Por mais que eu queira fugir, sua luz ainda me persegue na escuridão.

Aquele seria o último baile do colégio ao qual Veraline estaria presente. Por isso, ela estava decidida a arrasar.

Quando ela chegou, o pátio do colégio estava cheio. Veraline gostava de ser uma das últimas a entrar em qualquer ambiente – assim, o número de pessoas admirando-a simultaneamente seria muito maior. E não havia como não admirá-la. A cada dia, ela estava mais bonita. E o vestido que usava nesta noite rotulava Veraline como a grande atração do baile.

O casamento de Veraline, ainda nos estágios iniciais dos primeiros meses, já emitia sinais de problemas. O fato de ter perdido Marcos uma vez criou em seu íntimo uma desgastante sensação de insegurança. Se ele deixava de ser carinhoso por um dia, ela desconfiava de alguma traição. Não havia o benefício da dúvida. Para todos os efeitos, Marcos era culpado. Somado à sua insegurança, havia o famigerado ciúmes. Na maioria das vezes, isto resultava em discussões.

E quem conhecesse intimamente o casal, podia perceber que naquela noite eles não estavam bem.

Ela entrou de braços dados com Marcos. Mas logo ele se afastou para cumprimentar alguns conhecidos. Ela se sentiu ultrajada com aquilo, mas decidiu não protestar.

Uma das amigas de Veraline desde a quinta série, Cristiane, se aproximou.

– Você está linda, hoje, Vera.

– Eu sabia – respondeu, brincando.

– Marcos também está ótimo.

– Eu também sabia. – Desta vez, havia pulsos e tons enciumados em sua voz. – Onde está seu par?

Cristiane apontou para a multidão.

– Está perdido no meio de toda esta gente. Esses rapazes não sabem tratar uma garota. São tão formais e educados na hora de nos convidar para o baile, e quando chegam aqui, nos largam num canto qualquer para ficar batendo papo com os amigos que veem todos os dias.

– A Flávia e a Márcia já chegaram?

– Já. E por falar nisso: você se lembra que a Márcia estava fazendo um mistério para revelar quem era o par dela?

– Sim.

– Você não vai acreditar.

– Quem é?

– Uma dica: é feio e esquisito.

– Hum… Andreas???

– Não. Outra dica: ele é famosinho.

– Você está brincando? O Aquiles?

– Dá para acreditar, menina?

– Qual é o problema da Márcia? Foi só o cara aparecer na TV e ela cai matando? O idiota não passa de um bêbado. O que deu nela?

– Eu sei lá. Gosto não se discute.

Mal gosto, você quer dizer. Espero que Marcos não trombe com o Aquiles por aí. Não sei o que poderia acontecer.

– Mais confusão.

– Deus me livre!

– Que Ele nos livre. Bem, vou ver se acho meu par. A gente se vê. – Dizendo isso, ela se afastou e mergulhou na multidão.

Logo todos os pares estavam dançando. Veraline não queria passar por qualquer vexame ao ser ignorada pelo próprio marido em público. Assim, tratou de agarrar a mão de Marcos e arrastá-lo para o centro do salão. Enquanto todos os casais conversavam entre si, desfrutando do momento, Veraline e Marcos compartilhavam um angustiante silêncio. Ela preferiria conversar com ele, era verdade, mas seu orgulho a impedia. Assim, esperava ansiosamente por uma iniciativa dele.

Os minutos passavam e logo Marcos se manifestou, mas não da forma como ela esperava.

– Cansei. Vou ao banheiro e já volto. – E saiu.

Veraline teve a sensação assustadora de que estava perdendo Marcos, mais uma vez. Poderia evitar isso. Para isso, precisava de uma medida emergencial. E ela imaginava o que deveria fazer para tê-lo de volta. Talvez se deixasse o orgulho de lado. Talvez se voltasse ao seu estado de ânimo anterior, a Veraline amorosa, sempre prestativa. Ela sabia que com essas coisas do coração não se pode brincar. Por isso, precisava tomar uma decisão rápida.

Ela ficou caminhando pelo salão observando toda a decoração e todas as pessoas que ali estavam. Conhecia cada um daqueles rostos e todos aqueles rostos a conheciam ainda melhor. Se lembrava de quando conhecera aquelas pessoas quando viera do Rio. Na época, estava com apenas 12 anos, mas se lembrava de que fizera o maior sucesso quando começara a estudar ali. Fora nesta época que conhecera Marcos e se apaixonara. O tempo passara, mas sua história estava apenas começando. Ela tinha muitos sonhos e muitos planos. E a vitória sempre seria o seu alvo final.

Veraline sempre vence.

