O primeiro raio de sol causou-lhe uma ligeira mutação

1993

  • James “Munky” Shafer convida Jonathan Davis para fazer um teste como vocalista em sua banda. Ele é aprovado. Surge uma dúvida: que nome darão para a banda? Jonathan sugere: “Que tal Korn?”;
  • The Love of Hopeless Causes chega ao mercado. Este álbum marca a entrada do New Model Army na Sony Music. O disco traz na capa uma espiral de cores negra, vermelha, amarela e branca representando o grande círculo do mundo – as estações, a vida das pessoas, o caos e também os exemplos da história;
  • O terceiro festival de Lolapalloza, realizado na Filadélfia, é a grande mola propulsora da carreira do Rage Against The Machine. Para protestar contra o PMRC (Parents Music Resource Center), uma organização americana de censura, os quatro integrantes passam 25 minutos sem cantar ou tocar nada, com uma fita adesiva na boca e as iniciais P-M-R-C riscadas no peito;
  • Os Engenheiros do Hawaii lança o semi-acústico Filmes de Guerra, Canções de Amor. Os arranjos orquestrados por Wagner Tizo para as músicas dos Engenheiros conseguem emocionar até quem nunca gostou da banda;
  • The Breeders, que tem como integrante Kim Deal (ex-Pixies) lança Last Splash, um disco bem elaborado e profundo que dá fortes evidências do amadurecimento da banda.

Sentir-se vivo não era uma boa definição. Estava longe de estar vivo. Mas ao menos se sentia útil, fazendo algo que, finalmente, poderia libertá-lo do segundo lugar e levá-lo ao topo. O topo – onde os campeões imperam.

As últimas semanas estavam sendo corridas demais para Aquiles. Ele cursava o primeiro ano do colegial. Embora não fosse mais um repetente tradicional, estava com 18 anos enquanto os colegas da mesma turma estavam, na maioria, com 15. De qualquer forma, a discrepância entre as idades chamava a atenção e gerava zombarias. Em outras palavras, mais do mesmo.

Este ano, porém, Aquiles não estava indo muito bem com os estudos. E a culpa era de Andreas. Ultimamente, ele estava exigindo uma performance cada vez melhor dos Aborrecidos e, para atingir o chamado “nível de perfeição”, era preciso muito ensaio.

Quando entraram na banda, os ensaios ocorriam apenas uma vez por semana, durante 2 horas. Mas assim que assumira a liderança da banda, Andreas ditara a ordem:

– Se acham que vamos chegar a algum lugar com apenas 2 horas de ensaio, estão enganados.

E foi então determinado o que Andreas passou a chamar de “calendário semanal dos Aborrecidos”: ensaios às segundas, quartas e sextas. Duas horas por dia. Não durou muito, é verdade. Menos de um mês depois, Andreas dissera:

– Não estamos progredindo.

E acrescentou o dia de sábado ao calendário. No sábado, eles ensaiavam durante quatro horas – um exagero, na opinião da maioria. Todos se perguntavam quando ele anunciaria mais um dia para o calendário. Era um obcecado com a perfeição, e já assumia ares de ditador dentro da banda. Humberto Gessinger havia dito uma vez: “Ganhar de alguém me parecia bobagem. O que eu queria era ganhar de mim mesmo”. No caso de Andreas, ele queria ganhar de todos e de si próprio.

O pagamento de aluguel do estúdio não era problema. O pai de Rodrigo, Heitor, era um advogado rico que fazia questão de bancar os projetos da banda. Aquiles achava uma sorte grande ter um integrante na banda com um pai tão rico e caridoso. No entanto, o velho se achava no direito de dar palpites. Por exemplo, o nome da banda ainda não fora mudado porque Heitor não permitira. Disse que o nome expressava muito bem a geração de jovens aborrecidos. Ele dissera a Andreas, que discutia a possibilidade da mudança:

– Uma geração aborrecida vai se interessar por uma banda chamada Os Aborrecidos.

Na discussão, como era de se esperar, o dinheiro fora superior ao ideal de Andreas. Eles ainda eram os ridículos Aborrecidos.

Mas nas áreas onde conseguia ter autoridade, Andreas não perdia tempo em determinar regras. Durante as horas de ensaio, ele proibira covers. Ele não queria apenas progresso musical. Ele exigia evolução criativa.

Mas, a despeito de alguns protestos isolados, a maioria não o questionava. Na verdade, pareciam venerá-lo. Somente o desconfiado Rodrigo criava algum caso de vez em quando, mas nada tão problemático. Em suma, o cara tinha talento não só para compor, mas para ser um líder. Incrível como uma pessoa pode mudar quando reside no ambiente certo para o seu desenvolvimento. O tímido e absurdamente calado Andreas era outra pessoa entre aquelas 4 paredes do estúdio. Relembrando o que acontecera 3 anos antes, no dia em que Andreas declarara perante a turma que queria ser um roqueiro, Aquiles hoje era obrigado a concluir que ele parecia ter as características necessárias para isso.

