-se para trás e gritou com os braços erguidos em vitória:

– Conseguimos. – Todos olharam para ele, espantados. – Estamos completos e prontos. Temos, enfim, a nossa identidade. A partir de hoje, o mundo nos conhecerá como… King Jeremy!!!

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