Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 14

Quando o coelho descobriu-se um verme, percebeu que havia definitivamente enlouquecido

– Um cemitério? – perguntou, Andreas, surpreso.

Depois de toda a aula que recebera de Elou, Andreas achava que o rapaz ia levá-los para algum local onde teriam acesso à música de qualidade, quem sabe, até algo erudito. Mas em vez disso, Elou levou-os ao cemitério municipal. Todos relutaram ao chegar ali, mas após muita insistência, acabaram concordando em entrar.

– É aqui que costumo me divertir.

– Você se diverte… aqui?

– Aham, a gente costuma vir pra cá nos finais de semana.

– A gente?

– Não sou o único gótico da cidade, Andreas.

Era o que faltava. Seu novo amigo tinha a macabra diversão de passar noites em claro dentro de um cemitério. Andreas já ouvira falar de tais preferências, mas era a primeira vez que tinha contato com um deles. E para ser sincero, ele não estava nem um pouco entusiasmado com a experiência.

– O que vocês fazem aqui durante a noite?

– A mesma coisa que qualquer pessoa. Conversamos, bebemos, damos risadas.

– Mas onde está a graça de beber e conversar num lugar como esse?

– Ouça – respondeu, fazendo depois um longo silêncio. – Está ouvindo?

– Não ouço nada.

– Você está ouvindo a paz, cara. A loucura da cidade e seus concretos atômicos não tem lugar aqui.

Andreas ia dizer que poderiam ter paz e silêncio em outros lugares, mas preferiu não falar nada. Ultimamente, suas palavras não podiam ser apropriadamente classificadas como gentis. A amargura acumulada no rapaz, ao longo dos anos, parecia querer fluir pelos seus poros. Por isso, achou melhor calar a boca.

– Mas e os guardas do cemitério – comentou Aquiles. – Eles não falam nada?

– Correção: ele não fala nada. Só tem um guarda aqui. E ele não se incomoda. Na verdade, acho que até gosta. Sozinho, deve ficar monótono demais. Além disso, ele sabe que somos de confiança. Não somos vândalos.

– Interessante.

Andreas suspirou. Estava evidentemente incomodado.

Elou continuou, enquanto apontava para os túmulos:

– Conheço grande parte das pessoas aqui. Quero dizer, conheço pelas suas lápides. Temos ex-prefeitos, ex-vereadores, ex-padres, ex-ladrões, ex-comuns. Logo estaremos aqui também.

Estarei aqui antes de todos vocês, pensou Andreas.

– Não pretendo vir tão cedo para cá – disse Fábio.

– Mas isso não muda o fato de que acabaremos vindo de qualquer maneira. – Elou olhou para Andreas: – Por que não experimenta compor alguma coisa aqui?

Aqui?

– E por que não?

Porque não sou um lunático como você, pensou. Mas limitou-se a dizer, a acidez corroborando cada sílaba:

– Não, obrigado. Não estou precisando de mais inspiração. O desprezo que recebo lá fora já é o suficiente.

– Do que você tem tanta raiva, cara?

Andreas deu uma risada nervosa. Ele se mexia o tempo todo, inquieto. Todos o encararam, sérios. Dava para ver pelos seus olhares que imaginavam que ele estava enlouquecendo. A pior parte é que Andreas achava que eles poderiam estar cobertos de razão.

– Eu sou a escória da humanidade. Apenas um verme. Não espera que eu comece a bater palmas e dar saltinhos como um imbecil, né? Ou será que deveria?

Ninguém lhe respondeu. Todos ficaram quietos. Um clima pesado baixou sobre os 4 amigos. E o cemitério voltou a ser dominado pelo silêncio.

Ele resmungou:

– Vocês não sabem o que é sofrimento humano. – Mas, provavelmente, ninguém entendeu o que ele disse. De uns tempos pra cá, ele começou a soltar uns grunhidos que só seriam compreendidos em Saturno ou Plutão.

Aquiles tentou acalmar os ânimos:

– Também estamos nessa situação, cara. Nossa banda deveria chamar Os Inamáveis.

– Percebo que há muita dor dentro de vocês – disse Elou.

Andreas o encarou com seu novo olhar insano, quase psicótico:

– É, pode ser. Mas não fomos nós quem a colocou aqui.

