Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Camila Helena IV

Confira as primeiras partes:

Sonambulismo ou insônia. Nos dois casos, nunca dormindo, e nunca acordado. Vivo assim, um estado latente. Impactado por flashes à minha volta. Às vezes, coisas reais. Outras vezes, apenas memórias. Suponho que entre uma ou outra, algum tênue delírio. A pior parte é nunca saber quando é uma e quando é outra.

Por exemplo, agora acabo de ver um coelho correndo pelo meio daquele salão fétido onde estou com Camila Helena. Bêbados e seus cigarros. A garota de olhos hipnotizantes tomando uma coca. E um coelho correndo em disparada. E vem a dúvida: será que foi real? Uma lembrança? Ou será que minha mente está pregando outra peça? Dane-se.

Costumo dizer que a verdade é assustadora demais (na verdade, nunca digo isso; mas gosto desse lance de falar “costumo dizer”. Soa intelectual). Enfim, a verdade é tão assustadora que às vezes precisamos criar nossas próprias fantasias para seguir em frente. Isso é mais comum do que você possa imaginar. O mundo tá cheio de idiotas que vivem uma realidade paralela, onde eles são o que escolhem ser. Eu me amo, eu sou o cara, sua fama faz a minha inveja. Toda essa baboseira de dar diarreia em qualquer miserável. Mas, eu não sou diferente. Pelo menos, tento não ser. A parte ruim é que não sou muito bom com fantasias. Quando criança, eu me dava melhor com essas coisas. Inventava uma “realidade” e pronto. Esquecia o mundo e seus efeitos colaterais. Mas agora, com essa calvície saltando aos olhos da humanidade, os dentes se despedaçando, e alguns cabelos brancos… já não sou mais o mesmo. Quer dizer, o que você esperaria de um poeta fracassado, solitário, com 32 anos de idade, que não tem dinheiro nem para pagar o aluguel? Não responda!

Conto on-line Camila HelenaEntão, onde eu estava? Que droga, os olhos de Camila entorpecem qualquer idiota. Ela fica me olhando com aqueles olhos hipnotizadores e só não babo porque seria demasiado clichê. E odeio clichês.

Vou tentar retomar. Como não sou muito bom com fantasias, na maioria das vezes, prefiro simplesmente apagar algumas lembranças e colocar uma privada no lugar, para combinar com minha vida. Alguns chamariam isso de covardia. Um psicólogo inventaria um trauma qualquer para justificar o que ele me extorque, e garantir que eu voltasse nas próximas sessões. Mas no fim das contas, parceiro, acho que isto é pura falta de criatividade. Mas fazer o quê? Um dia, você se acostuma.

Quando Camila Helena quis saber minha história, comecei pela parte mais leve: meu apelido de criança era Sr. Aranha porque eu comia moscas e aranhas. Mas então resolvi contar a parte mais traumática. Sobre o incêndio no colégio Oliveto Sixpence. Sabe quando você abre a boca e depois se arrepende? Sim, eu sei que você sabe. Se colocasse um freio nessa sua língua, evitaria problemas como o meu. Mas agora que comecei, não tenho como voltar atrás.

Ah, o incêndio. Quando falo em apagar lembranças, me refiro a isso, saca? Não estão apagadas, na verdade. Se eu soubesse como apagar minha memória, apagaria uns 30 anos da minha existência. Então prefiro meter o pé em minhas lembranças. Despedaçá-las. Mas, os restos ficam ali, entende? No meu rastro, você vai encontrar fragmentos de hipocampo e córtex entorrinal. Quando preciso, saio recolhendo e recompondo os pedaços. O problema é que leva tempo. Aí fico que nem um idiota gaguejando, e resmungando um “eeehhh” de dar agonia.

Mas fazer o quê? Eu preciso segurar essa garota aqui. Ela quer ouvir minha história. Então, depois de cinquenta horas gaguejando, de lembrança traumática em lembrança traumática, eu consigo recompor (quase) tudo e conto os detalhes pra ela. Na verdade, nem tantos detalhes porque não me apego a este tipo de coisa. Mas falo o suficiente para ela se esquecer que precisa ir pra casa, tomar banho, se preparar para trabalhar, e todo esse papo furado de mulher que quer se livrar de imbecis desinteressantes.

Por onde começo? Droga, vou começar por aqui:

– Bom, quando se conhece um garoto como eu, tudo o que acontece de ruim é culpa dele. E foi por isso. Só isso, saca?

Ela fez uma cara de “Quê? Como assim?” tipo a que você fez agora. Não sou um bom contador de histórias. Aí preciso dar uma pincelada no panorama geral e relembrar outros fatos. Daí eu volto, e começo a acrescentar alguns detalhes que consigo me lembrar.

– Quando me botaram pra correr do Oliveto, eu dei graças a Deus. Nunca gostei de estudar, e muito menos naquele buraco. Aquele lugar fedia, essa é a verdade. Alguns dias depois, avisaram que eu precisa devolver o uniforme da escola. Que droga! Devolver o uniforme? Só faltava essa. Eu tinha até me limpado com ele. Bom, resolvi devolver assim mesmo, todo borrado.

– Que nojo!

As pessoas costumam pensar isso quando olham meus dentes enquanto sorrio. Mas não foi o caso.

