Helena tinha aquele jeito inóspito de ser. Uma espécie de outra dimensão. E eu ali, com a mesma cara imbecil, perdido entre latrinas, mais um apaixonado cambaleante pelas madrugadas suburbanas. O Tolo Messina. Só mais um carente de Helena. Mas olha, não é exatamente o que parece. E com o que realmente isto parece? Que droga, apenas ouça.

Já falei antes sobre Camila Helena. Mas enfim, ela parece se refazer a cada momento. Um novo capitulo. Novela tipicamente mexicana. Eu sou o ator gago de falas previsíveis. Que droga! Na segunda vez que vi Helena, ela parecia adornada com outros encantos. Aquela pele, queimada de sol, suave veludo. Outra mulher na mesma Helena. Outros contornos para a mesma forma. Dessa vez, fui mais direto. Um oi, como vai, e outras besteiras metódicas que fazem parte do meu vocabulário desde criança. Já contei sobre minha infância? Dane-se. Helena andava por uma daquelas ruas enfiadas no meio do nada, quando a vi, deslizando como um anjo em meio a escuridão. Disse meu oi como vai de sempre e ela esboçou um quase-sorriso, daqueles forçados que exibimos quando encontramos alguém que preferiríamos ver morto. Ela não me odiava, se quer saber a verdade. Apenas não confiava em mim. Oras, e quem confia? Convidei ela pra tomarmos alguma coisa (sempre me falta objetividade nessas horas) e ela aceitou. O mesmo sorriso desconfiado naquela boca que eu jurava pra mim mesmo, um dia provar.

Crônicas curtas sobre camila helena

Helena. Camila Helena. A garçonete dos meus sonhos. Dessa vez, estamos do mesmo lado do balcão. Peço um café (sou viciado nessa porcaria) e ela pede água. Enfim, quando a mulher não quer nada com você, ela pede água. Com gás, sem gás, o inferno. Se for água, largue uma nota em cima do balcão, diga adeus baby e vá pra casa. Mas não eu. Não largo nota nenhuma em lugar algum. Estou falando de Helena. Não se desiste de uma mulher dessas mesmo sabendo que um fora é o máximo que você vai conseguir.

Eu faço algumas perguntas sobre a família dela. Ela fala do pai alcoólatra, e da mãe que fugiu com um lunático qualquer. Foi criada pelo irmão mais velho. Típica história deprimente pra burro. Mas não chego esboçar qualquer reação. Já estou acostumado com tragédias assim. Uma frieza que assusta as pessoas. Enfim… após alguns anos, ela acaba saindo de casa. Ou fugindo. Depende de quem ouve a história. Saiu de um lar sem amor, para mergulhar num gueto sem afeto. Um quarto de hotel, e um trabalho na lanchonete e um viciado em café aos seus pés – basicamente, esta é a vida de Camila Helena. Isto talvez explique o fato dela aceitar tomar aquela água comigo. Enfim, não se tem nada a perder quando não se tem nada. Percebo isso no movimento que ela faz, a ponta do dedo na borda do copo, agora vazio. Parece hipnotizada. Mas é linda como o inferno. Disso não tenho dúvidas.

Ela me olha. Como se faltasse assunto, pergunta sobre minha vida. Falta-lhe assunto, definitivamente. Mas não quero deprimi-la. Então digo que minha vida é o que farei dela a partir de agora. Ela não se convence. Fica me olhando esperando uma resposta menos evasiva – sou bom nessa coisa de dar respostas evasivas. Tento outra: nasci há 32 anos atrás e te convidei para tomarmos alguma coisa nessa espelunca. Nesse meio tempo, não aconteceu nada interessante.

Ela se volta pro carinha atrás do balcão e pede outra água. E eu, outro café.

A agitação da vida, acredite, está só começando.

continua…

 
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