“I don’t care if it hurts / I wanna have control / I want a perfect body / I want a perfect soul”

O pátio do colégio fora transformado em um impecável salão decorado e iluminado para o baile. As aulas haviam terminado uma semana antes, e hoje era o tão esperado dia para todos, especialmente para os ansiosos integrantes dos Aborrecidos.

Andreas não dormira durante toda a noite. Suas olheiras denunciavam a noite em claro. Passara todas as horas da madrugada, ou se virando na cama, ou andando como um maluco de um lado para outro no quarto. Ele chegou a pensar em ligar para Aquiles às 3 da manhã e perguntar se este não gostaria de ensaiar um pouco.

Era um obcecado. Estava paranoico. Temia errar. Aquela era uma grande oportunidade; não a única, nem a melhor, mas era a primeira. Era por isso que o senso de perfeição fustigava alarmes persistentes na mente de Andreas.

E neste momento, eles estavam conferindo os últimos detalhes técnicos antes do início do baile. Davi Mateus locara grande parte do equipamento que Os Aborrecidos usariam naquela noite. Como Os Aborrecidos tocariam muitas músicas dos anos 60 e 70 precisariam soar como tal. Davi conseguira equipamentos que reproduziam autenticamente o som clássico daqueles anos. Eles também teriam de tocar músicas das décadas de 80 e 90. Com uma variedade tão grande de estilos, Andreas gostaria de ter um amplificador que permitisse tamanha infinidade de sons. Mas, como isso não era possível para “reles mortais” como eles, tinham de espalhar pelo palco diversos Marshalls e Soldanos. O resultado era um amontoado de equipamentos que ocupavam quase todo espaço. Isto sem contar o fato de que seriam 6 homens tocando ali. Muito provavelmente, 6 homens que ficariam imóveis.

Quando os primeiros alunos começaram a chegar, não deixavam de expressar surpresa ao ver a quantidade de gente e equipamentos no palco. Eram apenas uma bandinha em sua primeira apresentação, mas a movimentação ali era de profissionais.

Nem começamos a tocar e já estamos chamando a atenção, pensava Andreas, sempre obcecado com a sua exposição.

Naquela noite, os seis Aborrecidos trajavam os obrigatórios smokings – uma cópia declarada das manias americanas. Andreas lamentou não poder vestir-se de uma forma bem escandalosa para chamar atenção, talvez até cantando sem camisa exibindo o peito esquelético e branco, a la Morrissey. Claro que ele não faria isso, mesmo que pudesse. Do contrário, era possível que as pessoas saíssem correndo, assustadas com a figura grotesca postada no palco. Eduardo, baixo e gordo, foi o que mais ridículo ficou. Onde locara o smoking, o menor número ainda era grande para ele, e o baixista precisaria arregaçar as mangas para conseguir tocar.

Alguns deles, como Aquiles, pagariam o aluguel de suas roupas com o dinheiro que ganhariam com a apresentação.

– Não vai sobrar nada – reclamara Aquiles, do alto valor cobrado pelas roupas desajeitadas.

– Pelo menos, não vamos ficar devendo.

Tais preocupações, agora, eram o epítome da bobagem. Não havia espaço em suas mentes preocupadas para detalhes insignificantes como aluguel das roupas. A concentração deles estava toda direcionada para os últimos preparativos. Faltavam alguns minutos. Apenas alguns minutos separavam o planeta Terra da estreia mundial, universal, dos Aborrecidos.

E foi exatamente nestes instantes finais, em que Andreas se imaginava como um novo Kurt Cobain, Rodrigo se aproximou e lhe disse, quase num sussurro:

Lucy In The Sky With Diamonds é minha.

– Quê?

– Eu vou cantar Lucy In The Sky. E todas do Elvis também.

Andreas ficou em silêncio olhando para o rosto desafiador de Rodrigo.

– Quem disse?

Eu disse. E se achar que estou errado, meu pai também pode te dizer.

– Que besteira é essa? Eu sou o vocalista.

– Não disse que não é, cara. Só estou dizendo que algumas das canções sou eu quem vou cantar, assim como acontece em qualquer banda. Por que não posso cantar algumas músicas?

– Simplesmente porque ninguém me falou porcaria nenhuma sobre isso.

– Talvez porque conhecemos muito bem a sua teimosia e egoísmo. Você só quer atenção para você, Andreas, mas tem de se lembrar de que, se está neste palco hoje, é por nossa causa. E não se esqueça de que meu pai banca as despesas. Não venha querer dar ordens aqui.