___

A tensão dentro dos Aborrecidos estava cada vez maior.

Conforme Andreas tinha imaginado, Rodrigo reivindicava o seu direito de participar nos vocais a cada apresentação. E a cada novo show, ele queria cantar um número maior de músicas. Agora, com a aproximação do final do ano, ele já cantava a maior parte do repertório. Andreas percebia que perdera seu espaço, e o fato de ser manipulado enquanto era o grande mentor daquela banda, deixava-o furioso e deprimido, alternadamente. Em várias ocasiões, ele sentira o sangue subir-lhe à face e chegara bem perto de anunciar sua saída da banda. E pelo modo como as coisas estavam andando, Andreas tinha a derradeira impressão de que seus dias nos Aborrecidos estavam contados. Heitor, que já assumira definitivamente o posto de empresário do grupo, parecia torcer por esta possibilidade. Ele não queria que ninguém ofuscasse o brilho do seu filho, e isto incluía manter Andreas bem longe.

Estavam no Estúdio Davi Mateus, ensaiando para uma apresentação que fariam em frente ao Shopping da cidade, no Sábado, por ocasião de um sorteio de dois carros. A avenida seria interditada e eram esperadas centenas de pessoas. Se isso se concretizasse, seria o maior público que Os Aborrecidos teriam desde sua formação.

Isso já era o bastante para entusiasmar a todos, menos Andreas, que já podia imaginar Rodrigo lhe dizendo:

– Tem mais duas ou três músicas que quero cantar. Se tiver algo contra, converse com meu pai.

Verme, verme, a desilusão te chama.

O mentor esquecido. O mentor desmentido.

Ele estava cantando A Última Cavalgada das Walkírias, uma música que exprimia a solidão de alguém que estava rodeado de pessoas, mas se sentindo distante e perdido, ao mesmo tempo. A música exigia uma voz suave. No entanto, Andreas esbravejava a canção, quase aos gritos, arrancando olhares curiosos de todos os outros integrantes da banda.

Até mesmo Suzana parecia assustada. A filha de Davi Mateus assistia a alguns ensaios dos Aborrecidos, como acontecia naquela noite. Ela costumava lhe dizer: “Você é o melhor, Andreas!” Mas isso não o animava. O líder dos Aborrecidos apenas pensava, desanimado: “Minha única fã é uma criança”.

Quando terminou de cantar A Última Cavalgada, Rodrigo apressou-se em dizer:

– A próxima é minha.

– Pode ficar com todas – disse, Andreas, literalmente jogando a guitarra no chão, e saindo do estúdio.

Coelho que se cansa é mais fácil devorado.

O ensaio mal começara mas, para ele, já havia acabado. Definitivamente consumido. O verme estava entregue.

– Aonde vai? – A voz suave vinha de trás.

Andreas voltou-se. Era Suzana.

– Tentar achar o meu lugar – respondeu, laconicamente.

– Mas… seu lugar não é aqui?

– Não estou tão certo.

– Por que fala isso?

Andreas suspirou:

– As pessoas têm medo de mim. E eu tenho medo delas. Em resumo: esse não é o meu lugar e eu não tenho a mínima ideia de onde seja.

Andreas virou-se e, saindo do prédio, mergulhou na escuridão da noite.

Mas ele imaginou que mergulhava ainda mais fundo na escuridão de sua vida.

___

No sábado, já no palco, Andreas observou atentamente as pessoas aglomeradas na grande avenida central, em frente ao Shopping. Como era uma apresentação na rua, sem qualquer ingresso, o povo da cidade compareceu em massa. Eram centenas de pessoas, a maioria formada por jovens. Talvez chegassem a mil com um pouco de otimismo. E isso deixava-o profundamente nervoso. Na verdade, toda a banda era uma moldura do nervosismo.

Rodrigo, aproximou-se do microfone para dar as boas-vindas. Ele esboçou um sorrisinho idiota.

– Boa noite, amigos. Sejam bem-vindos a grande apresentação promocional do maior shopping da cidade. – Ele parecia um garoto-propaganda com aquele sorriso forçado. – Depois de tanta expectativa, hoje conheceremos os ganhadores destes dois carros maravilhosos. Tenho certeza de que estão ansiosos, não estão?

