“A música é a única coisa que nos impede de ficar loucos” – Lou Reed


À medida que o ano de 1995 avançava, Os Aborrecidos conseguiam ter uma participação mais relevante na mídia. Algumas notas em jornais, bem como duas músicas nas rádios promoviam a banda. Cogitava-se a gravação de um videoclipe para promoção na MTV. E desta forma, os Aborrecidos já conseguiam um público significativo. Participavam de festivais de rock, além de ter sua própria agenda de shows.

Quanto à Aquiles, não havia um único dia em que ele não bebia. O incidente no casamento de Veraline fora o prenúncio de uma nova rotina. Especialmente em dias de show, começava a beber no início da tarde, avançando entre copos e latinhas até a madrugada. E sempre tocava bêbado.

Aquiles era um espetáculo à parte. Ficava o show inteiro cambaleando pelo palco. Nos intervalos das músicas, enquanto os demais integrantes da banda tomavam água, Aquiles entornava garrafas de cerveja. Algumas vezes, tomava uísque. Os shows, que atingiam uma média de público de duas mil pessoas, eram uma palhaçada. Um jornalista que cobrira uma apresentação dos Aborrecidos em São Paulo escrevera:

“Aquiles Lucká é o roqueiro mais estranho desta banda que surge no cenário musical. Ele é feio, bagunceiro e imprevisível”.

E como era! Em uma ocasião, ele ficara quase o show inteiro bem na frente do palco, colocando-se entre o público e o vocalista Rodrigo, impedindo que este fosse visto. Em outras ocasiões, corria todo o palco, de um lado para outro, como Axl Rose. Na maioria das vezes, tropeçava e caía. O público gritava e aplaudia. Quando Aquiles via as multidões aplaudindo suas proezas, ele dava uns sorrisinhos bobos, e tanto mais aprontava. Tirara as roupas no palco em duas ocasiões, passando uma noite na cadeia por causa disso. E vomitara sobre o microfone numa ocasião em que fazia o backing vocal. Além disso, dava muitos prejuízos: já havia quebrado alguns equipamentos em várias apresentações, especialmente no final destas, após a execução da última nota.

Por isso, a banda tomou medidas para proteger os equipamentos. Seguranças eram contratados para controlar Aquiles. Quando o show estava para acabar, os seguranças se posicionavam. No último acorde soado, as luzes se apagavam e os seguranças entravam correndo no palco, agarravam Aquiles e arrastavam-no para fora. Ninguém via nada. E nem ouvia Aquiles gritando como um condenado, com sua voz mole, para que o soltassem. Quando as luzes voltavam a acender, e a banda vinha para a frente para agradecer ao público, Aquiles, misteriosamente, nunca estava presente.

Rodrigo parecia traumatizado. Toda vez que começavam um show, Rodrigo dividia seus olhares entre o público e Aquiles, receoso de que começasse a aprontar. E sempre aprontava.

Aquiles ouvia ameaças diárias de Heitor e dos demais integrantes da banda: se continuasse se comportando daquela maneira, seria expulso dos Aborrecidos. Aquiles prometia corresponder às expectativas… até que chegava o show seguinte. Isso se repetia por meses.

Os Aborrecidos estavam se tornando cada vez mais conhecidos, ganhando novos fãs. No entanto, embora não admitissem, todos percebiam que a performance de Aquiles nos palcos era o grande marketing deles. E por isso, a paciência de todos para com suas diabruras fora longa. Mas estava se esgotando.

E aquela noite seria a gota final.

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O show era em Porto Alegre. O local devia estar com mais de 3 mil pessoas. Todos os Aborrecidos estavam nos bastidores, respirando fundo, outros rezando, para que tudo desse certo. Aquiles, porém, bebia… escondido. Dizia que ia no banheiro, e lá dentro tirava uma garrafinha de uísque do bolso. Depois da terceira ida ao banheiro, suas pernas começaram a se embaralhar.

– Você está bebendo de novo, não é? – perguntou, Rodrigo, ameaçador. – Se aprontar alguma esta noite eu acabo com você. Este parece ser o nosso maior público desde que lançamos o disco.

– Quem falou em “beber”? – perguntou, a voz engrolada. – Você não sabe nada.

– Se dê por avisado.

– Deixa comigo.

Quando entraram no palco, Aquiles admirou-se da multidão. A gritaria foi muito grande. O público gritava: “Aborrecidos, Aborrecidos”, incansavelmente. Aquiles, imediatamente, arrancou a camiseta, expondo o peito branco e desprovido de pelos, e jogou para o público. Rodrigo, olhou assustado para ele, talvez temendo que Aquiles começasse a se despir por completo.

