Os assustadores reinam sobre o silêncio e súditos inexistentes

Na solidão, o tempo se arrasta, interminavelmente. A noção do tempo parece se desintegrar em facetas pouco distinguíveis da realidade. E o quarto de Andreas era o maldito cubículo onde ele se conscientizava disso.

E quando não estava na escola ou no estúdio, era ali que ele se desintegrava. Medo das pessoas, medo da luz. Sentava-se na cama, encarando a parede vazia, até a vista cansada produzir imagens distorcidas e irreais. Seu próprio mundo onde ele ditava regras para o silêncio, o vazio e a escuridão.

Às vezes, Andreas se achava apenas um jovem normal. Em outras, achava que tinha algum problema. Nunca tivera coragem de expor para os pais suas angústias interiores. Se o fizesse, acredita que os pais o internariam. E ele terminaria seus dias em uma camisa de força, salivando, e fedendo a urina em um sanatório úmido e claustrofóbico. Por isso, o melhor a fazer era calar a boca e enfrentar sozinho seus próprios fantasmas. No final das contas, talvez fosse o mais seguro.

Quando ele começou a ver deformidades na parede vazia, achou que estava na hora de ir para o estúdio ensaiar.

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Naquele dia, ele tinha boas notícias para a banda.

Andreas sabia que todos os Aborrecidos queriam uma oportunidade para demonstrar seu trabalho. Já era possível perceber uma coesão mágica quando eles tocavam. Após intensos ensaios ao longo de meses, sob a tutela exigente e talentosa de Andreas, eles haviam evoluído muito, e estavam prontos para a primeira apresentação. Por isso, sem avisar os demais membros da banda, procurara o diretor e o coordenador do colégio para falar sobre o baile que ocorria todo ano, no mês de dezembro – o tipo de evento que Andreas nunca fora em toda sua vida.

Ao conversar com os dois homens, Andreas garantira que Os Aborrecidos tocavam melhor do que qualquer banda da cidade, e que cobrariam um preço abaixo da média.

– Los Bonos e Buenos tocaram ano passado para nós – dissera o diretor. – Já são conhecidos nossos, se é que me entende.

– Eu vi Bonos e Buenos tocando, e garanto ao senhor que tocamos melhor. Além disso, somos alunos aqui. Dê uma chance para gente da casa.

Dois dias depois, o diretor procurara Andreas e dissera:

– Semana que vem, nós vamos nos reunir para discutir alguns assuntos relacionados ao semestre e também com relação ao baile. Seria bom se pudessem tocar 2 ou 3 músicas para ouvirmos, só para termos certeza. Vocês poderiam fazer uma pequena demonstração para nós?

– Claro! – apressara-se em dizer.

E no ensaio daquela noite, Andreas anunciaria a oportunidade que se abria diante deles. Embora ainda não estivessem oficialmente contratados, ele estava confiante que conseguiriam convencer a administração do colégio. Assim, Andreas permitia-se delirar.

Embora nunca tenha ido a um baile, se tudo desse certo, naquele ano ele seria a atração.

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Quando Andreas chegou a noite no estúdio Davi Mateus, os 5 integrantes dos Aborrecidos já estavam tocando. Eles tocavam um cover do New Model Army – covers eram praticados fora dos horários, conforme determinado por ele.

O som era muito bom, Andreas não podia negar. Aquele mês estava fazendo um ano que estavam na nova formação. Um ano enclausurado dentro do estúdio, quatro vezes por semana. Nenhuma apresentação fora dali. Como reagiriam quando enfrentassem uma pequena plateia? Conseguiriam produzir um som tão bom quanto aquele que Andreas estava ouvindo? A harmonia existente na banda era ímpar, o som era de uma qualidade incomparável, infinitamente superior ao que eles produziam um ano antes. Andreas sentia-se orgulhoso. Ele construíra aquilo. Ele construíra uma banda de verdade.

Quando terminaram de tocar, todos olharam para Andreas, esperando que ele dissesse algo.

– Isso não é uma boa música. – Pausou. – É uma ótima música.

Todos suspiraram, evidentemente, aliviados.

Andreas achava incrível como eles o encaravam. Eles realmente acreditavam e levavam a sério sua opinião.

Rodrigo era o único com tendências à discordância – uma evidente herança do pai. Isto fizera com que Andreas, no passado, chegasse a ter ideias pessimistas quanto ao futuro da banda. Mas hoje já conseguia fazer prognósticos mais animadores. Ele achava que estavam próximos de realizar seu grande sonho: gravar um álbum. Tudo o que precisavam era de uma oportunidade. Os Aborrecidos tinham um som de qualidade e letras melancólicas que poderiam atrair uma legião de fãs por todo o país. Se tivessem a oportunidade de mostrar sua música, era praticamente impossível uma gravadora não se interessar em lançá-los. A partir daí, as coisas seguiriam um rumo quase natural. Percorreriam o Brasil com shows memoráveis. Suas músicas estariam nas rádios e na boca dos jovens. Quando Andreas mergulhava em suas fantasias, podia se ver em um palco e, diante dele, um mar de fãs. Um leve aceno para a multidão levaria esta a loucura.

