Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 15

Era uma criança de cabelos brancos, o rosto coberto de rugas, regurgitando arrependimentos e decepção

O anúncio de que a gravadora Atlantic City estava interessado nos Aborrecidos foi dado em um dia em que o silêncio ditava as ordens no estúdio onde ensaiavam.

Após a “rebelião” de Andreas na apresentação do último sábado, o clima ficou mais pesado na banda. O fato do desempenho deles ter sido muito bom, gerando uma reação positiva das pessoas, não mudou o peso das nuvens negras que pairavam sobre os jovens. As conversas se limitavam ao essencial. O contato visual era quase nulo. E Andreas tinha a sensação de que, se infartasse agora, haveria uma festa com fogos de artifício no estúdio.

E foi antes do ensaio daquela terça que Heitor irrompeu estúdio adentro e anunciou:

– Façam as malas, rapazes – disse, ele. – Vamos viajar para o Rio, amanhã.

As coisas aconteceram muito rápido. Naquela tarde, Heitor recebera a visita de um agente da gravadora. Ele estava de olho nos Aborrecidos havia um mês e o que vira naquela apresentação de sábado o convencera de que aquela banda merecia uma chance.

Andreas permitiu-se rejubilar. A Atlantic City era uma gravadora com muitas bandas promissoras em seu selo. Enquanto Heitor dava detalhes da conversa, Andreas vagou em sua densa obsessão. Viu-se em grandes shows com milhares de pessoas; apresentações em programas de televisão de rede nacional; autógrafos; entrevistas a jornais e revistas.

– Finalmente, vamos gravar um álbum! – exclamou, Aquiles.

– Geralmente, as bandas demoram bem mais para conseguir um contrato – disse, Fábio.

Heitor decidiu ser mais coerente.

– Calma, pessoal. Não existe contrato nenhum, ainda.

– E o que poderia dar errado, Heitor? – perguntou, Rogério. – Já estamos sendo observados há um mês.

– Enfim, o reconhecimento – Aquiles disse, em voz baixa. – Enfim, o primeiro lugar.

Heitor fez um gesto pedindo silêncio.

– Agora prestem atenção. O ensaio de hoje está cancelado. Vão para suas casas comunicar seus pais sobre a viagem de amanhã.

– E o Eduardo? – Aquiles lembrou-se do baixista que estava ausente, estudando. – Ele trabalha. Não sei se vai poder ir.

– Com o rumo que as coisas estão tomando, ele vai precisar tomar uma decisão. Não dá para continuar se ausentando desta maneira. Do contrário, acabará saindo da banda.

Era a palavra do dono dos Aborrecidos.

Era assim que Andreas também pensava, e todos pareciam concordar.

___

A viagem para o Rio foi na van de Heitor. Uma van carregando seis homens (Eduardo, como esperado, não pode ir) e seus instrumentos musicais. Destes homens, cinco queriam a oportunidade de sobreviver com a música. O outro, por sua vez, queria revolucionar o rock.

Durante todo o tempo de viagem, eles discutiam qual seria a nome e a capa do álbum, e como seriam os videoclipes. Rodrigo era a favor de algo bem convencional – capas mostrando os integrantes da banda, os clipes seguindo a mesma ideologia. Já Aquiles queria exprimir suas decepções – um imenso deserto e apenas um homem solitário. Rogério achava que a contradição poderia vender mais – ele queria uma capa com ursinhos de pelúcias e clipes bem coloridos contrastando com as letras depressivas. Fábio gostou desta última ideia e chegou sugerir:

– Tenho uma ideia para um clipe. A gente tocando do lado de uns bonecos.

– Bonecos??? Que bonecos, Fábio?

– Bonecos infantis. Como os Muppets, por exemplo. Acho que seria um clipe legal.

Andreas deu uma risada.

– Que ridículo. Uma banda de rock tocando com bonecos … do Muppets?

Fábio pareceu meio sem graça, mas como uma criança teimosa e emburrada, falou baixinho:

– Seria legal. Vocês ainda vão ver. Alguém, um dia, vai ter uma ideia assim.

A opinião de Andreas ainda não estava definida, mas ele preferiria que os integrantes não aparecessem na capa, muito menos nos clipes. Seria a marca identificadora da banda. Enquanto todos queriam aparecer, eles fariam os papéis de anônimos e isto os tornariam ainda mais louváveis. Seu marketing seria o antimarketing.