Alguns poucos disseram: “Estamos”. Mas a maioria permaneceu num silêncio mórbido, pouco entusiasmada com a tentativa fracassada de Rodrigo de ser simpático. O cara provavelmente nem tinha conquistado a própria mãe e agora queria conquistar uma multidão.

– Mas para deixar vocês um pouco mais ansiosos, vamos deixar o sorteio para o final. Até lá, vocês poderão cantar e dançar um pouco. Nós vamos tocar umas músicas para divertir vocês um pouco, e se quiserem…

– O negócio é o seguinte: – interrompeu Andreas, bruscamente, já entojado de tanta ladainha. – Nós somos Os Aborrecidos. E sabem por que nos chamamos assim? Porque estamos aborrecidos com essa porcaria de sistema que determina todos os detalhes em nossa vida, o que comer, que horas dormir, o que fazer, quanto fazer. Por isso, fazemos rock para expressar toda a angústia que domina o ser humano e que nos conduz ao medo e incompreensão. Se vocês estão cansados de toda esta porcaria de vida, ouça o que temos a dizer porque vocês não estão sozinhos. – Andreas voltou-se para os integrantes da banda. – Vamos lá. Um, dois, um, dois, três, vai.

E a primeira música começou. Durante toda a introdução, Rodrigo ficou encarando Andreas com um olhar que dizia: “Que pensa que foi aquilo?”. Mas Andreas não estava nem aí para o que ele ou o maluco do pai dele pensavam. Para falar a verdade, Andreas não estava nem aí para coisa alguma.

A primeira música seria interpretada por Rodrigo, mas Andreas começou a cantar antes. Enquanto cantava com todo seu fervor, ele pensava: Hoje, esta noite é minha. Eu sou o centro do mundo.

Andreas cantava de olhos fechados. Cantava com a emoção exposta em cada nota soada, em cada gota de suor que brotava em seu rosto. Seu timbre entoava a angústia que estava disposto a eliminar. Começou a trocar as palavras das canções, inclusive nos covers. Quando a canção falava “amor” ele trocava por “traição”, quando falava “esperança”, ele trocava por “mal”. Além disso, ele improvisava diversos solos, tocando estes com tamanho sentimento que parecia que sua guitarra falava.

Música após música foi assim. Quando Rodrigo tentava assumir o vocal de uma canção, Andreas começava a cantar com voz mais forte, superando-o. O seu timbre sempre mudado a cada música, acompanhando os sentimentos expressos nelas, deixava o público admirado de sua voz.

E Rodrigo parecia perceber isto e, pelo visto, não estava gostando nem um pouco. Andreas conseguia determinar isto pela série de erros incomuns cometidos pelo tecladista.

Depois de meia hora de show, houve um pequeno intervalo. Todos foram para o fundo do palco, a maioria comentando a grande sorte que tinham por serem a única banda convidada para aquele evento. Mas Rodrigo só tinha uma coisa a dizer:

– Qual é seu problema, Andreas? O que foi que combinamos?

Nós não combinamos nada.

– Você deve estar achando que as coisas vão continuar assim, né?

– Pouco me importa o que vai acontecer, moleque. Quem manda aqui, sou eu.

Rodrigo deu uma risada.

– Do que está falando?

– De conquista, meu caro. De conquista.

Neste momento, Heitor se aproximou.

– O que houve lá em cima?

– O que acha? O maluco do Andreas acha que é o dono da banda e não quer abrir mão dos vocais.

– Você é o cara que deveria ganhar o troféu de teimosia, Andreas. Qual é o seu problema, garoto?

Andreas estava olhando em volta demonstrando total falta de interesse naquela conversa. Por fim acabou dizendo:

– Deixem-me em paz. Tenho mais duas músicas para cantar e não estou disposto a cansar minha voz discutindo com vocês.

Ele virou-se e saiu.

Enquanto andava, podia sentir o olhar furioso dos dois homens fulminando suas costas. Ele estava certo de uma coisa: eles não deixariam aquilo barato. Cobrariam de Andreas sua postura indomável até o último centavo.

Aquiles emparelhou com Andreas.

– Por que não tenta contribuir para um pouco de paz na banda, cara? Lembra onde a gente estava há alguns anos atrás? Agora estamos tendo uma chance de mudar o rumo de nossas vidas. E você vai ficar aí causando todo este clima ruim por causa de uma obsessão vazia?

