Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

CAMILA HELENA III

Confira as duas primeiras partes:

Cuidado com a luz no fim do túnel – pode ser um trem vindo em sua direção.

Caminhar intenso. E tenso. Essas escaras. Ex-caras. Ex-tecidos. Esse deserto em pele sequiosa. Meu estômago revira. Vira tudo e nada. Fundo gástrico de cabeça pra baixo. É um viajar inóspito. Plágio de minha vida. O sol é o meu algoz particular. Golpeia meu corpo enquanto ouço seu gargalhar sádico. Sol psicopata, até quando me atormentarás?

Meus pés se arrastando pelo asfalto. Calcificando meu sangue. Supurando minha alma. As lembranças não significam nada. Ainda que representassem algo concreto, eu precisaria voltar milhares de quilômetros para recuperá-las do esgoto, onde as depositei anos atrás.  Achei melhor assim. Estava cansado de querer compartilhá-las com outros, e ver em seus rostos sinais conturbados, expressões de asco, prenúncio de vômito.

Crônica Camila Helena - Foto: Paul AlexanderFoi assim com Camila Helena. Já falei que ela é a mulher mais exuberante que já conheci? Odeio ser repetitivo (imagine como encaro minha vida). Eu não a definiria como linda. Apenas como perfeita. Isso pode significar um milhão de coisas. E é exatamente isso: Camila Helena significa um milhão de coisas. Num certo dia, resolvi contar um pouco de minha história para ela. Ela fez uma cara de quem havia comido algo estragado. Entende o que quero dizer? Você já comeu algo estragado? Não? Então cale a boca e escute.

Depois de nosso primeiro encontro naquela espelunca, voltamos a nos falar. Eu sempre a chamo para sair. Sempre vou na lanchonete onde ela trabalha, e varo as madrugadas tomando café. Entre uma xícara e outra, digo: “Quer sair qualquer hora para tomar alguma coisa comigo?”  De cada 10 convites, ela aceita 1. Acho que um resquício de compaixão, talvez. Sou o típico cara que, se você me encontra na rua, faz questão de me dar um osso. Mas, às vezes, acho que ela não tem dó de mim. Talvez esteja apenas pensando em se embriagar até cair, ou outra imbecilidade do tipo. E entre decorar a banheira de vermelho e sair comigo, ela preferiu a segunda opção (pessoas deprimidas gostam de se torturar, fazer o quê?).

Nesses encontros, que estavam bem longe daquilo que você define como “encontro”, ou você acha que estar em um barzinho cheio de fumantes, embriagados até mijar nas calças, olhando para seus copos e se perguntando “por que ela me deixou?” pode ser chamado de um encontro? Não responda. Enfim, onde eu estava? Eu e Helena, naquele pardieiro tomado pela fumaça dos desiludidos. Tomando uma coca, e conversando pouquíssimo. A vida dela é um marasmo só, pincelado com traumas de infância e brigas violentas com ex-namorados com sérios problemas existenciais. A minha, sabe como é, se eu contasse, ela vomitaria. Aí eu falo sobre uma banalidadezinha aqui, outra ali, dessas que ocupam minhas 24 horas diárias. Certo dia, num desses “encontros”, do meio de uma nuvem de fumaça, ela voltou a perguntar sobre meus primeiros anos:

– Você tem boas lembranças de sua infância?

Saca só minha cara de “hãããã” que devolvi pra ela. Perguntinha complicada pacas pra responder. O que dizer? Como sempre, sendo evasivo e sincero, respondi:

– Você não ia querer ouvir sobre minha infância.

Ela ficou me olhando com uma cara estranha. Achei que fosse pena. Ou vontade quebrar a garrafa de coca na minha cara. Depois, ela abaixou a cabeça, e falou:

– Você me assusta.