– Tenho uma ideia ótima para um clipe – anunciou, Aquiles, gesticulando para chamar a atenção de todos. – A música começa e uma câmera desloca-se pelo quarto de um adolescente, mostrando os móveis, os quadros de Jim Morrison, a cama desarrumada, passa por uma mesinha onde está sentado nosso homem, um jovem de costas escrevendo alguma coisa. A câmera continua sua viagem dentro do cômodo até que para em uma fotografia sobre a mesa. E a foto do jovem. Ele está junto com a namorada. A câmera dá um zoom até o grande close. Gradativamente, a foto vai ficando envelhecida, envelhecida, cada vez mais envelhecida. E a câmera, totalmente, parada. No momento, em que a música atinge seu clímax, a câmera começa a se mover totalmente tresloucada.

– Que música?

– Não importa. Isso a gente decide depois. É só o clipe que estou bolando. A câmera começa a ser sacudida. A gente não consegue perceber quase nada no quarto porque ela se move muito rápido, totalmente desvairada. Mas dá para perceber que o quarto, anteriormente vazio, está cheio de pessoas. De repente, a câmera para, novamente. Percebemos que o quarto agora está cheio de pessoas, todas tristes, chorando, vestidas de preto. A câmera se move até percebermos um caixão. Ela começa a se deslocar sobre o caixão a começar dos pés do defunto até atingir um close-up do seu rosto. É um velho.

– Que velho? – perguntou, Rogério, ingênuo.

– Presta atenção no que estou falando. Por que acha que a fotografia na mesinha ficou envelhecida?

– Por quê?

Aquiles suspirou.

– O velho no caixão é o adolescente.

– Ah – exprimiu-se, sem entusiasmo.

– O clipe daria a ideia de que a vida é curta, tão curta que mal percebemos quando ela está no fim.

– Mas ficaria muito esquisito – discordou Rodrigo. – Primeiro, onde é que a gente apareceria no clipe?

– Na música, é claro. Não somos atores, somos músicos.

– Mesmo assim, sou a favor de aparecermos nos clipes. E segundo, o cara viveu a vida inteira dentro da mesma casa?

– E qual é o problema disso?

– As pessoas não nascem e envelhecem dentro de uma casa.

– Só um idiota como você para assistir a um clipe e ficar pensando nessas coisas.

– Sou um realista. Alguém aqui tem que ter essa sensibilidade.

– E como seria um clipe realista?

– Do jeito que mencionei. Nós tocamos, somos filmados, adiciona-se algum efeito, cortes, e está tudo acabado.

Andreas manifestou-se:

– Deixe-me ver onde já vi um clipe assim. Humm… Só um minuto. Lembrei! As bandinhas pop vazias que não tem nada a acrescentar à música. Ah, e as duplas sertanejas também. Com um pequeno detalhe, eles inserem uma linda modelo para fazer par romântico com um dos barrigudos da dupla. O clipe deles ainda é um pouquinho mais trabalhado do que suas toscas ideias, Rodrigo.

– Você fala assim porque gosta de me contrariar, Andreas.

Não havia como negar. O miserável estava coberto de razão.

___

Durante a longa viagem, Andreas adormeceu na van, e sonhou que era um astro do rock. Ele estava fazendo um especial acústico em algum grande teatro. Estava sentado em um sofá vermelho, com seu violão. Dividia o palco com Eric Clapton e Bob Dylan. Os três pareciam muito amigos. Andreas perguntou a eles:

– O que vamos mandar agora?

Foi Clapton quem respondeu:

Good Morning, Little Schoolgirl.

Neste momento, Rodrigo surgiu no palco com um microfone na mão, dizendo:

– Quem vai cantar essa sou eu.

Foi quando Andreas acordou do pesadelo, assustado.

Olhando a sua volta percebeu que estavam chegando ao destino.

Os demais, que também dormiam, começaram a acordar, um a um.

– Chegamos na gravadora? – perguntou, Rogério, sonolento.

– Ainda não – respondeu Heitor. – Vamos para um hotel. A reunião será a tarde.

Heitor levou quase uma hora rodando dentro da capital até chegar ao hotel. Era um hotel bem simples. Mais simples do que Andreas imaginara. Havia um banheiro coletivo, e o quarto resumia-se a um beliche e uma cômoda. A janela dava para a parede lateral de um enorme prédio comercial. Sem sol, o cheiro de mofo imperava no quarto. Andreas esperava que aquele cubículo abafado não fosse um péssimo agouro – sua vida trilhando eternamente a perturbadora sina.