– Obsessão vazia? Obsessão vazia??? – Andreas praticamente gritava. Estava fora de si. – O que você sabe a respeito de mim? Eu mergulhei nesta escuridão tão fundo que achei que nunca mais conseguiria sair dali. Eu me vi passando o resto da minha vida como um rato dentro de um buraco lutando para sobreviver. E só tive forças porque acreditei em algo. E ainda acredito. E quer saber no que acredito, Aquiles? Acredito em liberdade, acredito em criação. E todo ato de criar, inventar, compor é um ato ordenado. Não uma bagunça que qualquer idiota como aqueles dois estabelecem só porque são os donos do dinheiro. – Só quando terminou de falar Andreas percebeu que estava chorando.

– Mas é assim que as coisas funcionam. – A voz de Aquiles era absurdamente baixa. Estava muito assustado com a reação de Andreas. – Precisamos do dinheiro. Esta é a realidade.

– Não quero esta realidade. Só quero olhar no espelho e acreditar que estou vivo. Será que você não entende?

– Você não precisa ser a atenção principal para se sentir vivo. Você está distorcendo as coisas. Escute o que estou te dizendo: se continuar assim, vai acabar sozinho.

Andreas começou a se afastar.

– Se meus ideais me afastarem da esfera humana, então assim será. E se acha que estou errado, então pode me fazer um favor: vá pro inferno!

Andreas não estava contente com o rumo que estavam tomando. E para falar a verdade, ele não fazia ideia se as coisas seriam diferentes se estivesse em qualquer outra banda. Talvez Aquiles estivesse certo. Talvez aquele não era o espaço para se criar. Apenas para sentar e se divertir.

Quando eles voltaram ao palco, o público vibrou. Todos os integrantes da banda sorriram e acenaram, menos Andreas. Ele manteve a expressão séria, e mal olhava para o público. Era uma máscara de indignação.

Andreas pegou o violão e, ignorando a sequência do repertório para aquela noite, anunciou:

– A próxima música é apenas violão e voz. Eu compus em um destes momentos em que a gente consegue ver a luz no fim do túnel; um túnel que às vezes parece mais longo que a própria vida. A letra é de Aquiles Lucká. Pode não parecer, mas esta música fala de esperança. Ela se chama “Sem Controle”.

Enquanto toda a banda o encarava, sem entender nada, Andreas ajustou o violão e começou a cantar, tão solitário como então se sentia.

Os sacrifícios da perfeição

Conduzem ao vazio

O sangue virgem como alvo

A vida por um fio.

Uma existência sem controle

No controle da carência

Os passos dados na escuridão

Vacilam com frequência.

 

Eu planto a vida e colho a morte

Num lugar comum

Os pesadelos, um novo tormento

E não há livramento algum.

Mas vou tentando

Porque as peças vão mudar

O poderio dos séculos

Terá de se curvar.

 

A mesma sorte num mesmo corte

Um salto para o fim

As marcas de tortura nas mãos

O livramento de um sim.

Um holocausto no coração

Derruba a consciência

O descaso e a falta de amor

São as foices de uma doença.

 

E tudo acaba

Sempre com uma repetição

Repete a forma, repete a ordem

E nada resta ao coração.

Mas vou tentando

Porque os passos vão mudar

O poderio dos séculos

Terá de se curvar.

Quando terminou a batida melódica, o público vibrou.

Andreas falou a todos:

– Não importa quanto tempo demore, mas os nossos opressores, mais cedo ou mais tarde, terão de se curvar diante de nós.

Foi ovacionado mais uma vez. Ele olhou para os outros no palco. Todos o olhavam em silêncio. Nos olhos de Rodrigo, ele viu o ódio. Mas não se incomodava. Naquele momento, ele conseguiu ter o que precisava.

Centenas de pessoas lhe diziam que ele estava vivo.

Ir para CAPÍTULO 15

2 Comments

  1. Quando sai o próximo capítulo??
    Ta ficando muito bom mesmo!

  2. Andreas finalmente agiu como homem, só esperamos as consequências. Muita criatividade sr escritor. Tá tão bom! ….Moçambique

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

© 2016 Corrosiva

Theme by Anders NorenUp ↑