Logo eles começaram a tocar. A mente embriagada e inconstante de Aquiles vagava entre a música, Veraline e Andreas. Isto fazia com que se sentisse furioso com relação a Veraline, e um traidor em relação a Andreas. Na tentativa de afastar tais pensamentos de sua mente, ele parou de tocar, sentou-se no palco e voltou a beber de sua pequenina garrafa de uísque. Os outros integrantes continuaram tocando enquanto ele bebia, tranquilamente, e dava alguns acenos lânguidos para a multidão. Rodrigo lançou-lhe um olhar fulminante. O público por sua vez, começou a gritar: “Aquiles! Aquiles! Aquiles!” Depois de alguns instantes, ele guardou a garrafinha no bolso da calça, levantou-se e começou a correr de um lado para outro do palco. Quando se cansou, tentou tocar.

Mas, a embriaguez não o deixava pensar direito, e ele começou a errar os acordes. De repente, sentiu uma intensa vontade de ir embora dali. Quisera fazer parte de uma banda, mas não da forma como as coisas estavam acontecendo. Ele queria começar tudo de novo, junto com Andreas. Talvez as coisas fizessem mais sentido. E se conseguisse esquecer Veraline, então, tudo se tornaria mais fácil.

Enquanto Rodrigo cantava os versos de uma canção, Aquiles aproximou-se do microfone e gritou:

– Vocês querem rock?

Rodrigo tentou ignorá-lo e continuou cantando.

Aquiles gritou novamente:

– Vocês querem rock?

Rodrigo olhou novamente para Aquiles, de forma ameaçadora. Fez um sinal de que o guitarrista seria cortado da banda por causa daquilo. Aquiles sentiu sua raiva crescer. Se não bastasse as coisas pelas quais estava passando, ainda precisava tolerar aquele cara policiando cada ato seu.

Ele estava decidido a mostrar que Rodrigo não lhe metia medo algum.

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Rodrigo tentava disfarçar a preocupação que sentia. Queria dar o seu melhor. Era o vocalista e líder dos Aborrecidos, mas Aquiles não o deixava cumprir suas responsabilidades. Ele precisava vigiar o guitarrista o tempo inteiro, e isto prejudicava o seu desempenho no palco.

Depois da interrupção de Aquiles, que ficava gritando no microfone: “Vocês querem rock?” no meio da canção, Rodrigo tentou se concentrar no que estava cantando. Fechou os olhos e começou a cantar com o máximo de sentimento possível. Não era um vocalista tão bom quanto Andreas, mas era o vocalista daquela banda e tinha de agir como tal.

No meio da música, porém, sentiu suas pernas começarem a se aquecer. Uma estranha mornidão. A sensação acompanhante foi a de que suas pernas estavam úmidas. Foi quando o público começou a gritar, extasiado. Rodrigo abriu os olhos e, instintivamente, olhou para trás.

Mal pôde acreditar no que viu.

Aquiles estava mijando em suas pernas.

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A notícia da saída de Aquiles dos Aborrecidos foi recebida com ceticismo pela crítica e revolta pelos fãs. Aquiles era a figura que dava vida à banda. Com sua maneira imprevisível de agir, uma tendência nata ao escândalo, ele conquistara a admiração de muitos, embora a banda estivesse apenas começando a trilhar o caminho do sucesso. Sem ele, segundo alguns críticos, a banda perderia a identidade.

E então, os Aborrecidos voltaram à sua formação original: Rodrigo, Rogério, Eduardo e Fábio. Até onde conseguiriam ir desta maneira?

A notícia de sua saída fora um pouco controversa. A versão inicial feita por um jornal explicava que Aquiles decidira sair da banda. Mas a versão correta foi dada pela MTV, uma semana depois. Aquiles fora entrevistado e explicara todo o ocorrido.

– Fui expulso da banda – explicara. – Fui expulso porque mijei no vocalista.

– Infelizmente, não temos registro em vídeo deste show – dissera o VJ com um sorriso, parecendo se divertir com a história. – Do contrário, tais imagens seriam guardadas para a posteridade. Mas o que levou você a isso?

– Eu estava bêbado.

– Costuma urinar nos outros quando está bêbado?

– Não. Essa foi a primeira vez.

– E como você encarou a sua expulsão?

– Acho que necessária. De verdade. Não estava me sentindo muito bem desde que Andreas deixou a banda.

– Andreas…?

– O antigo vocalista, antes de gravarmos este álbum. Sem ele, Os Aborrecidos não são mais os mesmos. O clima estava muito ruim, e eu ia acabar saindo mesmo.

– E o que Aquiles Lucká fará de agora em diante?

Aquiles pensara antes de responder:

– Acompanhar a queda inevitável dos Aborrecidos.

O Imprevisível sabia chamar a atenção.

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Aquiles estava de volta ao colégio. Suas notas não eram nada boas, devido a tantas faltas acumuladas nos últimos meses. Recuperar as matérias perdidas no último ano na escola seria um processo longo e exaustivo. Uma realidade desanimadora, no mínimo!

Neste momento, ele estava na entrada do colégio. Uma pequena multidão de alunos se formara em sua volta. Era o momento de celebridade. Seu nome saíra no jornal da cidade, sua entrevista fora ao ar na MTV, e ele tocara para milhares de pessoas. Tais proezas despertavam a curiosidade e admiração de alguns. Os alunos lhe estendiam a mão em cumprimento, lhe davam palmadas amigáveis nas costas e chegavam pedir autógrafo.