– O dinheiro do seu pai não seria capaz de trazer vocês aqui, essa noite. Se Os Aborrecidos estão neste palco, foi por qualidade musical. E vocês devem isto a mim.

– Quem ouve você falando pensa que estamos diante do maior mestre do rock de todos os tempos. Você se acha o cara mesmo, não é?

Andreas sentia o sangue fervilhar dentro de si. Fora apunhalado pelas costas. Percebia agora que Heitor estivera planejando promover seu filho no baile de fim de ano.

O que mais preocupava Andreas neste momento era o fato de que não era apenas questão de ceder uma única vez. Ele tinha certeza de que nas próximas apresentações Rodrigo continuaria reivindicando seu direito de participar nos vocais, talvez exigindo interpretar cada vez mais canções. E depois lutaria para cantar a maioria delas para, por fim, exigir cantar todas. E então Andreas seria deixado atrás de equipamentos enquanto Rodrigo receberia todo mérito e atenção por parte de fãs e jornalistas. A megalomania de Andreas lhe fincava agulhas em todo o corpo. Ele começou a tremer de raiva, desgosto e angústia. E o que poderia fazer? Andreas percebia que não poderia discutir aquilo, agora. Tinham de começar a tocar naquele momento – até nisso pensaram. Ele deixou para falar em cima da hora para não haver possibilidade de um confronto maior.

Andreas assentiu para Rodrigo. Pensou em acertar sua guitarra na cabeça dele, mas limitou-se a dizer:

– Depois conversamos sobre isso.

O moleque esboçou um pequeno sorriso sarcástico. Ele tinha vencido naquela noite.

Rodrigo então se posicionou nos teclados e, antes que Andreas pudesse dizer qualquer coisa, começou a falar no microfone dando boa-noite a todos. Até as palavras iniciais – Andreas chegara preparar um pequeno discurso para isso – lhe foram roubadas.

Como a primeira música era In The Ghetto do Elvis, o filho do manda-chuva começaria cantando. Antes que a primeira nota fosse soada, Andreas suspirou em desgosto.

___

Eles estavam agradando. Dava para perceber. A maioria dos presentes no baile eram rostos familiares. Alguns dos que riram dele no seu primeiro dia no colégio, também estavam ali. E ele percebia que alguns os observavam com uma curiosidade respeitosa. Ele e Aquiles eram a escória daquela gente, os vermes desprezíveis. E agora, os dois seres repugnantes tocavam algo verdadeiramente sublime que atingia a alma de cada um dos presentes.

Andreas divisou William dançando com uma ruiva que faria o trânsito parar. Ela ficava colada nele o tempo inteiro. Houve um momento, em que William quis afastar um pouco o corpo para poder olhá-la nos olhos, mas ela o agarrou como se ele fosse escapar, fugir e nunca mais voltar. Cenas como essas deixavam Andreas pra baixo. Invejar William era o mínimo que ele poderia fazer.

Mas logo após, porém, veio aquilo que ele chamaria de pequena recompensa. Andreas sentiu seu ego inflar quando uma garota, que dançava com um dos caras metidos a rico e conquistador, lançou um discreto sorriso para ele. As mulheres não costumavam sorrir para Andreas, apenas rir dele. Qualquer um, em sua situação, teria agido normalmente, mas não o palerma do Andreas. Ele ficou tão desconcertado com o sorriso da garota que acabou se esquecendo da letra de Creep do Radiohead. Andreas lançou um olhar para Rodrigo, como que suplicando: “Você não queria a chance de cantar? Então cante agora, imbecil”. Rodrigo pareceu entender o recado, pois continuou cantando, enquanto Andreas, tentando disfarçar a gafe, improvisou um solo de guitarra, totalmente inusitado e no momento mais inapropriado da canção.

Quando a música terminou, Aquiles perguntou para ele:

– Que houve?

Andreas limitou-se a dizer, envergonhado:

– Mulheres.

Ele que tanto exigia dos outros integrantes da banda, sempre cobrando a melhor performance, cometera o primeiro grande erro da noite. O que o sorriso de uma garota não fazia com um imbecil cujo inteiro universo cabia entre quatro paredes? I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul!

Andreas voltou para o microfone e anunciou:

– A próxima música é uma composição minha e do Aquiles. É uma música que retrata o ambiente assustador em que um ser humano se comprime, tentando ganhar fôlego para viver, se debatendo para encontrar um sentido. – Evidentemente, ele tinha ensaiado exaustivamente aquela frase.