Neste momento, ela divisou Marcos no corredor que conduzia ao banheiro. Ele estava falando com Cristiane. Se isto já representava um certo problema, pior ainda era a proximidade dos dois ao conversarem. Veraline aproximou-se sem ser notada. Era óbvio. Estava no olhar de ambos: Marcos flertava Cristiane, e ela parecia gostar muito da situação. O olhar da amiga parecia dizer: “Sim, eu te quero. Dane-se Veraline. Ela nunca significou nada para você e muito menos para mim.” A raiva começou a pulsar as artérias de Veraline. Seu estômago queimava. Se Marcos não sabia se comportar, se ele agia para fazê-la sentir-se mal, ultrajada e traída, ela lhe daria uma resposta na mesma moeda.

Veraline saiu dali e começou a percorrer o pátio, olhando para todos os lados, procurando. Sua procura demorou menos de um minuto. Logo observou sua amiga Márcia dançando com Aquiles. Ele parecia estar sóbrio, pelo menos.

Veraline aproximou-se.

– Oi, Márcia.

– Oi, Vera. Não tinha te visto hoje.

Que mentira, pensou Veraline. Todos me viram.

– Você está muito bonita.

– Ah, obrigada, Vera. Você está linda, também.

Ela lançou um rápido olhar para Aquiles. Ele parecia hipnotizado com a refulgente beleza dela. Ele era realmente um homem apaixonado. Veraline conhecia muitos homens que a amavam, mas iguais a Aquiles parecia não haver nenhum.

– Posso te pedir um favor, Márcia?

– Claro.

– Posso dançar esta música com o Aquiles?

Se fosse uma competição para ver qual dos dois demonstraria maior surpresa, teria dado empate. Os dois pareciam a ponto de sofrer um ataque cardíaco. Márcia gaguejou alguma coisa que não foi possível compreender.

– Vamos lá, Márcia, qual é o problema? Eu não vou roubar seu namorado.

– Ele não é meu namorado. Somos amigos.

– Então eu não vou roubar o seu amigo. – Ela virou-se para perguntar para Aquiles. – Você se incomodaria de dançar comigo?

– Eu … eu …

– Pois bem. – E voltou-se para a amiga. – E então?

– Tudo bem.. sem problemas.

Márcia se afastou e Veraline juntou seu corpo ao de Aquiles. Ele estava paralisado, o corpo todo rígido, quase sem movimento. Veraline sabia agora o que significava dançar com uma estátua. O moleque mal respirava.

– Procure relaxar – disse ela.

Abraçada a ele, Veraline não pode deixar de compará-lo a Marcos. Seu marido era alto, bonito e forte. Mas ao dançar com Aquiles, ela sentia os ossos da costela dele machucando seu corpo. E ver aquele sujeitinho vesgo de perto era ainda mais assustador. Por que ele não passava uma navalha naquele bigodinho ridículo que o deixava com cara de idiota? Veraline deu graças a Deus quando percebeu que Aquiles não tinha mau hálito, no momento em que ele disse:

– Você … está bem?

– Estou. E você?

– Preciso de alguns minutos para … responder.

Ela sorriu.

Veraline se lembrava da época em que tinha medo de Aquiles, de quando achava que ele era um psicopata, alguém que representasse perigo. Mas tal impressão estava mudando. Ela percebia que Aquiles não passava de um garotinho feio e tímido, com grande dificuldade em se relacionar com outros.

Ela percebia Aquiles apertando seu corpo contra o dela. Parecia querer senti-la mais de perto, como se ainda não acreditasse que aquilo estivesse acontecendo. Queria se certificar de que Veraline era real.

E foi então que Aquiles perguntou:

– E … seu marido?

– Não se preocupe com meu marido.

– Como não? Ele é maior do que eu.

– Mas você já teve coragem de enfrentá-lo uma vez, lembra? Mas se isso te deixa mais tranquilo, acho que ele não vai se incomodar.

Acha? Quer dizer que ele não sabe que estamos … dançando?

– Não. Por que deveria?

– E você acha isso certo?

– Tente não pensar em termos de certo e errado. Apenas desfrute o momento.

– Eu poderia desfrutar o momento se você tivesse aceitado … – Ele hesitou.

– Aceitado o quê?

– Me aceitado quando quis cuidar de você.

– Não preciso que ninguém cuide de mim.

– Ainda assim, isto não está certo.

– O que não está certo, Aquiles? – Ela perguntou com irritação.

Ele desvencilhou-se dela.

Olhou bem dentro dos olhos de Veraline, antes de arrematar:

– Volte para seu marido.

Aquiles deu-lhe as costas e foi embora.

Ela ficou ali, parada, saboreando o gosto da rejeição. O homem mais bonito do baile, seu marido, estava flertando com sua amiga. E o homem mais feio recusara-se a dançar com ela, agindo com uma dignidade e respeito desprezíveis.

Veraline observou Aquiles indo em direção à Márcia, enquanto se sentia a pessoa mais repulsiva dentro daquele salão.

Ir Para CAPÍTULO 21