A banda estava indo bem. Embora não tivesse um bom ouvido, ele se baseava pelo que Andreas comentava. E o amigo dizia que a musicalidade deles estava praticamente integrada. Algo pouco comum nos Aborrecidos era o fato de terem 3 guitarristas: Aquiles, Andreas e Rogério. Na verdade, aquilo era bastante desnecessário. Andreas chegou comentar com Aquiles que Rogério estava sobrando, e que preferia que o japa caísse fora da banda. Mas, felizmente, o “ditador” limitou-se a essa sugestão em off, não chegando a expor a ideia para os demais integrantes. Afinal, graças a Rogério, eles faziam parte de uma banda.

Os Aborrecidos ainda não haviam tocado ao vivo. Andreas dizia que a banda estava em um processo de crescimento embrionário. Não haviam se desenvolvido o suficiente para uma apresentação ao vivo. Atualmente, viviam um momento de isolamento. No entanto, Andreas anunciara que, em breve, eles estariam prontos para finalmente debutar. Até que este dia chegasse, a sua ordem prevalecia:

– Por enquanto, não tocaremos para ninguém. Nem para nossos pais. Entenderam?

– Sim – respondiam todos, em uníssono.

Era lógico que isso não incluía o pai de Rodrigo. Heitor eventualmente aparecia no estúdio para dar uma conferida.

– Como estão indo? – dizia, interrompendo o ensaio.

Andreas resmungava alguns sons ininteligíveis. Dava para perceber sua irritação diante da presença autoritária do velho patrocinador. Às vezes, os dois trocavam pequenas ferroadas entre si, potencializando o clima de antipatia. Dava para ver que um não gostava do outro, embora ainda não haviam declarado isso, verbalmente.

Mas, hoje era domingo. Não tinham aula, nem ensaio, nem discussões entre Andreas e Heitor. Por isso, Aquiles subiu no telhado de sua casa, como costumava fazer para ter um pouco de privacidade e refletir em sua vida.

Atualmente, estava com uma suave e bem-vinda sensação de direção. Mas ainda não se sentia vivo. E se a vida não pulsava em suas veias elétricas era porque, por incrível que parecesse, ele ainda amava Veraline. Até meses atrás, estava totalmente convicto de que não mais a queria, especialmente depois de ter sido agredido por ela. Mas agora, observando-a dia após dia, às vezes surpreendendo-a às lágrimas, ele começara a entender as razões de Veraline. Não devia ter sido fácil para ela ver seu grande amor traindo-a, covardemente. Ela ficara fora de si. Perdida em meio a tumultuosos e conflitantes sentimentos com os quais ela ainda não sabia como lidar. E como a princípio não tivera uma boa impressão de Aquiles, acabara descontando em cima dele toda sua frustração. Aquiles conhecia a dor de ser desprezado, e sabia o que se passava no íntimo de Veraline.

Era por isso que Aquiles a perdoara. E estaria disposto a dar uma segunda chance a ela se, um dia, Veraline quisesse que ele fosse seu protetor.

Eles estudavam na mesma turma. Com isso, ele a via praticamente todos os dias. Tão perto, tão longe. Parecia que a cada dia passado, ela parecia mais sublime, mais bela. Mesmo o sofrimento de ver Marcos namorando firme com Francielly não tirava de seu rosto a pureza angelical de uma princesa. Ele precisava dar uma chance para Veraline. E se houvesse uma esperança para eles ficarem juntos? E se ela amadurecesse logo e percebesse o valor do verdadeiro amor? Tais pensamentos acalentavam sua alma.

Aquiles estava sentado no telhado esperando o sol de domingo, nascer. Eram apenas seis horas da manhã. Ao seu lado, havia uma pilha de papéis sulfite e duas canetas. Ainda estava um pouco escuro, mas ele conseguia enxergar as coisas a sua volta valendo-se da luz opaca de um poste de iluminação. Ele pegou a primeira folha em branco e uma caneta, e escreveu em letras garrafais:

O VAZIO DA JUVENTUDE

Uma obra do

Sr. Angústia

Colocou a folha de lado e apanhou mais uma. Começando no topo da página, passou a escrever:

Eis a história de angústia e sofrimento,

Amor e pureza, ao mesmo tempo

A história de corações imutáveis

Como estátuas erigidas aos louváveis

A história dum jovem que gostaria de ser belo

Este jovem sou eu e tudo o que anelo.