Aquiles ficou no mesmo quarto que Andreas. Eram nove horas da manhã. Eles descansariam até a hora do almoço, comeriam alguma coisa e depois iriam até a gravadora.

– Acha que temos chance? – perguntou Aquiles, quando Andreas estava quase pegando no sono.

– Chance de quê?

– De gravar nosso álbum.

– Sempre teremos nossa chance. Se não for dessa vez, teremos outras oportunidades.

– Você não está confiante?

– Estou, sim. E acho que você deveria ficar, também. E agora tente dormir um pouco.

Mal terminou de falar, Andreas adormeceu. Um sono tranquilo.

Sem pesadelos com Rodrigo.

___

O prédio onde estava instalada a Atlantic City era uma construção de três andares. Andreas ficou boquiaberto ao ver a quantidade de salas de gravação e mixagem. As enormes mesas de som com mais canais que ele seria capaz de conceber era um espetáculo a parte. Tudo ali era de última geração. Visitar cada uma daquelas salas foi algo entorpecente para ele.

Em breve, estarei aqui gravando meu primeiro álbum, era só o que pensava.

O agente que contatara Heitor os conduzia pelo prédio e, como um guia, apresentava-lhes todo aquele encantador universo. As salas de gravação eram uma miragem. Elas se erguiam como “paredes sonoras” com vários amplificadores e caixas para qualquer tipo de som. Pedais e conversores de efeitos, entre outros, deviam ascender às centenas. O agente explicou brevemente como era possível com toda aquela aparelhagem converter um simples acorde de guitarra em um som “esotérico” com qualquer amplitude de reverbs.

Após este tour inicial, os seis homens foram encaminhados a uma sala. Ali eles teriam o primeiro contato com o homem que tinha o futuro deles nas mãos.

O coração de Andreas pareceu querer saltar-lhe a boca quando se deparou com Chris Lee – um produtor norte-americano que se mudara para o Brasil para trabalhar com músicos nacionais. Ele era apaixonado por Mutantes, e Secos e Molhados. Era um homem alto, olhos azuis, cabelos brancos e o queixo saliente de um aristocrata. Devia estar na casa dos 60 anos.

Chris fez questão de apertar a mão de cada um deles, observando-os, detidamente.

A avaliação começou.

Andreas, mais uma vez, sendo examinado.

– Então vocês são Os Aborrecidos? – disse depois de apertar a mão do último integrante. – Ouvi falar a respeito de vocês. Parecem que são respeitados em sua cidade.

– Temos procurado fazer um trabalho de qualidade nas músicas e o respeito recebido é apenas uma consequência – disse, Heitor que provavelmente seria o único a falar naquela reunião.

– Qualidade!!! – Chris falou a palavra, pensativamente, como que dizendo apenas para si mesmo. – Acho difícil definir isso. As pessoas têm maneiras diferentes de encarar a qualidade. Em nosso ramo, “qualidade” é o que vende. Se as pessoas consumirem, ótimo. No entanto, não se enganem: as pessoas podem reagir bem porque estão em um show gratuito, aberto. Mas para entrar em uma loja e comprar o álbum, a “qualidade” tem de ser outra. – Andreas percebeu que o homem falava com a convicção de quem estava no ramo havia muito tempo. – Mas falaremos disso depois. – Ele apanhou um papel e deu uma rápida olhada. – Quantos integrantes?

– Seis.

– Quem são?

Heitor apresentou-os:

– Rodrigo é um dos vocalistas e toca teclado. Aquiles é o guitarrista e escreve as letras. Andreas escreve as melodias, toca guitarra e é o outro vocalista. – “O outro” significava “o menos importante”. – Rogério toca guitarra, Fábio é o baterista e Eduardo, que não pôde vir, é o baixista.

– Três guitarristas?

– Quando Eduardo não está presente, Andreas assume o baixo.

Ele anotou algumas coisas na folha que tinha em mãos.

– Então Aquiles é o letrista? De onde tem tirado inspiração para escrever, filho?

– Da dor – respondeu, sem titubear.

– Acho que a maioria dos gênios da música diriam o mesmo. E a melodia é de Andreas?