Quando Andreas saía destas fantasias e voltava a realidade, dizia para si mesmo:

– Você vai longe, coelho!

Aquiles aproximou-se dele e, em tom confidencial, disse:

– Eu mandei uma poesia para ela.

– Ela, quem?

– A Veraline, imbecil!

– Sério? – perguntou, Andreas, surpreso. Achava que aquela obsessão estava nos estágios finais ou já tinha acabado. – Quando?

– Coloquei na caixa de correspondência dela, domingo passado.

– E então?

– E então nada.

– Ela não chegou falar nada?

– Não. – Ele deu com os ombros.

Andreas riu.

– Que tipo de poesia foi?

– Foi sincera. Escrevi o que estava sentindo. Acho que chegou perto de umas 200 páginas.

– 200 pá…? Você escreveu um livro, então!?

– Só escrevi o que estava sentindo.

– E se ela não disser nada? O que vai fazer?

– Nada.

Andreas voltou a rir. Aquiles realmente tinha vocação para se torturar. Este era o tipo de coisa que ele não conseguia entender. A capacidade do ser humano de entregar sua vida a alguém que nem sabe se você está vivo ou morto era deprimente.

Aquiles resmungou alguma coisa, descontente, e disse:

– Ligue logo sua guitarra, Andreas. Vamos fazer algum barulho.

– Primeiro, tenho boas novas – disse Andreas, em voz alta, chamando a atenção de todos. Ele olhou para o rosto de cada um. O impaciente Aquiles; o impetuoso Rodrigo; o deslocado Rogério; o sonso Eduardo; e o distante Fábio Dellano. – Vocês têm trabalho duro durante todos estes meses. Não queremos ser apenas uma banda, queremos ser os melhores. Por isso estivemos enclausurados durante todos esses meses no estúdio. Mas toda a dedicação tem valido a pena. E agora, o tempo da clausura acabou.

Todos se entreolharam.

– Fala logo, cara.

– Conversei com o diretor e o coordenador sobre o baile de fim de ano. Eles estão dispostos a dar cartão vermelho para Bonos e Buenos se gostarem do nosso som. Eles querem ouvir a gente tocar. – Os 5 começaram a falar ao mesmo tempo, extasiados com a boa notícia. Embora ele não gostasse da ideia de tocar música de outras bandas, precisaria abrir uma exceção. – Isto significa que vamos precisar trabalhar alguns covers. E vamos começar hoje mesmo.

Embora sem tocar uma única música própria, o ensaio daquela noite dos Aborrecidos foi o mais animado de todos.

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Ao final do ensaio, Andreas guardou seu instrumento. Os demais membros da banda conversavam animadamente sobre outros assuntos. Mas, Andreas não participava. Aliás, ele nunca participava de conversas que não dissessem respeito à música. Era apenas um antissocial. Quando abriu a porta do estúdio para ir embora, deparou-se com uma menina parada junto à porta. Era uma garotinha de uns dez anos de idade, no máximo. Ela assustou-se, como se tivesse sido flagrada.

– Oi – disse, ela.

– Oi.

– Eu estava ouvindo vocês.

– Ah, é?

– Aham. É muito bom.

– E você, quem é?

Ela esboçou um sorriso e estendeu a mão, como gente grande.

– Suzana. Filha do Davi.

– Filha do Davi? Davi Mateus?

– Aham. Eu sempre venho aqui. Gosto de música. E vocês são os melhores.

Se Suzana tivesse uns 6 ou 7 anos a mais, Andreas teria ficado arrepiado com o elogio; mas como era só uma criança, isso não fez nenhuma diferença.

– Quer dizer que você fica ouvindo nosso som atrás das portas? – Andreas sorria.

– Fico. Gosto da música de vocês. Já falei pro meu pai que vocês são os melhores que ensaiam aqui.

– Está certo, senhorita Suzana. Muito obrigado pelos elogios. Quem sabe qualquer dia desses a gente deixa você entrar no estúdio em vez de ficar ouvindo atrás das portas.

– Seria legal.

– Conversamos mais outro dia, ok?

Andreas foi para casa achando que eles já tinham conquistado a primeira fã.

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Andreas estudava no colégio Tomas Salvatori desde 1990. Nunca tivera a oportunidade de participar do famoso baile do colégio. Doce ilusão acreditar que alguma garota arriscaria sua reputação para acompanhá-lo. Por isso, nunca sequer cogitara a possibilidade de ir. Ele preferira simplesmente ignorar a existência deste evento.

