Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 17

Os passarinhos dançavam uma valsa. A brisa soava notas em ré menor. E prometeu-se ao casal mais lindo do mundo, a felicidade eterna

Contrário às expectativas e tudo o que poderia prever, a vida de Aquiles não deixou o estágio de vazio. E, para piorar, adquirira uma aura de culpa.

Ele era um romântico inveterado. Sempre desejara ser feliz no amor. Quando desprezado por Veraline, encontrara na música uma forma de canalizar sua angústia. Mas só descobrira isso graças a Andreas. O amigo pacientemente ensinara-lhe música e lhe dera a força intelectual de que precisava para acreditar em si mesmo.

Quando estavam para fechar contrato com a Atlantic City, ele experimentara a sensação de que seus sonhos musicais se concretizariam, já que o sonho de ter Veraline estava indo por água abaixo com o anúncio de seu casamento. O que ele não contava era com a súbita e insana reação de Andreas, ao discordar dos ideais da gravadora. A atitude do amigo tirou-lhe o chão. Naquele momento, Aquiles se deparara com o grande dilema.

Ele e Andreas estiveram unidos em um mesmo propósito. Tudo o que Aquiles sabia devia ao amigo. Os dois formavam uma equipe, completavam-se, mutuamente. Assim sendo, seria justo se ele abandonasse Andreas? Estaria sendo inteligente ao romper o elo criativo que os dois formavam? A dupla criativa agora estava resumida a dois aleijados. Aquiles não mais teria as melodias de Andreas e sua visão musical para lhe dar inspiração; e Andreas não mais teria as letras de Aquiles para complementar suas canções. Era bem provável que os dois não conseguissem ir muito longe desta maneira.

Depois de sair da banda, Andreas mudara. Na ocasião, eles conversaram muito e apesar de todas as tentativas de convencê-lo a mudar de ideia, Andreas permaneceu irredutível. Foi então que Aquiles lhe perguntara:

– O que espera que eu faça?

– Como assim?

– O que acha que eu deva fazer? Você está esperando que eu te siga nesta loucura?

– Nem pensei nesta possibilidade, cara. Se é loucura, não quero ninguém atrás de mim.

– Eu esperei muito por este momento, Andreas. Não tanto quanto você, é verdade. Mas coloquei minha vida no sonho de que gente poderia ter o nosso lugar ao sol. E acho que… Eu simplesmente não posso abandonar os Aborrecidos.

– Nem estou pensando nisso. – Aquiles tinha a forte sensação de que ele não estava sendo sincero.

– Pra mim, tanto faz criar um som totalmente novo ou seguir o que todos estão fazendo. O que importa é estar lá, tocando pra galera.

– Não pense que estou morto, Aquiles. Só não chegou a minha hora. Mas ela chegará. E até lá, desejo sucesso a você.

Em 1995, começaram a cursar o terceiro colegial. Embora estudassem na mesma sala, Andreas passava a maior parte do tempo com Elou. Com Aquiles, o contato era reduzido ao mínimo. Estavam definitivamente distantes um do outro – em resumo, apenas colegas de escola. E nada mais. Embora Andreas insistisse que não, no fundo, devia imaginar que Aquiles também sairia da banda – uma questão de torpe lealdade ou qualquer coisa do gênero. Mas como isso não acontecera, a dupla dinâmica chegava ao seu fim.

A promissora dupla, definitivamente, sepultada.

O produtor dos Aborrecidos tornara-se responsável por criar uma nova atmosfera para a banda, totalmente diferente do que Andreas havia proposto inicialmente. O som dos Aborrecidos e sua batida simples eram puramente comerciais. Nada de inovador, nada de diferente.

Eles gravaram o disco e, 2 meses após a saída de Andreas, o álbum ficara pronto. O título era homônimo. Quanto à capa, Aquiles sugerira um homem colocando flores em um túmulo. Chris riu e disse:

– Que tal colocar os pés no chão por um minutinho, garoto?

Rogério mencionara seu anterior ideia de usar ursos de pelúcia, mas acabaram tomando a decisão mais provável: a foto dos jovens com jaquetas pretas e fazendo cara de mau.

Quanto às faixas, Andreas vendera os direitos autorais sobre as melodias e dissera, veementemente:

– Não quero meu nome aparecendo nos créditos como compositor. – Andreas não queria seu nome associado ao que considerava ser de baixa qualidade.

