Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 19

A lembrança feriu sua alma. Ele era a bola da vez.

A nova banda foi formada em meados de 1995. Tinha Andreas no vocal e baixo, Aquiles na guitarra e Elou nos teclados. A bateria ficava por conta da tecnologia que Elou tinha em seus aparatos e sintetizador de alguns poucos milhares de dólares. Dava para disfarçar, embora ficasse devendo no quesito improvisação – fator determinante para diferenciar os verdadeiros músicos.

A banda ainda não tinha nome. Eles pensaram em mil opções, mas não chegaram a um consenso. O som seguiria a mesma vertente dos Aborrecidos enquanto um sexteto, com algumas diferenças notáveis. O conhecimento de Elou e a instrumentação que possuía dava outro impacto à criatividade de Andreas. Ele imaginava diversos sons e efeitos, e Elou ajustava os efeitos e reverbs no sintetizador. Assim, a criação e experimentação ganhavam asas.

Aquiles não ficava para trás. Depois de experimentar a sensação de ser um músico profissional, estava determinado a fazer carreira com a nova banda. E sob a tutela exigente de Andreas, seguia todo o cronograma de criação e ensaios.

Com relação às letras, Elou dera a ordem:

– Nada de músicas em português. O tipo de som que fazemos é para o público mundial. Vamos cantar somente em inglês.

E assim, sob esta nova regra, Aquiles escrevia e Elou traduzia.

O processo de composição, arranjos e ensaios se estendia. Andreas guiava todos com mão forte, e os resultados obtidos melhoravam a cada dia.

Mas nada afastava de sua mente a necessidade de terem um bom baterista. Lembrou-se de Fábio. Havia uma conexão interessante entre eles. Uma essência química que, de certa forma, os unia criativamente. Andreas descobriu-se perguntando se haveria uma possibilidade, ainda que remota, de Fábio abandonar os Aborrecidos e passar a integrar uma banda desconhecida, sem nome, e mantida por 3 figuras estranhas. Parecia pouco provável. Talvez se Fábio tivesse algum problema mental.

Os Aborrecidos seguiam sua carreira. Ainda estavam em turnê de estreia. No entanto, Andreas estava convencido de que o elo criativo existente na banda havia sido destruído. Ainda tinha bem vívido em sua memória a música “Tô Nem Aí Com Você”, a coisa mais grotesca e bizarra que ele ouvira em toda sua vida. Os Aborrecidos precisavam urgentemente de um compositor. Ou, então, de algum milagre. Andreas, um ser amargo sem saber ao certo seu lugar no universo, só conseguia torcer para que eles não conseguissem nenhum dos dois.

Fazia alguns dias que Fábio não apareceria na escola, devido às viagens com a banda. Ansioso como sempre, Andreas não aguardaria sua volta. Naquela noite, ele conseguira o telefone do hotel onde a banda estava hospedada, em Curitiba, e ligou para o amigo.

– Como está a agenda, cara?

– Temos show esse final de semana. Depois volto pra aí.

– E vai ficar aqui muito tempo?

– Não. Na quinta e sábado, temos show no interior de São Paulo.

– E a escola?

– Meio complicado. Mas tenho que correr atrás. Essas faltas detonam.

– Pois é.

– E está tudo certo por aí?

– Sim. O Aquiles que está com um problema de incontinência urinária, mas está se tratando. – Andreas começou a rir.

– Nem me fale. Você não imagina como o negócio ficou tenso por conta daquilo.

– Acho que imagino sim. Mas, cá entre nós, o Aquiles tem personalidade.

– Ele é louco, isso sim.

– Mas, então. Está sabendo que a gente montou uma nova banda?

– Sério? – Fábio parecia genuinamente surpreso. – Você e o Aquiles?

– E o Elou, também.

– Pô, legal. Vocês têm talento. Acho que vão se dar bem.

– Mas ainda precisamos de um baterista.

– Espalha uns cartazes no colégio, na universidade.

– Você não está entendendo. Estou dizendo que precisamos de você.

Ele fez silêncio.

– Qual é, Andreas? Você sabe que não tem como.

– Por que não?

– Porque eu já tenho uma banda.

– Fábio, tente enxergar as coisas. Se não fosse por nós, Os Aborrecidos ainda estariam ensaiando uma vez por semana no Davi Mateus. Até onde acha que vocês conseguirão ir?

– Sei lá, cara.

– Os Aborrecidos não têm futuro. Quando o Rogério nos convidou para tocarmos com vocês, ele mesmo disse que a banda era um fracasso em todos os sentidos. Não há condições da banda ir muito longe.

