Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

EVITE QUE SUAS PERSONAGENS TENHAM A MESMA VOZ

Como dar uma identidade única a cada uma das personagens de seu livro? Textos envolventes pedem personagens bastante diferentes

Você cria duas personagens. Uma amável moça se relacionando com um rapaz neurótico. Personagens diferentes, hábitos e condutas distintas. Mas após escrever um romance, você o lê de novo, e de novo, e de novo. E então percebe algo aterrador, para seu total desespero: as personagens, apesar de completamente diferentes, estão soando exatamente iguais.

Personagens Diferentes Precisam Soar de Formas Diferentes | Foto: Krisztina FélixA vontade é bater a cabeça contra a parede. Mas no fundo, só aquele tenso lamento. Mas respire e relaxe. Este é um problema recorrente para diversos escritores. Não há nada de errado com você ou comigo. Afinal, todas as personagens que criamos são produtos de nossa imaginação (exceto se estiver escrevendo sobre alguém conhecido). A boca delas emite a nossa voz. As ações delas são consequência de nossos pensamentos. Portanto, nada anormal o fato de soarem parecidas entre si – e, no final das contas (hora do susto), soarem exatamente iguais a você.

Embora seja compreensível que elas tenham a mesma voz, você precisa fugir disso, se há de escrever um romance impactante, que realmente leve seus leitores para um mundo de fantasia onde o fôlego de cada um deles é carinhosa ou impetuosamente tomado.

Assim, a pergunta começa a ecoar: como contornar este problema, como criar personagens com uma voz única, exclusiva, sem que uma seja a cópia mal definida de outra? Precisaremos de alguns métodos. São técnicas para escrever um livro e suas personagens. Alguns são fáceis de serem colocados em prática. Outros exigirão um pouco mais de dedicação. Mas são passos necessários. Essenciais, eu diria. Afinal, como se empolgar com uma história em que a amável moça soa da mesma forma que o seu neurótico par?

Ouça Como as Pessoas Costumam Conversar

Hora de sair do casulo, parceiro. Você pode ter associado o processo criativo com o seu quarto, seu notebook e um silêncio de afagar a alma. Mas você precisa muito mais do que isso se deseja realmente criar personagens únicos e convincentes. Vá dar um passeio, um bar, uma lanchonete ou coisa que o valha. Preste atenção em como as pessoas conversam. Analise o ritmo das conversas, as formas variadas com que duas pessoas se expressam sobre o mesmo assunto.

Quando escreve um romance, você precisa esquecer um pouco seus trejeitos, sua postura, seu tom de voz. É lógico que, no produto final, eles ainda estarão lá, mas de uma forma mais sutil e charmosa. A obra é sua, mas a matéria-prima precisa vir de outras fontes.

Ouça a Voz de Suas Personagens

Você costuma fazer isso? Quando escreve, ou revisa seus textos, deixa que as vozes de suas personagens ecoem em sua mente? Se não, esta é uma das razões deles não terem uma identidade própria. Você está ouvindo a sua voz quando eles falam. Como consequência, todas elas tem um máscara com o seu rosto. Se este é o caso, hora de mudar a maneira de escrever e ler suas obras. Se realmente sente que elas são pessoas reais, respirando dentro de sua cabeça, dê a elas uma voz. Não é pedir demais. A personagem é jovem e tem uma voz irritante? Quando ela resolver abrir a boca, force-se a ouvi-la exatamente desta maneira. A voz de outro é rouca e poderosa? Então deixe a voz dele retumbar em sua cabeça. Lembre-se: não é só o que as personagens dizem que os diferem, mas também como o fazem.

Lembre-se Que Suas Personagens Interagem Entre Si

Personagens de Um Livro Interagem Entre Si | Foto: Dora Pete

Com quem suas personagens falam? Com você??? Béééé… Resposta errada. Com seus leitores??? Béééé… Resposta errada de novo.

A resposta correta é: suas personagens falam com as outras personagens. Eu e você somos apenas voyeurs acompanhando a trajetória destes ilustres. Precisamos abandonar um pouco esta mania de controle. Deixar que as personagens assumam um pouco da responsabilidade daquilo que dizem e fazem. Sua personagem viu o assassino fugindo. Eu sei, eu sei. Você quer que ela saia correndo atrás do assassino, mas me responda sinceramente: a sua personagem quer realmente fazer isso? Se não quer, não a obrigue. Se forçá-la a fazer isso, estará invariavelmente repetindo a sina que é tópico desta postagem: personagens iguais entre si, e iguais a você.