Chris sugerira que todas as 15 músicas fossem lançadas no primeiro disco – algo bem ousado para um álbum de lançamento de uma banda. E assim fora. Aquiles, que não tinha um gosto musical apurado, achou que os arranjos ficaram muito bons, e deu-se por contente.

O disco fora lançado, e nada mais aconteceu. Chris entrava em contato com as pessoas certas para que suas músicas fossem executadas na rádio. Depois disso, seria mais fácil conseguir uma oportunidade para se apresentarem na TV – o ápice da realização para Aquiles.

Mas enquanto este dia não chegasse, eles precisariam gerar dinheiro de outras formas. Por isso, Heitor aceitara o convite para Os Aborrecidos tocarem em um casamento. Aquiles quase desmaiara quando ficara sabendo de que se tratava do casamento de Veraline. Ele que tanto torcera para que ela não se casasse, que o noivado fosse rompido, agora tinha diante de si uma terrível realidade: ela não só se casaria, mas Aquiles contribuiria para que este momento fosse o mais sublime possível.

Aquiles pensara em mil maneiras de escapar deste desgosto: simular uma terrível gripe, argumentar uma diarreia, anunciar o falecimento de um de seus avós, ou simplesmente dizer que havia perdido a sensibilidade nas mãos. Mas ele sabia que não conseguiria levar tais histórias adiante. No final das contas, não havia escapatória: ele estaria no casamento de Veraline. Ele começava a achar que nada era tão ruim que não pudesse piorar.

E hoje, chegara, o tão indesejado dia. Mesmo sabendo que deveria ignorá-la, Aquiles, sem nenhum controle sobre si mesmo, ficava o tempo todo caçando Veraline com os olhos. Ela estava linda, como era de se esperar. Os cabelos loiros, luminosos como ouro puro, numa combinação entorpecente com seu vestido de noiva. Ela caminhava com a suavidade de um anjo sobre o gramado bem cuidado. E irradiava feixes de luz em cada sorriso distribuído entre os convidados. Como Aquiles desejava estar no lugar de Marcos! Nem mesmo Os Aborrecidos poderiam lhe dar tamanha alegria. Casar com Veraline e viver ao seu lado, conferir-lhe amor e proteção – isto estava muito além do que a humanidade conhecia como felicidade.

Durante a cerimônia, Aquiles observara tudo a uma distância segura. Assistiu, desconsolado, as palavras do ministro encorajando os noivos a terem um casamento feliz e satisfatório. Durante essas palavras, ele começou a visualizar Veraline e Marcos felizes para sempre, como se costumava dizer. Isso fora o motivo suficiente para Aquiles procurar por consolo.

Ele foi até a cozinha, e conseguiu descolar algumas cervejas. Sem ninguém perceber, pegou uma garrafa de vinho e voltou para seu lugar, sob uma árvore que lhe lançava a sombra da inutilidade. A cada frase do ministro, ele dava um gole no vinho. Quando secou a garrafa, apelou para as cervejas.

E o ministro continuava falando.

Aquiles sentia a raiva fervilhar dentro dele. Sentia o furor por ter sido desprezado correr pelas suas veias de forma tão intensa que seria capaz de rasgá-las a qualquer instante. A bebida exercia um terrível efeito sobre ele, convencendo-o de que era um verme, um rato desprezível dentro de uma jaula. Uma figura sem esperanças, como Andreas vivia dizendo.

E enquanto isso, os ponteiros do relógio giravam. O mundo também girava. E Veraline se casava.

Quando tudo finalmente estava acabado, eles receberam a ordem de começar a música. Com notável dificuldade, Aquiles subiu ao palco e começou a tocar. Enquanto tocavam uma balada romântica, Aquiles fez um esforço adicional de não olhar para Veraline. Procurou concentrar seu olhar anuviado e lânguido na amiga Márcia que dançava com seu pai. Ela ainda não tinha namorado – sem namorado, bonita, e dançava muito bem. Por que Aquiles não se apaixonava por uma garota assim, algo mais próximo de sua realidade?

Intensas dúvidas costumam requerer um auxílio. Por isso, entre uma música e outra, com muito esforço, Aquiles pegava um copo de uísque dos garçons que iam para lá e para cá.

Ele voltava para o palco, e tentava se concentrar em sua guitarra. No entanto, invariavelmente, seus olhos debilitados eram atraídos pela figura de Veraline. Enquanto a observava, ele dizia para si mesmo: Isso não vai acabar bem.

