Porcaria!

Exatamente isso. Se eu precisasse definir minha vida em apenas uma palavra, eu diria: Porcaria! Mas na verdade, uma palavra é pouco. Para dimensionar o tamanho da fetidez que é meu existir, eu precisaria de páginas e mais páginas. Somente assim seria capaz de depositar cada centelha excrementícia do meu inspirar e expirar para as gerações posteriores. Sim, se escrevesse minha biografia, as páginas federiam. Até imagino um subtítulo bem apropriado: “Viveu a Morte, Morreu em Vida”.

Se bem que, se eu fosse escrever minha biografia, talvez ficasse na dúvida. Ao escrever sobre minha vida desprezível, me deteria somente nos momentos ruins? Ou pincelaria a história com alguns momentos agradáveis – e bastante raros – que vivenciei?

Acho que seria uma boa ideia. Afinal, não gostaria de ser um novo Goethe e seu Jovem Werther, influenciando as massas a dar cabo da própria vida.

Quem sabe, com um significativo esforço de memória, eu consiga preencher pelo menos um terço do livro com peripécias positivas, que confiram bom humor e possam alegrar alguns instantes da vida dos meus leitores.

E sabe que essa coisa de fazer os outros felizes, deixá-los contentes, é uma experiência que pode ser bastante interessante? Pense nisso: você coloca sua cabeça no travesseiro a noite, e imagina que pessoas nos quatro cantos do país (quem sabe até em outros países) se sentiram inspiradas graças às suas experiências. Deve ser um sentimento de maestria incomensurável! E olha que tenho vivências capazes de inspirar muita gente. É verdade: tive momentos ruins, névoas mórbidas ao longo do caminho, mas não foram tantas assim. Acho que se fosse escrever minha biografia, ela ficaria metade deprê e metade divertida.

Escrever a própria história é uma ideia interessante. Permite-nos reavaliar trechos de nossa vida sob uma nova ótica. Ao relembrar fatos e detalhes, nossa atenção se volta não apenas para os momentos principais, mas também para o contexto. E isto é aprendizado.

Relembrar o passado sob a ótica de alguém experiente permitirá enxergar o lado bom de tudo, inclusive das frações sombrias, e de todas as nossas ações e reações que um dia julgamos anencefálicas.

Irrrraaaa!

Estou muito animado com essa ideia. É exatamente por isso que minha biografia estaria repleta de momentos engraçados, intensos e estimulantes. Dos momentos ruins (muito raros, por sinal) eu extrairia lições de vida que serviria de Sol para meus leitores. E muito provavelmente quando eles próprios escrevessem suas histórias de vida vitoriosas, reservariam uma página inteira para falar da inspiração que lhes insuflei.

Acho até que um subtítulo justo seria: “Como Obriguei o Fracasso a Se Curvar Ante Mim”.

Se bem que, os momentos ruins, embora poucos, foram bastante tenebrosos. De fé, estou sendo sincero. Daria pra desanimar qualquer infeliz. É verdade que a biografia teria momentos engraçados, mas isso só porque minha vida foi uma piada. De mal gosto, diga-se de passagem.

Pra ver lado positivo nas coisas que atravessei é preciso um pouco de miopia e distúrbio mental. O mundo está cheio de idiotas que adoram se enganar com autoajuda barata e frases de efeito.

E olhando por essa ótica, acho que um subtítulo realista para minha biografia seria: “Viveu a Morte, Morreu em Vida”.

Porcaria!