Preso em sua própria negação, o mundo parecia não ser o seu lugar

1994

  • Com o fim do Nirvana, que deixou o grunge e o punk rock em alta, The Offspring cai nas graças do público após o lançamento do seu terceiro álbum, Smash;
  • Ressurge o festival de Woodstock;
  • Os amigos de infância Brian Molko e Stefan Olsdal se reencontram em Londres. Do encontro é formada uma banda, inicialmente chamada de Ashtray Heart. Após recrutar o baterista Robert Schultzberg, trocam o nome da banda para Placebo;
  • A banda alternativa dEUS, da Bélgica, lança Worst Case Scenario. Eles exploram sua engenhosidade ao fundir folk com punk, jazz com rock. O resultado é uma sonoridade cativante e sedutora;
  • O Weezer vai para Nova York gravar o seu primeiro disco no famoso estúdio Eletric Lady. A produção do disco fica por conta de Ric Ocasek, ex-vocalista do The Cars. A banda tem como receita melodias fáceis, guitarras pesadas e letras inocentes.

Era uma sensação nova e cativante. Aquiles sabia que trilhava o caminho correto.

Desde o baile de final de ano, Heitor, empresário da banda, começou a ser contatado por alguns bares e casas de show solicitando apresentações dos Aborrecidos. Logo, a banda começou a ter participações regulares em apresentações locais e em cidades vizinhas.

O nome dos Aborrecidos começava a ganhar relevância entre a faixa juvenil da cidade. E Aquiles permitia-se extasiar com esta realidade. Por isso, acordava, dormia, ensaiava com grande excitação. Não demoraria muito até uma gravadora dar as caras para apostar alguns reais neles.

Sua felicidade se esvaía apenas quando se confrontava com as lembranças de Veraline. A visão dela dançando com Marcos, o súbito reatar do seu namoro – tudo isso era uma artilharia poderosa que quebrantava seu entusiasmo. Qual teria sido o destino de sua obra, “O Vazio da Juventude”, entregue na caixa de correspondência dela, no ano anterior? Certamente, foram parar em uma lata de lixo, de imediato. Ou teriam servido de combustível para uma pequena fogueira, enquanto Veraline soltava gargalhadas sádicas. No final das contas, talvez Andreas tivesse razão. Aquiles não passava de um idiota se iludindo com sonhos impossíveis. Ele e Veraline pertenciam a universos diferentes.

E não haveria ruptura no espaço-tempo capaz de colocá-los na mesma trilha.

___

Era o mês de Março. As aulas começaram sob uma aura de otimismo, pelo menos, para ele. Aquiles estava iniciando o 2° colegial. Neste ano, apenas Aquiles, Andreas e o baterista Fábio, que repetira de ano, estudariam no Tomas Salvatori, na parte da manhã. Rogério e Rodrigo estudavam em outro colégio, e Eduardo teve de estudar a noite para poder trabalhar durante o dia. Isto significa que, nos ensaios durante a semana, Andreas reassumiria o contrabaixo. Ele achava que a saída de Eduardo da banda, era só uma questão de tempo.

Neste momento, os 3 Aborrecidos estavam no pátio do colégio, conversando. Na verdade, somente Aquiles e Fábio conversavam. Andreas parecia em outra dimensão. Ele tinha um aspecto sombrio. Distante, pálido, inexpressivo. Ele costumava ter esses momentos. Aquiles achava que agora, com a banda tomando os rumos esperados por todos, ele melhoraria. Mas na verdade, Andreas continuava sendo a figura estranha e assustada, como se não tivesse sido feito para este mundo.

Aquiles tentou injetar ânimo no amigo soturno.

– Olha só, Andreas, como os alunos estão olhando para nós.

Era verdade. Estranhos olhavam para os 3 jovens com curiosidade. Alguns chegavam fazer um discreto aceno de cabeça. Eles haviam despertado a atenção de todos com seu talento para a música. E isto era um bom sinal. Como comentaram durante o baile, ali estava o público-alvo dos Aborrecidos. Conquistá-los era evidência de que estavam fazendo um bom trabalho.