– Mas eu não posso abandonar os caras.

– O Aquiles é o meu melhor amigo. No entanto, quando saí da banda, ele não veio atrás de mim. Isso não tem nada a ver com amizade. Para sobrevivermos com a música é inevitável: precisamos do sucesso. E Os Aborrecidos não têm condições de continuar fazendo sucesso.

– Não sei, não.

– Nós temos futuro. O Elou conhece muita gente da Inglaterra. Estamos compondo tudo em inglês. Este mercado alternativo é muito mais garantido para nós do que o mercado nacional para Os Aborrecidos.

– Pode ser. Mas, sair de uma banda com gravadora, em turnê, para uma banda que ainda está na garagem, me parece loucura.

Não havia como negar, ele tinha razão.

Andreas suspirou.

– Posso te dar um prazo, caso mude de ideia?

– Não vou mudar de ideia. Foi mal.

– Uma semana.

– Não precisa me dar prazo, Andreas. Não vou mudar de ideia.

– Uma semana, Fábio. Pense no que lhe disse.

– Mande um abraço para a galera. A gente se vê.

Eles desligaram.

___

Andreas vivia em uma espécie de dimensão paralela. Não conseguia se concentrar em nada. Durante as aulas, em vez de ouvir as explicações lógicas saírem da boca dos professores, tudo o que ele ouvia eram sons ininteligíveis. As pessoas a sua volta eram nada mais do que vultos. Tudo o que lhe rodeava não fazia sentido. A única coisa que lhe completava era a realidade que havia criado, um ambiente utópico onde ele era rei e senhor.

Andreas mergulhara fundo em sua banda sem nome. Estava confiante. Durante o tempo em que esteve nos Aborrecidos, sempre houve os fantasmas ameaçadores de Rodrigo e do pai dele para incomodá-lo. Mas agora era diferente. Ele tinha liberdade e inspiração para criar. Seus ideais ganhavam força no apoio que recebia de Aquiles e Elou. Eles tinham tudo para dar certo. Sonhar com o sucesso não era pensar alto demais. Esta era a sua dimensão. Talvez, no final das coisas, o mundo lá fora era a dimensão paralela.

Havia, de fato, motivos para sorrir.

Mas, então, de forma inexplicável como costuma acontecer, Andreas mergulhou em depressão. A mudança foi súbita. Ele caminhava pela rua se sentindo o rei do mundo. Alguns poucos segundos depois, foi sufocado por uma nuvem negra que lhe abateu furiosamente.

E de repente, caminhando pelas ruas – passos não direcionados –, se sentiu um estranho. Andreas, o anônimo. O deslocado. O inseguro. Sentia-se perdido no meio da multidão. Tudo o que ele queria era ter respostas e ser amado. Tudo o que ele queria era evaporar.

Pânico. Suor. Tom sinistro.

Tudo rodava, mais uma vez. Havia uma tensão no ar. Havia sons ininteligíveis ao seu redor. Medo e frio. Andreas, apunhalado. Os coelhos sempre são apunhalados na escuridão. E os vermes olham para a parede vazia e se perguntam se alguém quer afagar-lhe a cabeça.

Branca de Neve, e se seu príncipe for um psicopata?

A escuridão colocou a mão pesada sobre o ombro de Andreas. E sorriu para ele, um sorriso cínico. “De que adianta chorar, filho? Você não vai durar muito tempo, mesmo”.

E ele acreditou seriamente que não duraria muito.

___

Andreas ficou três dias afastado dos ensaios. Mergulhara fundo em um mundo sombrio onde não tinha vontade de tocar, comer ou respirar. Mas sabia que não podia se ausentar assim. O projeto “banda sem nome” precisava de sua liderança. Assim, ainda se arrastando, o lunático Andreas estava de volta.

Após seu retorno, eles começaram a procurar bateristas. Embora acreditasse que Fábio pudesse retornar seu telefonema, isso não aconteceu. Portanto, fizeram testes com 3 interessados, mas nenhum estava a altura do que Andreas exigia.

– Precisamos só de um baterista, não de um Charles Watts – reclamara Aquiles, irritado com a exigência de Andreas numa época em que precisavam tanto de um quarto integrante.

Andreas apenas encarou Aquiles com um olhar sinistro, psicótico; e o moleque calou a boca. Andreas não gostava de ser questionado. Ele acreditava ter a capacidade de olhar além do que o horizonte conseguia desenhar, e este era o fator determinante na hora de escolher um baterista. Não queria um quarto integrante que destoasse a musicalidade da banda, e que os levasse para o poço.