Mas, agora em 1993, aos dezesseis anos de idade, Andreas esperava participar do primeiro baile de sua vida – e seria o melhor de todos. Mas ele não precisaria encontrar uma garota cega ou de péssimo gosto que aceitasse ir ao baile com ele. Não, ele entraria ali de braços dados com sua guitarra, sua melhor companhia.

Para isso, no entanto, Os Aborrecidos precisariam impressionar a seleta plateia administrativa do colégio, na noite de hoje. Ele não tinha dúvidas de que a banda tinha qualidades de sobra para isso. O que preocupava Andreas era que um bando de professores, que provavelmente não entendia nada de música, decidiria se eles eram ou não capazes. E isso lhe parecia injusto e cruel.

Assim, conforme o combinado, ali estavam os 6 homens no palco do pátio, agora vazio, do colégio. Eles passavam o som nos últimos momentos antes da apresentação. Tensão pulsando suas veias na eterna espera.

Quando terminaram os últimos detalhes, Andreas ficou olhando toda a extensão do pátio do colégio.

Aquiles perguntou:

– Consegue imaginar como estará isto aqui daqui alguns meses?

– Cheio de futuros compradores dos nossos álbuns.

– Isso se passarmos no teste, hoje.

– Quero acreditar que não há motivos para não sermos aprovados. Só um bando de idiotas irrecuperáveis não aprovaria o nosso som.

– É disto que tenho medo.

No piso superior, apareceram sete pessoas. Heitor, o diretor, o coordenador, além de 4 professores. Um dos professores era músico, o que talvez explicasse sua presença ali.

Eles fitavam os seis jovens. Andreas, mais uma vez, sendo examinado. Até quando as pessoas teriam essa maldita mania de examiná-lo.

O diretor anunciou.

– Estamos esperando, meus jovens. Toquem.

Andreas olhou para trás e observou a expressão no rosto de cada um dos músicos. Todos estavam apreensivos. O próprio Andreas estava apreensivo.

– Só precisamos fazer o que sabemos. Nada mais do que isso. Nada mais. – Depois virou-se e falou no microfone: – Senhor diretor, coordenador e professores. Somos Os Aborrecidos. A formação atual tem pouco mais do que um ano. Esta será nossa primeira apresentação com a nova formação. Temos trabalhado muito nestes meses para termos um som de qualidade. E é isto o que prometemos a vocês. Se quiserem qualidade, ouça o que temos a lhes dizer.

O baterista Fábio bateu as baquetas uma contra e outra, gritando:

– Um, dois, um, dois, três, vai…

Rodrigo introduziu o tom psicodélico com seus teclados soando um si menor com sétima na abertura de Confortably Numb do Pink Floyd. As guitarras entraram num grotesco ambiente surreal que poderia levar a um estado de letargia consciente. Andreas sentia a melodia correr pela sua corrente sanguínea e percebia que a banda estava realmente entrosada sem permitir que a tensão a dominasse.

A música tratava de um diálogo entre um conselheiro e um drogado. No cover dos Aborrecidos, Andreas interpretava os dois personagens, com uma voz grave e profunda para o conselheiro e uma voz suave para o jovem entorpecido. A mudança de seu timbre era algo que surpreendia os ouvintes. Ele tinha um incrível controle sobre a voz.

Andreas percebia que sua interpretação era sublime, mas ele não via a reação dos outros, pois cantava de olhos fechados. Durante a canção, quase nem se lembrou de que estavam sendo avaliados. Ele permitiu-se mergulhar em outra dimensão, uma dimensão que só a música era capaz de criar. E assim, ele esquecia do universo a sua volta, deixando-se elevar para um estado de supremacia emocional.

O final de Confortably Numb era famoso por conter o melhor solo de guitarra do Pink Floyd. Andreas entregou-se ainda mais neste momento, dando o seu melhor.

Quando a canção terminou Andreas ainda permaneceu de olhos fechados por alguns instantes. Quando abriu os olhos, olhou para o piso superior e não viu ninguém. Sentiu uma triste premonição.

– Onde estão todos? – perguntou, temendo a resposta.

– Eles saíram no final da música, durante o solo.

– Mas por quê?

– Teremos que esperar para saber.

Pela primeira vez na vida de Andreas, dois minutos demoraram dois séculos para passar. O tempo não corria, se arrastava. Até que finalmente Heitor surgiu no piso superior.

– Podem guardar os instrumentos no furgão – disse, ele. Todos os seis jovens se entreolharam, surpresos e ao mesmo tempo, desanimados. Não tiveram nem chance de tocar uma música própria, conforme o combinado. Heitor abriu um sorriso e concluiu: – Estamos contratados.

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