– Exato.

– Os arranjos são seus, também?

– Sim.

– Arranjos inovadores, eu diria. A gravação que me foi trazida, embora não estivesse muito boa, me mostrou que você é um jovem destemido. Parece querer fazer algo novo, diferente.

– Uma nova linguagem musical – disse, Andreas. – Uma identidade própria. Queremos reinventar o rock.

Chris deu uma discreta risada.

– Um jovem destemido, como eu disse. – Mais anotações. – Qual é o objetivo de vocês com a música?

Heitor respondeu:

– Termos uma gravadora para lançar nossos álbuns.

Andreas acrescentou:

– Queremos fazer sucesso. Queremos milhares de pessoas em nossos shows pelos quatro cantos do Brasil. Queremos ser reconhecidos pelo que fazemos.

– Acha que conseguirá sucesso com essas músicas?

A pergunta pegou Andreas desprevenido.

– Se não acreditasse nisso, deixaria de acreditar em mim.

Chris examinou Andreas por alguns instantes a ponto deste se sentir embaraçado.

– Vamos ver no que eu acredito. Quero ver vocês tocando. Vamos para o estúdio de gravação.

Eles saíram dali e foram levados para o andar de cima onde havia um grande estúdio. Na sala de gravação dois engenheiros de som os esperavam.

Aquiles cochichou para Andreas:

– Acho que esse cara não botou confiança em nós.

– Se não botou, vai botar agora.

Andreas começou a experimentar uma tensão inédita até então. Diante dele desenhava-se todo o seu futuro. Dentro de algumas horas ele sairia daquele estúdio. E qual seria o resultado? Teriam um contrato assinado debaixo dos braços? Ou voltaria sem nada para seu mundo de restos e ilusão?

O coelho ruminando esperanças vazias e tardes sinistras.

– Fiquem à vontade. Façam de conta que não estamos aqui – disse Chris, rindo, sabendo que isto seria impossível.

– Vamos lá – disse, Andreas. – Esta é a oportunidade que sempre esperamos.Vamos mostrar de que material somos feitos.

A música inicial era Infinito Vazio. A música dava surpreendentes guinadas. Começava com um som psicodélico enquanto Andreas sussurrava os versos iniciais num murmúrio assustador.

Meu pior pesadelo

Pesa invulnerável em minha mente cansada

E me canso em tentar te dizer

Que o seu sorriso faria toda diferença

Que o seu olhar aliviaria minha sentença

Que suas confissões mudariam minhas crenças.

A música assumiu um aspecto ruidoso. A guitarra de Aquiles começava a emitir sons arranhados e o baixo entrou, dando uma tonalidade mais pesada.

Estou só em meio ao pó

Sinto o vazio do infinito – infinito vazio

Caos e escuridão

Seu silêncio, seu sermão.

A música deu uma reviravolta. Rogério fez uma base pesadíssima, algo bem perto do hardcore, enquanto Aquiles expelia toda sua dor em solos profundamente incisivos. A batida pesada da bateria completava o ambiente visceral. Andreas cantou o verso seguinte, energicamente:

Então, tente não dizer nada

Quando chegar sua vez de se explicar

E deixe que o grito sufoque seu medo

Mas não deixe que tudo o que construiu

Seja levado pela maré

De desilusões e eras perdidas

Porque talvez tudo o que precisamos

São de respostas,

Um pouco de fama e um pouco de fé.

Eles voltaram para a outra dimensão musical, psicodélica. As palavras de Andreas converteram-se, novamente, em apenas um murmúrio.

Um pouco de tudo aquilo

Que deixamos como restos do que passou

É nestes restos que encontro palavras

É nestes restos que perco o pudor

E perco o poder

E a coragem para te dizer

Que eu faria meu mundo diferente

Para te ver diferente

Para te ver ao meu lado

Palavras improvisadas

Não mais estranho

Nem impróprio ou irracional

E plantaria suas flores preferidas

No jardim do seu quintal.

Quando concluíram, Chris fez uma careta estranha, demonstrando pouco entusiasmo. Sem fazer qualquer comentário, foi logo dizendo:

– Que mais vocês têm para mostrar?

A próxima música era a bucólica Velho, com forte presença do violão. A música descrevia o universo de um homem arrependido por não ter aproveitado sua juventude a favor daquilo que achava ser certo. Os arranjos de Andreas deram à música uma sonoridade melancólica que faria até os otimistas sentirem uma pontada de tristeza.