Quando escrevemos, precisamos tirar a coroa, lançar o cetro para longe. Não somos reis ou deuses. Deixe suas personagens correrem livres, e elas pararão de imitá-lo, ao mesmo tempo em que se tornarão mais convincentes e interessantes.

Confira Às Personagens Alguns Vícios de Linguagem

Vício de linguagem. Tiques verbais. Palavras habituais. O caminho é por aí. Isto permitirá pincelar uma identidade mais nítida para suas personagens. Por exemplo, uma delas pode usar repetidas vezes a palavra “realmente”. Mas os tiques verbais não precisam ser limitados às palavras. Você pode criar uma personagem e conferir a ela o hábito de usar trocadilhos, a outro a mania de utilizar sarcasmo, e assim por diante. São pequenos detalhes, mas essenciais para diferenciar a “voz” de cada um.

Qual o Comprimento das Sentenças?

Já reparou no tamanho das frases que suas personagens costumam construir? E as vírgulas, também estão lá tendo seu papel inconfundível em diferenciar o modo de expressar de cada uma delas? Se a diferença não for tão notável assim, poderá tentar isso. Ou seja, ao invés de:

– E o que você pretende fazer com sua vida?

– Vou correr como um louco tanto quanto essa minha cabeça insana permitir. 

Tente isso, para variar:

– E o que você pretende fazer com sua vida?

– O que vou fazer? Correr atrás da minha vida. Correr como um louco. Sem regras, recompensas, ou castigos. 

Se conseguir aplicar alguns destes métodos, não todos, pelo menos a princípio, você pode ter certeza que suas personagens estarão a caminho de se tornarem muito mais apaixonantes, impactantes e inesquecíveis.

 

borda

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24 Comments

  1. Adorei esse texto! E pensando no que já escrevi, alguns personas meus tem sim, a mesma voz…rs…
    Parabéns!

    Grata pela dica!

    Lu. Franzin

  2. Graziella Mafraly

    26 outubro, 2012 at 12:39

    Gosto muito de usar pessoas que conheço para dar um traço, um toque aos meus personagens. Não descrevo meus amigos ou parentes, não é isso, mas detalhes que pego “emprestado” para formular essa personalidade e fazê-los diferentes entre si.
    Pensando no texto, sim eu escuto eles falando, mas nem sempre passo isso para o papel. Vou fazer uma revisão nas construções de seus diálogo para ficarem ainda melhor do que eu supunha.
    Obrigada pela dica Juliano. Só assim, lendo e aprendendo é que ficaremos cada vez melhor.
    Grande Abraço.

  3. Graziella Mafraly

    27 outubro, 2012 at 10:53

    Agradeço demais o convite.
    Sem sombra de dúvidas, assinado!
    Grande abraço.

  4. Hedy Lamar Barbosa de Oliveira

    31 outubro, 2012 at 08:51

    Gostei mto do texto. Chegou numa boa hora…momento em que estou me propondo a mergulhar fundo na literatura, aprendiz de escritora. Mto obrigada pela contribuição!

  5. Maria Oliveira

    31 outubro, 2012 at 19:57

    Adoro escrever! Penso que o mundo da fantasia é simplesmente fatástico! Um abraço! A
    Adorei as dicas!

  6. Maria Tereza Bocardi

    1 novembro, 2012 at 14:38

    Oi Juliano gostaria de trocar mais dicas sobre redação literária, pelo linkedin é limitado. Vou tentar localizá-lo e fazer conexão, se aceitar. Um dos tópicos que tenho pensado é sobre o papel do narrador ou quem é que narra. Sei que também não há uma regra específica, mas se puder comentar sobre agradeço.

    • Pessoalmente Maria, gosto que as personagens tenham voz ativa na narração, ainda que esta seja em terceira pessoa. Não sou fã da narração imparcial. Em meu romance, lançado em ebook, cada capítulo dá destaque a uma personagem. E a narração é feita sob o ponto de vista dela – embora seja em terceira pessoa. Mas como você mesma mencionou, não há uma regra específica.