Mas, em vez de um comentário animado, Andreas resmungou alguma coisa que ninguém seria capaz de traduzir.

Fábio olhou confidencialmente para Aquiles, como que perguntando: “Que bicho mordeu ele?”. Parecia preocupado. Mas Aquiles, como já conhecia as variações de humor do amigo, deu de ombros.

De todos os integrantes da formação original dos Aborrecidos, Fábio era aquele com quem desenvolveram maior afinidade – talvez porque fosse o mais calado. A amizade entre os 3 acabou se desenvolvendo de forma natural, independentemente de terem a banda como link entre eles.

Como o assunto “fama” não surtiu efeito, Fábio mudou o rumo da conversa. Perguntou para Aquiles, brincando:

– Quer dizer que vai namorar a Veraline, então?

– Veraline é passado – respondeu, não muito convicto do que dizia. – Passei quase 4 anos da minha vida apaixonado por aquela menina e até hoje ela nem me disse um “oi”, acredita?

Subitamente, Andreas emergiu da tumba, envolto em bandagens, coberto de teias de aranha, e comentou com voz lúgubre:

– Também acho uma imbecilidade ficar se arrastando por uma pessoa que preferia te ver morto. Às vezes acho que você tem vocação para viver em um hospício.

– Calma, cara. Já disse que superei essa. – Ainda faltava-lhe convicção.

– Vi que você e a Márcia andam trocando algumas palavras – comentou Fábio. – Vira alguma coisa?

– Nada de sério, cara. Somos apenas amigos.

– Se você diz… E você, Andreas, como anda o coração?

– Devidamente fechado. Já tenho fantasmas demais me atormentando para procurar mais problemas.

Aquiles deu um tapinha no ombro de Andreas.

– O coração desse aqui já tem dono: a música.

Fábio sorriu.

Andreas, ainda inexpressivo. Simplesmente, um homem em cinzas. Então, em silêncio, ele desapareceu novamente dentro da sua tumba. Voltaria a sair dela talvez dentro de uns 2 mil anos.

Minutos depois, como acontecia todos os anos, o diretor subiu ao palco para designar os alunos para suas respectivas salas. Aquiles gostaria de ficar na mesma sala que Andreas e Fábio. Como Fábio havia repetido o ano, ele cursaria o 2° ano novamente. Se Márcia fosse para a mesma sala que ele, também seria ótimo. Ao mesmo tempo, torcia para que Veraline ficasse em outra turma. Terem de estudar juntos depois de tudo o que acontecera era, no mínimo, desagradável.

E a aura de otimismo que sentia, justificou-se. O diretor anunciou que Aquiles, Andreas e Fábio iam para a turma A, enquanto Veraline iria para a turma B. Uma pena foi o fato de Márcia ter ficado na outra sala junto com Veraline.

Após ouvirem o anúncio, os 3 companheiros rumaram para a sala. Quando lá chegaram, Aquiles deu uma rápida olhada nos seus colegas de sala. A turma tinha pouco mais do que 15 estudantes. Alguns rostos conhecidos, outros novos. Desta vez, porém, foram recebidos pelos mesmos olhares de admiração iniciados no pátio, minutos antes.

Os 3 amigos sentaram-se no fundo da sala, próximos um ao outro. Na frente de Aquiles, sentou-se um sujeito muito estranho – Aquiles começava a achar que atraía esse tipo de pessoa. Havia algumas características que o destacavam, de imediato. Primeiramente, ele tinha a cabeça raspada. Além disso, estava inteiramente vestido de preto. Camiseta, calça e tênis – tudo preto. Uma presença sinistra. Mas não havia ameaça ali. Aquele sujeito tinha um certo olhar que Aquiles, naquele primeiro momento, achou difícil definir. Algo como inteligência, sagacidade. Observava tudo com um olhar penetrante. Ainda assim, um cara estranho.

E o tempo haveria de mostrar que ele era bem mais estranho do que parecia.