E a profecia começou a se cumprir no momento em que Aquiles começou a tocar completamente fora do tom. Os dedos não mais se sujeitavam à sua vontade, os ouvidos não mais prestavam atenção ao que seus companheiros tocavam. Os braços não queriam simplesmente segurar a guitarra – eles queriam arremessá-la para longe. Observando Veraline e Marcos cochichando, carinhosamente, no meio do gramado, a raiva e o desprezo combinaram-se em uma estranha química em suas veias. E o resultado não poderia ser pior.

Aquiles, num bom e velho estilo Kurt Cobain, parou de tocar e começou a golpear tudo o que estivesse ao seu alcance com sua guitarra e seus pés. Primeiro atingiu, violentamente, o amplificador, o que provocou um agudo ruído que fez com que muitos levassem as mãos aos ouvidos. Ele voltou a golpear o amplificador uma segunda e uma terceira vez – danos irreparáveis no bom Marshall. O próximo alvo foi a bateria. Fábio, percebendo que o amigo não estava nos melhores dos seus dias, tratou de sair de perto quando Aquiles voou com os dois pés sobre a bateria.

Quando se levantou, os braços cortados e sangrando, percebeu que uma nuvem de silêncio pousara sobre toda a festa. Ele olhou ao redor. Todos, sem exceção, o observavam, tremendamente assustados. Aquiles deu um pequeno sorriso cínico e disse em voz alta:

– Eu avisei que isso não ia acabar bem.

E vomitou tudo o que havia bebido até então.

___

Houve três motivos pelos quais Aquiles não fora preso: não destruíra nenhum bem dos noivos; não ferira ninguém; e além disso, Heitor conversara por uma hora com o pai de Veraline. No final das contas, Aquiles fora arrastado e jogado dentro do furgão, enquanto os demais da banda continuaram a apresentação.

Agora estavam todos dentro do furgão, percorrendo os poucos quilômetros de estrada para chegar em casa. A única conversa que poderiam ter naquele momento era exatamente a que estavam tendo.

– Nos livramos de um idiota como Andreas, mas pelo visto, alguém pior acabou ficando com a gente – resmungava, Rodrigo.

– Esse cego quase me acertou. – Até o Fábio estava irritado.

– Seus idiotas, vocês não sabem de nada. – A voz de Aquiles estava engrolada. – Agora sim a banda vai fazer sucesso. Nós agimos como rebeldes, e é isso o que a juventude gosta.

– Eles poderiam ter chamado a polícia.

– Que nada! Iam me prender por quê? Pela expressividade da arte?

Heitor, guiando, se manifestou:

– O que chama de arte, seu moleque? Destruição?

– Exatamente.

– Pois me deixe te dar um recado, Aquiles. Hoje foi a sua primeira e única manifestação desta espécie artística. Eu não quero mais ver este tipo de arte em nossas apresentações. Não quero este tipo de propaganda depreciativa. Temos talento. Não precisamos de um moleque exibicionista, metido a Hendrix, em nossa banda.

– É isso mesmo, seu vesgo retardado – arrematou, Rodrigo.

As últimas palavras de Rodrigo atingiram o âmago de sua honra. Ele passara a vida inteira ouvindo zombarias por causa de seu estrabismo e sempre se calara, mas aquela era a primeira vez que alguém lhe ofendia estando ele bêbado.

Ele tinha uma cicatriz imaginária e estava embriagado.

Tomado por uma fúria descontrolada, Aquiles foi para cima de Rodrigo agarrando-o pela camiseta e chacoalhando-o com violência.

– Não fale assim comigo, seu imbecil. Você não me conhece.

– Tire esse vesgo de cima de mim.

Antes que alguém pudesse apartar a briga, Aquiles sentiu o que restava de líquido em seu estômago começar a se revolver.

E, então, um arroto sonoro foi o prenúncio de uma verdadeira enxurrada de vômito quente que se derramou sobre a cabeça de Rodrigo.

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3 Comments

  1. Dorcelita Barbosa Gonçalves

    29 agosto, 2016 at 09:54

    Estou adorando, esperando os próximos capítulos….

    Dorcelita.

  2. cara agora to curioso pra caramba cade os primeiros capitulos?

  3. Acho que alguém vai ser convidado a se retirar da banda rsrsr

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