  7. De fato é uma questão angustiante quando se cria uma personagem, por mais que estejamos apaixonadas por ela. É difícil criar uma pérsongagem com vida e fogo próprios e que não soem como alter egos nossos repetindo nossas palavras não ditas. Observar não é uma tarefa tão fácil assim. Perceebwr inflexões de você, notas de humor, trejeitos, personalidades. Tentar fazer isso me faz sentir uma criança incapaz de penetrar os mistérios do mundo.
    Muito bom seu texto!

    • Juliano Martinz

      13 novembro, 2012 at 12:10

      Obrigado pela visita e pela consideração, Daniela. Realmente, desnudar nossas personagens de nossos trejeitos não é tarefa fácil. Resquícios de nossa personalidade ainda estarão lá, mas estes já não chegam a incomodar (e muito menos tornar as personagens parecidas). Pelo contrário, contribuem para evidenciar o estilo literário do escritor.

      Abraços

  8. Obrigada pelas dicas Juliano, sou uma aspirante a escritora, tenho alguns textos e muito a aprender além da imensa vontade de escrever. Gostaria me enviasse alguma dica de como organizar as ideias para que a história aconteça. Acho que uma das minhas maiores dificuldade é organizar o turbilhão de ideias sem que desapareçam pelo meio do caminho. Desde já agradeço a atenção!!

    • Juliano Martinz

      13 março, 2013 at 15:49

      Creuza, carregue sempre um pequeno bloco de notas. E vá anotando todas suas ideias. Depois, coloque elas, lado a lado, e veja a ligação que há entre uma e outra. E não tenha dó em rasgar ideias que não se encaixam em lugar nenhum. Ser criativo envolve mais do que ter boas ideias, mas também saber nos desfazer das ruins.

      Obrigado pela visita.

  9. Manoel Emidio

    23 março, 2013 at 12:12

    Agradeceria muito se alguém me explicasse como utilizar o yWriter 5

  10. Juliano, que bacana encontrar seu site! Adorei as dicas.

  11. Ola! Adorei o texto muito obrigada! Aonde eu posso encontrar algum livro seu para eu ler?

  12. Tassiane Santos

    30 junho, 2013 at 14:35

    Olá Juliano. Primeiramente quero agradecer pelas ótimas dicas. Eu ainda não havia percebido que meus personagens tem voz e personalidades próprias. Percebi que muitos realmente se parecem comigo e entendo que devo lhes atribuir mais características especificas para que meus textos não sejam cheios de personagens iguais. Obrigada e abraços.

  13. eu consigo sim ouvir meus personagens!tanto que quando eles aparecem em minha cabeça eu tento os desenha-los em papel ja que conheço um pouco sobre mangás e domino um pouco a tecnica!

  14. tenho 13 anos e adoro ler e queria escrever meu livro mas ao como começar

    • Juliano Martinz

      24 outubro, 2013 at 00:57

      Olá Vitor

      Estou preparando um material com algumas dicas para os escritores “começarem” seus livros. Continue visitando o blog, e em breve teremos novidades.

  15. Amei o blog! Faz tempo que tento começar a escrever mas nunca consigo, e essas dicas são valiozas! Tenho problemas em criar as vozes dos personagens por preferir escrever em primeira pessoa e acabar transpondo as próprias ideias e sentimentos. Outra coisa que me falta é o vocabulário e adjetivos que prestem… Mas obrigada pelas dicas, estão valendo muito! :)

  16. Primeiramente parabéns… é um ótimo blog o que tens.
    Estou tentando escrever um romance e já tenho o esqueleto de toda a trama, mas nunca antes havia procurado algo sobre como escrever, eu só comecei e após ler algumas de suas dicas eu percebi que sem elas meu romance não seria mais que uma historinha! Tenho certeza de que se eu puder por em prática algumas de suas dicas vou poder escrever um romance nem que seja para entreter meus familiares com qualidade. Muito obrigado. Não só por mim, mas por centenas de pessoas, inclusive como o Vitor Assis que apesar de ser ainda um adolescente se mostra um apaixonado por livros. Quem quer consegue. E com suas dicas a caminhada fica mais suave.

  17. Cara, você não sabe como está me ajudando. Suas dicas estão completando meu querido universo sem nome, dando mais cores aos meus dias e razões para continuar essa loucura que é escrever.
    Muito grato. ^^

  18. Realmente, para um escritor iniciante, as vezes as vozes de seus personagens não se diferenciam… pega-se um ritmo e se vicia nele. Ótimas dicas. Juliano Martins, gostaria de ler uma obra sua. Vc é ótimo, cara!

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