Falhar era um dos seus piores pesadelos.

___

– Já sabem quem vai tocar no baile este ano? – perguntou Elou aos amigos durante o intervalo das aulas.

Andreas nada respondeu. Na verdade, não havia dito uma palavra sequer nos últimos 5 minutos.

– Los Bonos e Buenos? – perguntou Aquiles.

– Sim.

– Como todos os malditos anos. Os Aborrecidos foram apenas uma interrupção momentânea no ciclo contínuo. – Aquiles deu uma pausa. – Há dois anos estávamos todos tensos e eufóricos. Nossa primeira apresentação ao vivo.

– E se deram bem? – perguntou Elou.

– Foi um sucesso, cara. Aquele dia mudou nossas vidas. Daí, a gente começou a ser convidado para tocar em vários lugares, a Atlantic City se interessou… – Ele suspirou, desanimado. – Até que voltamos à estaca zero.

Subitamente, o morto-vivo abriu a boca e, parecendo querer mudar de assunto, perguntou:

– Você vai vir ao baile, Elou?

– Claro. Acha que vou ficar fora dessa? E você não vai?

Andreas deu uma risadinha nervosa.

– Eu e o Aquiles sempre ficamos de fora. As garotas não têm interesse em nossa companhia.

Aquiles ficou um pouco sem graça.

– Dessa vez não, cara. Eu convidei a Márcia para o baile e … e ela aceitou.

Andreas observou Aquiles, surpreso.

– Sério?

– É sério.

– Bom para você, cara.

O que será esta expressão absurdamente melancólica no semblante do coelho abandonado?

No último baile que eles poderiam participar, já que estavam concluindo o terceiro colegial, Aquiles conseguira uma garota para acompanhar. Uma despedida e tanto! Andreas nem fazia ideia de que Aquiles estivera cogitando a possibilidade de convidá-la. E nem imaginaria que ela seria capaz de aceitar.

Andreas se lembrava de que eles costumavam dizer que, se um dia conseguissem levar uma garota para o baile, o mundo acabaria no mesmo instante. Mas Aquiles conseguira. E o mundo não dava sinais de que acabaria. Quem poderia conceber uma coisa dessas?

A lembrança fere sua alma, verme rejeitado. Você é a bola da vez.

Quando o baile iniciasse, Aquiles e Elou estariam dançando com belas garotas. Fábio, que estava em turnê, estaria tocando com Os Aborrecidos em alguma cidade do interior.

E, no mesmo segundo, Andreas mofaria em seu quarto, olhando-se no espelho e perguntando, invariavelmente:

– Deus, que fez comigo?

___

E, finalmente, o dia do baile chegou – mais rápido do que ele poderia imaginar. A noite derramava seu véu sobre os casais animados, a medida que chegavam ao grande evento. Sorrisos eram a marca registrada de cada um que ali comparecia. Alegria, satisfação, contentamento. Era o que seus rostos pareciam dizer.

Em uma distância segura, sem ser visto por ninguém, um vulto observava a movimentação. Era Andreas. Poderia ter ficado em casa, mas sua vocação para sofrer o levou até lá. Ele observava todos entrando no colégio, um a um. A cada casal sorridente recém-chegado, as nuvens tornavam-se mais densas sobre aquele corpo cansado. Foi dali que pode divisar Elou e Aquiles chegando, cada qual com seu respectivo par. Como não poderia deixar de ser, os dois amigos também sorriam.

E o vulto sombrio era apenas uma máscara de angústia e dor. A solidão o castigava – uma arma mortal que lhe perfurava o coração. O medo lhe afagava a pele, e penetrava em sua corrente sanguínea.

Andreas gostaria de chorar. Dar vazão aos seus sentimentos. Talvez se sentisse melhor. Não era o que costumavam dizer? No entanto, ele simplesmente não conseguia. As lágrimas se recusavam a sair. Por mais que abrisse as comportas do seu peito angustiado, o choro parecia petrificado em seu coração. No final das contas, talvez um homem frio e insensível seja tudo o que tenha restado.

Neste instante, alguém se aproximou por trás de Andreas.

Uma voz familiar lhe perguntou:

– Está planejando algum atentado terrorista?

Andreas se virou e ficou surpreso com o que viu.

Era Fábio.

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2 Comments

  1. essa é a melhor série literária do planeta!

  2. fiquei sedento, quero mais

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