Ele ia escrevendo e escrevendo. Os versos ganhavam vida em poucos segundos. As palavras lhe surgiam sem o menor esforço e, em apenas dois minutos, ele já enchera uma folha de sulfite. Literatura tectônica.

Apanhou a segunda e continuou escrevendo. Relatava tudo aquilo que envolvia seus sentimentos por Veraline. Toda esperança, toda dor, todas as crises. Seu universo petrificado de solidão e desespero era convertido em palavras fixadas, metricamente, no papel. O papel não lhe impedia de se soltar, de mostrar o que havia em seu íntimo. O papel aceitava sua morbidez, sem interrompê-lo. E ele se sentia a vontade para deixar-se conhecer através de suas letras.

Quando me encontro extasiado ao teu lado

Deixo-me guiar pelo meu coração, já petrificado

Faço com que a morbidez dê uma volta

Enquanto tua serenidade faz-se minha escolta

E antes que o metal lateje em minha cabeça

Te quero tão perto que não me esqueça.

Ele não era um anormal. Acreditava no amor. Acreditava na pureza de Veraline e queria protegê-la dos insanos. Ele era como Salomon van der Merwe, personagem de Sydney Sheldon, que dizia para sua filha: “Todos os homens têm um pacto com o demônio, Margaret. Não vou permitir que eles corrompam sua inocência”.

Faça-me o silêncio ser mais mortal

Deixem-me as estrelas ser mais irreal

Façam-me todos estar mais distante

De tudo aquilo que é inoperante

Mas antes que a morte me examine

Quero sentir teu cheiro repousante, Veraline.

Não permita que corrompam sua inocência, Veraline.

O sol já nascera havia muito tempo. Estava bem alto, o calor já acariciando sua pele. Calculou que devia ser dez horas, aproximadamente. Mas o tempo passara sem que ele percebesse. Escorrera por entre seus dedos ocupados com o Vazio da Juventude. Imergira profundamente em uma dimensão onde o tempo e o espaço não existiam; somente pesadelos. Sombras que rugiam em sua mente. O medo do amanhã. A sensação de estar amarrado em um ambiente frio, úmido e escuro.

O medo, Senhor Angústia. O medo.

Agora, ao seu lado, já havia uma pilha de papel sulfite palpitando sua agonia, agonizando um coração que parecia querer parar de bater. Inspire, expire. Inspire, expire.

Deixe-me salvá-la do inferno que lhe rodeia

E da sepultura que me norteia

Sua mãe gritou que ele devia descer para almoçar. Mas Aquiles simplesmente continuou escrevendo. Era um ritmo novo, algo que ele nunca experimentara antes. Suas mãos doíam e a cada instante ele perdia a flexibilidade nos dedos. A pressão da caneta nos dedos provocou, primeiro um vermelhão, depois um calombo e, por fim, uma ferida. Mas as palavras se recusavam a ter seu fluxo interrompido e ele sabia que não lhe era permitido interferir na exposição dos seus pensamentos.

Quando a mãe dele gritou, novamente, exigindo que ele descesse e fosse comer, Aquiles percebeu o quanto o tempo passara. Ela disse que já eram três horas da tarde.

Aquiles observou atentamente a pilha de papéis com suas mais densas poesias. Em um relance, imaginou umas 180 folhas. Um dedo que sangrava, discretamente. Um vermelho de intensa poesia aflorando calmamente. E 180 folhas lapidando sua transmutação.

Ele desceu do telhado e colocou, de forma ordenada, as folhas dentro de um grande envelope pardo. Com o envelope lacrado, Aquiles saiu de casa, dizendo para sua mãe que voltaria em apenas 5 minutos, apesar dela insistir que ele acabaria desmaiando pela rua, se não comesse algo. Ele achava que desmaiaria se interrompesse o ciclo que suas ações estavam tomando naquele exato momento.

Ciclo de sobrevivência contínua e desesperada.

Quando deu por si estava parado na porta da casa de Veraline.

Em uma mão trazia o envelope recheado de melancolia e na outra, uma caneta. Entregaria o envelope, pessoalmente? Teria coragem de fazer isso, mesmo com aquela cicatriz no pescoço, que somente ele era capaz de enxergar? Deveria colocar o envelope dentro da caixa de correspondência?

Ou seria melhor queimar tudo aquilo?

Ele tomou uma decisão. No remetente, com evidente dificuldade – o dedo ferido – escreveu: Sr. Angústia (Aquiles Lucká). No destinatário escreveu, simplesmente: Vera.

E colocou o envelope na caixa de correspondência.

Nenhum fogo se inicia espontaneamente. Todo incêndio precisa de uma ajudinha.

Ir Para CAPÍTULO 11

 

borda

Receba Novidades

Insira seu e-mail para ser notificado sobre novas postagens da Literatura Corrosiva!

Seu e-mail (obrigatório)