Adivinha se estranhei. Quando se chega na minha idade, passando pelo que passei, a gente cria uma carapaça de insensibilidade que nada nos afeta. Se ela tivesse dito: “Contratei 3 caras para arrancar suas orelhas com alicate”, eu ia responder: “Bacana”.

Mas, enfim, ela queria saber minha história. Eu não queria enchê-la com isso. Minha história é deprimente pra burro. Mas aquele silêncio tava me dando nos nervos. A atendente de lanchonete mais fenomenal que você conheceu sentada na sua frente, e você sem ter o que falar. Desiste, cara.

Tentei mudar de assunto. Chamei ela para sairmos dali e darmos uma volta. Assistirmos o pôr-do-sol, passear pelo lago. Essas coisas que te envolvem e tornam os silêncios entre duas pessoas menos torturante. Ela disse que não. Precisava ir pra casa, tomar banho e ir para a lanchonete. Ainda eram 4 horas da tarde. Ela queria se livrar de mim, só isso. Eu não queria que ela fosse embora. Dava para ver nos olhos dela que ela estava mal pacas. Eu tinha medo que ela fosse embora, e eu nunca mais a visse. Ou talvez até voltasse a vê-la, mas estampada em uma foto na página policial, sob a manchete:

“Atendente de lanchonete se mata após conversa ultra-depressiva com poeta fracassado”

Eu precisava segurá-la. Ela havia perguntado sobre minha infância. Então, resolvi arriscar:

– Quando eu era criança, os meninos da rua me chamavam de Sr. Aranha.

Ela estava para se levantar. Mas parou por um instante.

– Por quê?

– Porque eu costumava comer moscas.

– Você o quê… ?

– Eu não faço mais isso. Quero dizer, não sempre.

– Você comia moscas?

– Não inteira. Você precisa tirar as asas dela. Senão enrosca na garganta. E fica fazendo cócegas.

– Eu não acredito. Por que fazia isso? Fome?

– Ah, quase isso. Também, mas… Era mais do que isso. A questão é que nunca fui um típico cara sociável – Uau, ela deve ter ficado abismada ao saber disso! – E aí eu criei meu próprio mundo. E sabe como é, meu mundo, minhas regras.

– Sei. E no seu mundo as pessoas comem moscas?

– Não, não. Só eu.

– Que nojo!

Tarde demais, pensei! Quando se entra na lama, baby, inútil querer sair e passar-se despercebido. A porcaria estava feita. Está sentindo um mau-cheiro dos infernos no ar? É minha história, parceiro! E por aí vai.

– Isso foi antes de começar a comer aranhas.

– Cara, para, para… Que repulsivo! Você tem problemas.

Juro que tentei, mas não segurei a gargalhada. Acho que cheguei babar. Boa, essa. Eu, com problemas?! Me recompus. Pedi desculpas pela gargalhada. E continuei:

– Aí, a diretora do colégio onde eu estudava arrumou um jeito de me expulsar. As crianças tinham medo de mim. Ela também, eu acho. O sr. Aranha come moscas e aranhas, sabe como é. O cara não bate bem. Má influência para as outras crianças. Essa coisa toda. Aí me botaram pra correr.

– E o que você fez?

– Bom, nós crescemos na mesma cidade. Você deve ter ouvido falar do colégio Oliveto Sixpence.

– Oliveto Sixpence? Aquele que pegou fogo e…? – Ela me olhou com uma cara de quem ia vomitar. Até me afastei um pouco, por garantia. – Você não…? Não, não pode ser.

Ela queria ouvir minha história?

Então pegue a pipoca e se acomode, baby. Porque nem chegamos à metade da primeira cena.

continua…

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3 Comments

  1. Calma ai cara, eu preciso saber da continuação!

  2. K K K quem ta gargalhando sou eu agora !
    Tambem preciso da continuação, serio, fiquei muuito empolgada! Amei!!!

  3. Daqui de Cabo Verde, a continuação por favorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Adorei! Meus parabéns.

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