Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

EU NÃO SOU EU

Certo dia, ao acordar, descobriu-se outra pessoa.

Primeiramente, estranhou o aroma que impregnava o ar. Era um cheiro de novo, esmero, limpeza. Percebeu um odor suave, talvez doce, amadeirado. Perfume, certamente. De quem seria? Dele, não mesmo. Tinha alergia a essas frescuras. O lençol cheirava a lavanda… mas ele não havia vomitado meio litro de álcool e porçõezinhas, antes de cair desacordado? Lembrava-se muito bem. Uma roda de amigos, noite passada. Barzinho da esquina. Só ele: 10 latinhas de cerveja, duas caipirinhas, um vermute, porção de salame, de presunto, de camarão e de calabresa. Depois só alguns flashes. Dois tombos na rua. Uma queda na escada ao subir para o apartamento. A testa sangrando. Vomitando tudo na cama. Deitando em cima e… nada mais.

Olhou ao redor. Estava em casa. Os mesmos móveis. Tudo no seu devido lugar. Mas não exatamente tudo. As latas de cerveja que decoravam o chão haviam desaparecido. Nenhuma bituca de cigarro sobre a cama. Nenhum escarro esverdeado ressequido sobre a parede, agora branca, mas outrora, quase toda esverdeada. A mesa estava limpa. As cortinas estavam limpas. Ele estava limpo.

Deu um salto da cama e ficou de pé. Ereto, como um ginasta. Habilidade? Equilíbrio? Estranho. Nessas horas, costumava tropeçar, catar cavaco pelo quarto apertado, bater a cabeça na porta e xingar todas as almas. Aquela disposição, aquela limpeza, começou a lhe preocupar pra burro.

Correu para o banheiro – sem tropeçar, sem cair. Que estranho! Ao olhar no espelho (que não estava coberto de manchas brancas) viu outro rosto. Não era ele. Na verdade, até era ele. Mas não era. Este tinha cabelos. Mas não havia raspado a cabeça na semana anterior por causa das pulgas e piolhos? Havia raspado as sobrancelhas também (achava bonito ser grotesco). Mas agora elas estavam ali, caramelo escuro, cuidadosamente assentadas acima dos olhos estupefatos que não acreditavam no que viam. Não havia o familiar olhar lânguido, a boca entreaberta, nem restos de salame e queijo pútrido grudados em seu queixo, após a última regurgitada antes de desmaiar. Enfim, o inferno, era uma outra pessoa.

Sonho, sonho, pensou. Deve ser um maldito sonho. Mas não era. As sensações estavam ali, em todos os detalhes. Cerrou os olhos. Socou a parede. Gritou de dor. Abriu os malditos olhos. E lá ainda estava a figura confiante no espelho do banheiro.

Eu Não Sou Eu

Melhor tomar algo pra dar partida no cérebro. 200 ml de vodka resolveriam, pensou, modesto. Mas não encontrou o divino elixir. Nem na mesa, nem na geladeira, nem em qualquer outro canto. Muito menos cerveja, vinho, aguardente, ou qualquer porcaria que tivesse estampado no rótulo seu grau alcoólico. Ao contrário, só encontrou uma nojeira de dar nó no estômago: sucos e sanduíches naturais. Pegou uma destas garrafas plásticas, na geladeira. No rótulo, lia-se: melancia com uva e hortelã. Se estivesse pensando em parar na UTI, dois goles bastariam.

Correu pra gaveta. Um cigarro, por favor. Precisava de um cigarro. Mas só havia chicletes sem açúcar e barras de cereal. Sobre o armário, flocos de aveia e soja. Sobre a geladeira, uma bandeja com banana e laranja. Começou a se sentir tonto. Ia desmaiar. Normal. Costumava desmaiar de bêbado todos os dias. Chegou a girar os olhos simulando um desmaio, bambeou propositadamente as pernas, mas… não desmaiou. Bem que tentou, é verdade. Mas não conseguiu. Pelo contrário, nunca se sentira tão bem. Tão disposto e jovial. E isso estava lhe deixando muito mal.

Voltou para o espelho, e o sr. Saúde ainda estava lá, cada vez mais corado. No desespero, começou a chorar. A bem dizer, apenas tentou. Não saíram lágrimas. Fez todo o esboço, a cena típica: sentou-se na cama, curvou-se sobre as mãos espalmadas, deu um retundo: aaaaaaaaaaaahhh, mas não chorou. E como haveria de chorar? Não havia deficiências emocionais nele. Sentia-se forte, confiante, corajoso. E esta porcaria estava deixando ele tremendo de medo.

Tentou lutar contra aquilo. Acordar, voltar ao seu mundo. Sentir o cheiro azedo no ar, a cama úmida, a cueca pesada e a certeza de que precisava usar fraldas. Este era o seu mundo. Seu lar. Um lugar onde era rei.

E de repente, o pior aconteceu.

Foi invadido por um desejo gigantesco. Uma força propulsora rompendo seu interior. Uma ânsia guiando seu corpo numa só direção. Ele gritava “não, por favor, não”, mas o desejo era de uma intensidade trovejante, dominando-lhe os músculos, escravizando seus ossos. Ainda que lutasse, não resistiu.

O corpo foi sendo arrastado pelo desejo em direção a cozinha. Abriu a geladeira, contemplou a garrafa e salivou de desejo.

– Por Deus, nããããããããããããooooo!! – gritou, antes de entornar a garrafa, e tomar o suco de melancia com uva e hortelã num gole só.

 

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2 Comments

  1. Zelio Valencio

    16 outubro, 2013 at 13:19

    Perfeito! “Não era ele. Na verdade, até era. Mas não era”. Define o indefinido; ou indefine o que poderia definir-se.

  2. gostei muito

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