Mas ele estava bem consciente da realidade. Os Aborrecidos continuavam na estrada; ele, não. Em pouco tempo, todos se esqueceriam de Aquiles. Seria uma celebridade por alguns poucos meses, no máximo. E depois voltaria ao anonimato, como que puxado pelas ondas de um mar violento e impiedoso. Voltaria a ser o vesgo lerdo. O rapaz de 20 anos que nunca namorara. O alvo de risadas distantes.

Mas por enquanto, ele aproveitava seus 15 minutos de fama. Foi quando Márcia surgiu, sorrindo.

– Olá, garoto. Como você está?

– Oi, Márcia. Há quanto tempo!

– Faz tempo mesmo. Agora que virou famoso, se esqueceu dos amigos.

– Quem disse que esqueci?

– Pois parece – disse, sorrindo. – Mas que coisa chata isso, né? Te expulsaram da banda. Você parecia feliz lá dentro.

– Nem tanto, Márcia. Nem tanto.

– Mas você está bem, mesmo?

– Estou. E você?

– Também.

De repente, Aquiles pensou na possibilidade de convidá-la para o baile do final de ano. Ainda faltavam alguns meses, é verdade. Mas ele precisava tomar alguma atitude, antes que algum esperto fosse mais rápido. Além do mais, sua pequena fama lhe dava uma certa confiança que não era característica comum de sua personalidade. E ele sabia que as garotas gostam de caras confiantes.

Por isso, foi perguntando:

– E os planos para o baile?

– Que baile? Da escola?

– Sim.

– Nem a escola começou a fazer planos pro baile – disse, rindo. – Por que eu faria?

– De repente porque já tenha alguém interessado em te levar.

Ela sorriu mais intensamente.

– Hum… Isso foi um convite?

– Isso foi um “sim”?

– Depende. Foi um convite?

– Depende. Foi um “sim”?

Ela se aproximou dele.

– Amanhã te digo se isso foi um sim.

Ela se afastou, e Aquiles disse para si mesmo, satisfeito: “Ela aceitou.”

Nesse momento, Aquiles divisou duas figuras sinistras se aproximando, parecendo saídas de um conto de terror: Andreas e Elou – a nova dupla dinâmica.

– E aí?

– Grande Aquiles. Como vai, cara?

– Sobrevivendo.

– Qual a sensação de ser uma estrela?

– Tem seus prós e contras, como tudo na vida. Mas a gente sabe que isso não dura muito.

– É verdade aquela história? Você… mijou no Rodrigo?

– Com certeza.

Andreas deu uma gargalhada de dar gosto.

– Cara, estou te devendo essa. Eu precisava ter visto isso. Se tivessem filmado, seria a mais famosa cena do rock ´n roll.

– Vou ser mais cuidadoso da próxima vez. Só apronto diante das câmeras.

– E por falar nisso, quais são os planos pro futuro?

– Voltar a rotina.

No fundo, não era isso o que ele esperava. Aquiles provara o gosto de estar em um palco, e gostaria de desfrutar aquela sensação novamente.

– Isso me dá medo, Aquiles.

– A mim também.

Elou acrescentou:

– Lou Reed disse uma vez: “A música é a única coisa que nos impede de ficar loucos”. Fica a dica.

– Mas, o que fazer, então? – perguntou Aquiles.

Andreas olhou para Elou.

– Que acha?

– Quando eu estava em Oxford, ouvi falar de cinco caras, uma banda iniciante que estava mandando bem. Daí, eu resolvi conferir. Quando eu ouvi os caras tocando, eu disse: “Planeta Terra, se segure. Estes caras vão detonar”. Duas semanas depois, saiu na rádio BBC que Prove Yourself era a melhor música da semana. Em seguida veio Creep, que foi eleita a melhor música alternativa de 1993. Estou dizendo a vocês que conheci o Radiohead no seu estágio embrionário. E eu tinha certeza de que eles iriam longe. E estou dizendo isso agora, porque quando ouvi vocês tocarem, eu pensei comigo mesmo: “Planeta Terra, se segure. Porque estes caras também vão detonar”. Então meus amigos, se acharem que um cara esquisito que gosta de cemitérios é digno de confiança, ouçam o que estou tentando dizer.

Andreas olhou para Aquiles, sorrindo.

– E aí? Tem fôlego para começar do zero?

Aquiles mal se continha de tanta alegria.

– Pode contar com isso, cara.

– Isso significa novas regras: não vamos mais entrar em banda já montada. Já basta o que passamos nos Aborrecidos. Vamos literalmente começar do zero.

– É você quem manda, chefe. Só precisamos correr atrás de tecladista e baterista.

– Errado. Só um baterista.

– Ué, desistiu dos efeitos psicodélicos?

Andreas e Elou se entreolharam e riram.

– O mundo deu muitas voltas enquanto você se embriagava nos palcos, moleque. – Ele colocou a mão sobre o ombro do amigo gótico. – O Elou está com a gente.

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