Um homem velho e um turbilhão de atos impensados

Tentando respirar um pouco de oxigênio

Entregue ao vício do milênio

Seus sonhos foram equívocos covardes

Que tornaram frias suas tardes.

 

Ele fingiu ser uma criança a vida inteira

Brincou de viajante desconhecido

Rumo a paz dos dias amanhecidos

Encarando marcas no rosto cansado

Esperando não ser alcançado.

 

O velho tentou negar sua dor

Achando que amar uma mulher não levaria a nada

Ficou à espreita, viajante solitário na estrada

A bagagem cheia de melancolia

Fugindo de serenatas e euforias.

 

Então o velho ficou a deriva

E antes que os poemas fossem levados

Suas rimas fizeram parte de sonhos criados

Dizendo: “Grandes amores um dia se separarão”

Tão velho é o mundo, tão pessimista era o seu coração.

 

Hoje, ele acena para qualquer um,

Arrependido em sua longa viagem

Por não ter amado enquanto jovem

Sôfrego, ele é hoje tudo o que perdeu

Este velho homem aqui sou eu.

Finalizada a canção, Chris expressou-se da mesma maneira, sem entusiasmo. Andreas sentiu uma pontada de desânimo. Contrário às suas expectativas, o produtor parecia não ser impactado pelo som que os Aborrecidos criaram.

Logo em seguida, foi a vez de Rodrigo assumir os vocais na canção Luzes da Fama. Enquanto tocava, Andreas não conseguiu evitar um certo temor, que Chris dissesse que Rodrigo cantava melhor, e que seria mais proveitoso que o tecladista assumisse definitivamente os vocais.

Quando terminaram, os jovens ficaram em silêncio olhando o homem grisalho. Ele não disse nada. Simplesmente, fez um sinal chamando-os novamente para a sala de reunião. Era o grande momento. O futuro (ou sentença) dos Aborrecidos seria declarado.

– Vocês são muito bons. Mas… – Deu uma pausa. Andreas sentiu uma faca penetrando em seu peito. A palavra “mas” já dizia tudo: Os Aborrecidos não teriam uma boa notícia. – … as pessoas não comprarão seus discos.

– O que quer dizer? – perguntou, Andreas, vendo seus sonhos se desmoronarem.

– Que suas músicas estão totalmente deslocadas no mercado. Vocês escrevem melodias fantásticas, mas não é isso o que o público quer.

– Como sabe o que o público quer se nem deu a chance dele nos ouvir?

– Porque estou neste ramo muito antes de você nascer, garoto, e sei muito bem o que vende. E posso garantir-lhe: suas músicas não tem mercado.

– O que há de errado em nossas músicas? – Andreas percebia que estava começando a ficar irritado com o homem que os esmagava no chão do anonimato.

– Entenda, a música é boa. Mas estes arranjos, esta sonorização… Só uma sociedade esotérica da nova era para se empolgar com isso. Você conhece o grunge, não é?

– Claro que conheço.

– O grunge nos dá a receita do sucesso: baixo, guitarras nervosas e bateria. Nada mais do que isso. A simplicidade do grunge é o que dará futuro a vocês.

– Simplicidade ou falta de criatividade?

– Chame como quiser. Se vender, isto é o que importa. E não é apenas o arranjo que deixa a desejar. As letras são muito longas. E vocês não usam refrão. Isto é péssimo. Além disso, suas letras são muito depressivas. É um tipo de linguagem distante do comercial.

– As pessoas consomem o que vocês vendem porque não dão a elas outra escolha. Só pensam no que é comercial.

– O que é comercial enche a minha barriga e a de meus filhos, garoto. Sua inventividade destemida, não.

Heitor que estava calado até então, manifestou-se:

– Quer dizer que não existe negócio?

– Depende. – Ele recostou-se na cadeira. – Vocês têm talento, isso não nego. Mas para fecharmos contrato, vocês precisam de uma transformação.

– Que tipo?

– Poderemos fechar contrato se vocês estiverem dispostos a reformularem suas músicas. Mudem as letras. Tornem as letras mais curtas e suaves. Insiram refrões. Daqueles que grudam na mente. Também mudem os arranjos. Quero arranjos simples. Nada destes arranjos mirabolantes, destes ruídos indefinidos, deste som surreal. Façam as coisas com o pé no chão e aí sim, meus jovens, vocês terão uma chance.