– Mas quando cheguei no colégio, achei que era pouco. Fiquei pensando: qual é? Nem se pode comer moscas em paz? Isso é motivo pra expulsar o moleque? Eles não iam com minha cara, só isso. Então, achei que meu protesto precisava ser mais agressivo. Aí, resolvi tacar fogo naquela porcaria.

– Na escola?

– Não, cara. No uniforme.

– Ah.

– No final das contas, acho que estava fazendo um favor pra eles. Mas sei lá. Aquela porcaria pegou fogo rápido demais. Foi muito rápido. Em um segundo, aquela coisa pegou fogo inteira, queimei minha mão e joguei o uniforme para longe.

– E daí?

– Bom, daí eu saí correndo.

– E o que aconteceu?

Camila Helena nem pisca parceiro. Que olhos, meu velho! Se você estivesse no meu lugar, desejaria morrer com essa lembrança.

– O que aconteceu? Eu sei lá o que aconteceu. Disparei dali. Corri como o inferno. Só de noite fiquei sabendo que o colégio tinha sido incendiado.

– Um uniforme causou aquele incêndio?

– Eu nem sei onde aquela porcaria caiu. Parte da estrutura era de madeira, talvez se lembre. Aí já viu.

– Cara, que insano!

– Ah, esse é o meu dom: se existe uma chance de dar errado, eu farei dar errado.

– O que aconteceu depois?

– Bom, depois me apelidaram de Sr. Aranha Incendiário.

– Sério? Mas viram você queimando o uniforme?

– E precisava? Nestas horas, a humanidade só precisa de alguém a quem culpar. E costumam escolher os estranhos. Bom, eu era o cara mais estranho do planeta.

Por favor, faça de conta que ela não pensou: “E ainda é”.

Realmente, não sei se o uniforme iniciou o incêndio. Se iniciou, foi um acidente. A porcaria de um acidente. Mas também não seria a maior coincidência da história da humanidade se um curto circuito tivesse dado início a um incêndio naquele mesmo segundo. Essas coisas não acontecem com qualquer um. Se foi eu, não foi minha intenção. Mas às vezes o universo conspira contra alguns seres com feição abobada. E adivinha quem está no topo da lista?

Camila Helena suspira. Só nesta suspirada, deve ter inalado uns 50 litros da fumaça dos cigarros dos bêbados ao redor.

– Que loucura!

Não me pergunte porque, mas acho que ela parece melhor depois de ouvir parte da minha história. Vai saber. Tem gente que se anima ao ouvir história deprimente dos outros. Meio que um sentimento de empatia, de não estar sozinha no mundo, algo assim. Por um momento, fico com a sensação de que ela vai ficar bem quando chegar em casa.

Ela termina de beber a coca, e começa a se levantar.

Aí eu fico abrindo e fechando a boca, mas sem falar nada. Sabe aquele desespero que dá, quando você tenta pensar em uma frase mágica para segurar a garota mais maravilhosa do mundo na cadeira? Pois é, eu fico ali que nem um velho desdentado mastigando o vento sem emitir ruído algum.

– Obrigado pela coca, Messina. – Se ela tivesse agradecido pela minha companhia, eu infartaria, juro. – Eu tenho que me arrumar e ir trabalhar.

– Eeeehhhh – Ah, não. De novo, não. – Então… será que.. eeehhhh…?

– Quê?

– Posso… eeehhhh…?

– Pode o quê?

– Posso te acompanhar até sua casa?

Ela faz uma cara de… ah, você sabe a cara que ela fez.

– Valeu, cara. Mas melhor, não.

Tá vendo essa coisa vermelha que jorrou na sua tela? É meu sangue – resultado da facada que Camila Helena acaba de dar em meu peito.

Ela solta a faca ensanguentada na mesa, dá uma gargalhada macabra e começa ir embora. Eu fico ali, as mãos trêmulas, a ponta dos dedos passando para um lilás-defunto, enfim, um moribundo caminhando para a cova. Olho para meu peito. O sangue salta vigoroso do buraco em meu peito, e ensopa minha camisa xadrez. Meu suor está frio. Escorre pela minha testa. Tento respirar, mas não consigo. Mal me retenho, mal penso, mal sonho. E com que sonhar, afinal?

Na porta, ela para. E se volta para mim.

– Se não tiver nada para fazer, apareça na lanchonete hoje a noite. Talvez eu tenha alguns minutos para ouvir o resto da sua história.

De repente, olho para a mesa, e a faca sumiu. Levo a mão ao peito, e não há qualquer perfuração. Nenhum ferimento, nenhum sangue, nenhum suor. Apenas a mulher mais encantadora do mundo me convidando para ir até a lanchonete onde ela trabalha, logo mais.

Ela vai embora, sem sorrir – e pra que sorrir? Já me sinto o sujeitinho de dentes podres mais sortudo do mundo.

De repente, o coelho – aquele coelho – volta a cruzar o chão do pardieiro, e fica parado bem na minha frente. Ele acende um cigarro, e depois de uma baforada, me olha com um olhar psicótico-lânguido, tipo Marlon Brando em Poderoso Chefão, e diz:

– Se não provar o gosto dos lábios de Camila Helena ainda hoje, seu incompetente, eu mesmo acabo com tua vida.

Se vou conseguir fazer parte do mundo de Camila Helena, ainda não sei. Mas de uma coisa estou totalmente convencido: este coelho é real.

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1 Comment

  1. Marília Aires

    23 julho, 2014 at 17:09

    já mudando meu comentário da ultima Camila Helena para: pelo amor de Deus continue

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