___

– Vivi 2 anos em Londres. E, nesse tempo, aproveitei para conhecer toda a Europa – disse Elou Meirelles, o cara mais esquisito que Aquiles já conhecera. – Assisti a muitos shows no circuito alternativo europeu e posso te garantir, cara, ali está o futuro da música.

Aquiles, Andreas e Fábio prestavam detida atenção a medida que Elou discursava sobre suas aventuras europeias. O contato começara quando Elou ouvira falar que eles tinham uma banda. Depois disso, Elou passou a fazer um milhão de perguntas. Era um rapaz musicalmente culto, tendo a vantagem de ter viajado por vários países, pesquisando coisas novas. E tinha um insaciável entusiasmo quando o assunto era música.

No entanto, Elou era contra tudo aquilo que fosse pop. Era um rebelde contra o tradicionalmente aceito como normal. Por isso era adepto dos shows de música alternativa – foi a dezenas enquanto vivia na Europa. Ele ficara curioso quando soube que Os Aborrecidos eram experimentais em suas músicas fazendo um som mais engajado, mais complexo do que “as músicas de três acordes” que haviam ganhado forte impulso no início da década de 90.

– Preciso ouvir isso – disse ele, na ocasião. – Vocês vão tocar nos próximos dias?

– Tocamos todos os finais de semana na Smith House, lá no centro. Por que não aparece por lá?

Ele aparecera. Observara que a reação do público era muito boa. No entanto, após a apresentação, dissera:

– Vocês teriam uma chance maior se fossem para a Inglaterra. Eles possuem um gosto mais apurado para digerir este tipo de música.

O pai de Elou trabalhava no comércio exterior, e vivia viajando. Esta era a razão de terem passado os últimos dois anos na Inglaterra. E, neste período, ele teve oportunidade de conhecer bandas iniciantes que, tempos depois, alcançavam o sucesso no mundo inteiro. Ávido por conhecimento musical, as viagens lhe renderam mais do que todos os Aborrecidos conseguiram obter em conjunto, enfiados naquele estúdio.

A curiosidade de Elou continuava:

– Quem inventou este nome, Aborrecidos?

– Ridículo, né? – Andreas respondeu. – Quando entramos na banda, este já era o nome oficial. Até sugeri mudar, mas a ideia não colou.

– Nomes não querem dizer nada. No final das contas, é música e interpretação que realmente importam.

Aquiles perguntou:

– Você toca algum instrumento?

– Tive aulas de piano, violino e harpa.

Aquiles não deixou de achar engraçado. O sujeitinho mais estranho do planeta, cabeça raspada, vestido de preto e… tocando piano, violino e harpa? Chegava ser cômico, na melhor das hipóteses.

Ele apressou-se em explicar:

– Meu pai sempre foi exigente na questão da minha educação. E aprender música clássica fez parte do currículo.

– Você teve que aprender Mozart, Beethoven… ?

– Felizmente. Se um cara quiser ser um bom músico, um dos melhores caminhos é estudar música clássica. Mas, no fim, acabei me voltando para outra vertente. Em vez de piano, prefiro teclado, sintetizadores. Gosto de inventar os sons mais malucos que você possa imaginar. Aprendi muitas coisas novas na Europa. E o que o dinheiro da mesada dava para comprar em termos de equipamento, eu trouxe para cá.

Aquiles gostaria de um dia ser convidado a casa de Elou para dar uma olhada nos seus equipamentos.

Observando Elou, Aquiles não deixou de compará-lo a Rodrigo. Com certeza, Elou seria um tecladista mais interessante, criativo e menos encrenqueiro para se ter em uma banda. Por isso, perguntou:

– Você nunca teve uma banda?

– Não. Nunca pensei nisso.

– Por quê?

– Acho que não é para mim, só isso.

– Pode ser interessante se você encarar como diversão?

Ele deu uma risadinha.

– Prefiro me divertir de outras maneiras.

– Quais?

Elou encarou-os, detidamente.

– Vocês têm algum compromisso para hoje a noite?

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