Andreas assimilou bem o que ele propunha. Ele oferecia a grande oportunidade de lançarem um álbum. Mas, para isso, Andreas teria de mudar todo o universo musical que criara nos últimos dois anos. Dois anos sepultados, impiedosamente. Ele teria de se curvar, vender sua identidade ao que era comercial. Precisaria perder sua individualidade, sua capacidade de criar algo diferente do que as massas estavam acostumadas a ouvir. Teria de perder a capacidade de ser ele mesmo.

Ao mesmo tempo, ele tinha diante de si a grande oportunidade da sua vida. Era a chance de abandonar seu universo de mediocridade, um mundo onde as pessoas não se importavam com ele.

O verme se afastando da cova. O coelho fugindo do caçador. Vida longa ao coelho.

Ele poderia finalmente, segundo os seus sonhos mais profundos, tornar-se um astro do rock. Seria conhecido, talvez aclamado, respeitado. Mas quanto ao preço… o preço seria ele mesmo. Teria de ser um escravo. Mas como poderia concordar em ser um escravo se estava exatamente lutando para se libertar?

Vida longa ao coelho.

– Poderíamos fazer isso – apressou-se Heitor em dizer, parecendo contente com a ressalva do dono da gravadora. – De nada adianta insistirmos em algo que não tem mercado.

– E nunca terá mercado se abaixarmos a cabeça diante da moda – disse Andreas, destemido.

– Como eu disse, Andreas: você é um jovem corajoso. Mas seu empresário é inteligente. E os corajosos inovadores que conheço estão desempregados. Qualquer pessoa aceitaria a proposta que estou lhes fazendo. Vocês podem ir longe, mas precisam confiar em mim.

– A decisão está tomada, senhor Chris. É só uma questão de conversar com os meus garotos para eles se adaptarem às mudanças.

– Ótimo, Heitor. Eu quero ouvir como as músicas ficarão após estas reformulações de que lhes falei. O estúdio onde vocês se apresentaram é de vocês. Quero que aproveitem o tempo que precisarem para fazerem as mudanças. Estão de acordo? – perguntou, com um olhar incisivo diretamente para cada um deles.

– Sim – todos responderam, exceto Andreas.

O homem que queria roubar sua identidade saiu da sala.

Ladrões de identidade enfureciam Andreas.

Como que ensaiados, todos olharam para Andreas – ele era a criança mal-educada que se comportara terrivelmente mal, envergonhando os pais, e merecendo um castigo.

– O que pensa que está fazendo, Andreas? – Heitor estava furioso. – Eu estou investindo dinheiro em vocês. Eu pago o aluguel dos equipamentos e do estúdio, pago divulgação e inclusive esta viagem que fizemos. Acha que vou ficar gastando o meu dinheiro para financiar seus ideais, garoto? Nós temos uma grande oportunidade. E você vem com essa história do que é comercial, dos ditames da moda?!? Por que não faz aquilo que quer realmente? Componha suas músicas do jeito que você quiser, mas banque você mesmo seus sonhos. Não use meu dinheiro para isso.

Andreas olhou para o rosto de todos os outros. Todos pareciam concordar, inclusive Aquiles. Todos estavam dispostos a fazer as mudanças sugeridas – ou exigidas – por Chris. Todos queriam ganhar o “pão de cada dia” fazendo o que gostavam.

Andreas não podia negar: Heitor tinha razão. Andreas não poderia achar que o homem tinha a obrigação de bancá-lo. Argumentar agora seria abusar do seu direito de opinião. Todos ali tinham suas responsabilidades. Além disso, logo casariam, teriam filhos, seriam chefes de família. Fechar um contrato com a Atlantic City poderia garantir uma carreira, e o sustento deles e das famílias no futuro. Definitivamente, Andreas não tinha o direito de ser um impedimento a isto.

Por isso, naquele momento, com a faca ainda fincada em seu peito, ele tomou a única decisão cabível que poderia tomar.

– Foi uma honra tocar com vocês, rapazes. Mas, eu estou fora da banda.

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2 Comments

  1. Estou mesmo gostando de Andreas… Ele nao segue as massas… Vai mudar o mundo!

  2. Esse final! Quase que senti a dor dele, simplesmente esplêndido o seu texto.

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