Andreas cantou a música como se estivesse expelindo toda sua dor em cada uma das palavras cantadas. Ele mudou o timbre para uma voz mais rouca e fantasmagórica, combinando com o ambiente sombrio da canção. Os músicos também pareciam muito inspirados com toda aquele gente dançando e observando-os. A esta altura, o pátio devia estar com umas 200 pessoas. A cada música finalizada, as pessoas aplaudiam, e a sensação de ser aplaudido era algo que Andreas queria carregar consigo durante muitas décadas. Mas após finalizarem esta última canção, as pessoas não só aplaudiam, mas também ovacionavam. Andreas sentiu as palmas e vozes serpenteando sua alma, o que o deixou literalmente arrepiado.

Eles haviam gostado, era evidente. A música de maior sucesso no baile, até o momento, era exatamente uma composição própria. Andreas se deliciou só de imaginar como reagiriam se ouvissem todo o repertório que eles compuseram no último ano.

– Obrigado! – disse ele, dominado pela emoção.

A próxima música era uma das mais românticas. Serviria para embalar os casais, e dar oportunidade para os rapazes safados comprimirem seus corpos contra as garotas. A melodia seria executada somente com teclado e violão. E então, Rodrigo introduziu Somebody do Depeche Mode.

À medida que Andreas cantava, ele observava os casais dançando ao som melódico da canção. Ele não pode evitar uma pontada de inveja ao ver aqueles rapazes, que se comportavam como verdadeiros idiotas na sala de aula, tendo como companhia meninas tão belas que chamavam a atenção de qualquer um. O que é que elas viam naqueles caras?

Neste momento, Andreas percebeu que Aquiles começava a errar terrivelmente o dedilhado. A princípio, ele começou a formar os acordes com extrema dificuldade, fazendo com que algumas cordas simplesmente não soassem. Em seguida, trocou um acorde, destoando completamente a canção. Parecia um drogado tocando. Andreas olhou desesperadamente para trás. Ele percebeu que Aquiles olhava fixamente para a multidão. Andreas acompanhou o olhar do amigo e percebeu que ele caía exatamente em cima de… Veraline. Aquiles parou de tocar deixando que apenas o teclado de Rodrigo desse continuidade à música.

Andreas continuou cantando enquanto observava melhor Veraline. Ela estava deslumbrante, sem dúvida. Trajava um vestido vermelho que realçava o desenho perfeito de seu corpo. O maior problema, para Aquiles pelo menos, era que ela estava acompanhada. Sua companhia era… Marcos?? Até onde sabia, Marcos namorava. Será que ele havia terminado? Muito provavelmente, porque a intimidade entre os dois era tamanha que não restava outra opção. Depois do casalzinho aprontar uma confusão que resultou em expulsão para dois ou três, Veraline conseguira ter seu amado de volta. E tudo para desespero de Aquiles. Até hoje, Veraline nunca lhe dirigira a palavra. Nem sequer o olhava. Andreas achava que Aquiles tinha finalmente conquistado um primeiro lugar em sua vida: era o cara mais ignorado do mundo.

Quando terminaram Somebody, Andreas anunciou que a banda teria um pequeno intervalo, mas logo voltariam.

Nos bastidores, Aquiles, bem abatido, já foi falando:

– Aquela desgraçada… tinha de estar aqui com aquele cara.

– Você sabia que eles estavam namorando?

– Se soubesse nem tinha vindo. Aliás, tinha me jogado da ponte.

– Relaxa, cara.

– No fundo eu estava torcendo para que ela não aparecesse. Daí ela aparecesse e junto com aquele cara. Maldição! Estragou a noite.

– Eles não fizeram nada de errado, cara. Estão namorando e vieram no baile. Qual o problema?

– O problema é que você fala demais.

Nisto Rodrigo se aproximou.

– Posso saber o que há de errado com vocês? Primeiro, Andreas se atrapalha com a letra. Depois Aquiles começa a tocar como um idiota.

– Essas coisas acontecem, Rodrigo.

– Sei. Você vem me dizer isso né, Andreas? Logo você? Que contradição! Desta maneira, não vamos chegar a lugar nenhum. – E foi embora, furioso.

– Estou com vontade de esganar esse sujeito – desabafou Andreas.

– Não entendi porque ele cantou, hoje. O que houve?

– Sei lá. Em resumo, que minha permanência na banda estaria em jogo se eu não deixasse ele cantar. Basicamente isso.

– Uau… Mas, ele canta muito bem. Não dá para negar.

– Ele não vai parar. Eu bem que avisei você sobre isso. Nós não somos os líderes desta banda. Somos os coadjuvantes. Este foi só o começo. Aposto que ele vai brigar pelo vocal principal.

– E se isto acontecer, o que você vai fazer?

Andreas pensou bem antes de responder.

– Eu saio da banda.

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