Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Como Criar Emoção Em Uma Narrativa

Os leitores têm uma grande necessidade em comum: quando leem um livro, eles querem ser levados para um mundo paralelo. Para isso, eles precisam sentir aquilo que as personagens sentem. E é sua responsabilidade, como escritor(a), transportá-los para esta nova realidade. Não é uma questão de apenas visualizar ações – eles precisam perceber as sensações salpicando suas peles, serpenteando os meandros de suas veias.

Acredito que você, como jovem escritor(a), está ciente da necessidade de criar emoção em seus livros. A grande questão é: como fazer isso? Como acompanhar passo a passo o processo de escrita, garantindo que a emoção flua do papel e seja capaz de emocionar seus leitores?

Difícil?? Nem tanto. Você só precisa seguir algumas regras básicas (odeio falar em regras durante o processo de criação, mas, fazer o quê?).

Mas elas são importantes para tornar a experiência autêntica. Embora as personagens talvez não sejam reais, as emoções podem (e precisam) ser.

Seja Específico

Emoção requer especificidade.

Não basta dizer que sua personagem está com medo, que está amando ou sofrendo. Descrições sucintas e superficiais não são impactantes. Não passam de um relatório frígido. E narrativas assim nos mantêm distantes.

O desafio é fazer com que os leitores sintam o que a personagem está sentindo. Para isso, você precisa ser específico. Veja a seguinte descrição da angústia interna que utilizo no romance A Lenda de King Jeremy:

“Andreas esgotou-se ao ponto de se sentir a pior pessoa do planeta. Chegou a ter náuseas de tão enojado de ser ele mesmo. Gostaria de ser qualquer idiota do planeta, menos o repulsivo Andreas Hugo… Não lhe estava reservado intensidades amorosas, nem mesmo sobras de luz. Naquele momento, subjugado por aquela maldita insônia, ele estava consciente de que não havia, e nem haveria, uma única criatura no mundo que fosse capaz de pensar: “Oh, Deus, como eu amo Andreas!” Ele era o pior sujeito que uma mulher poderia ter parido. Sua mãe deve ter tido náuseas, não durante a gravidez, mas depois do nascimento, quando viu o epítome de infelicidade que botara no mundo”.

Eu poderia ter simplesmente dito que Andreas estava deprimido, mas isso não expressaria a intensidade – fator essencial para transmitir emoção para o leitor.

A mesma regra aplica-se a descrições de aspectos físicos. Por exemplo, veja a descrição de dor na crônica Adeus Olimpo:

“Sentou-se, gemendo e praguejando. Lombalgia. Dores nas regiões lombares ou lombossacrais. Ela costumava chamar de “maldita dor dos infernos”. Hoje era difícil definir o que doía. Os dentes doíam, o pulmão doía, os pés doíam. Toda sua alma, enfim. E o que não doía, latejava”.

Portanto, não esqueça desta regra: não diga apenas o que a personagem sente. Faça-o em toda sua intensidade.

Insira a Emoção na Hora Certa

Para que haja um envolvimento emocional entre personagem e leitor é preciso estabelecer uma ligação entre ambos. E isto, assim como acontece entre duas pessoas na vida real, pode levar algum tempo.

Para que o leitor sinta as mesmas emoções que a personagem é preciso que haja uma identificação – personalidade, planos, sonhos, desafios, etc. Quando a identificação é estabelecida, o leitor está pronto para sentir as mesmas dores e alegrias que a personagem do seu romance.

No entanto, isso simplesmente não vai acontecer no primeiro capítulo do seu livro. Por quê? A resposta é tão óbvia quanto no mundo real: não houve tempo suficiente para estabelecer conexão entre o leitor e a personagem. Isto só acontecerá nos capítulos seguintes. Então, não desperdice esforços: fazer uma descrição pungente das personagens logo no capítulo inicial, tentando envolver emocionalmente os leitores, é prematuro demais. O que você deve fazer é aproveitar as páginas e capítulos seguintes para desenvolver as personagens, paulatinamente.

Dê Dicas Do Que Vai Acontecer

A expectativa criada pode ter um efeito muito poderoso em despertar emoções nos leitores.

Não pense que a surpresa é a melhor escolha em todas as situações. É verdade que o ápice, quando inesperado, pode despertar as mais profundas emoções nos leitores. E aconselho a usá-lo. Mas há situações em que preparar o leitor é de grande ajuda para engajá-lo com a história que você está contando.

Isso significa que você pode dar dicas do que vai acontecer. Por exemplo, o romance entre duas personagens não pode acontecer subitamente. Você precisa preparar os leitores para isso, mostrando como os sentimentos deles estão se desenvolvendo ao longo da narrativa. Os encontros esporádicos que se tornam encontros rotineiros. O palpitar no peito, as mãos suadas, os pensamentos apaixonados em madrugadas insones. Este tipo de antecipação ajuda a tornar o ápice recompensador, porque é algo pelo qual o leitor torce e espera. Portanto, vale a pena utilizá-lo.

No caso do suspense, a emoção também pode ser gerada pela expectativa anunciada. A tensão que aumenta a cada linha, a ameaça surgindo aos poucos – tudo isso contribui para o medo crescente a cada página coberta pelos seus leitores. Neste caso específico, lembre-se que uma forma de criar medo e gerar tensão é utilizar frases e parágrafos mais curtos. Eles contribuem para acelerar visualmente o ritmo da narrativa, e contribui para o despertar destas sensações.

Cuide do Contexto

Para criar emoção na narrativa, você precisa contextualizar a situação.

Por exemplo, imagine que em seu livro haja uma personagem chamada Vanessa. Ela recebe a informação de que seu filho acaba de falecer. Você deseja que os leitores sejam profundamente impactados por esta informação, assim como Vanessa foi. Mas isso não vai acontecer se não for estabelecida, previamente, a relação entre Vanessa e o filho. É preciso descrever a intensidade do amor de Vanessa pelo filho, suas expectativas em relação ao futuro dele, seus medos e preocupações. Se ele nunca foi citado, o anúncio de sua morte será indiferente para o leitor.

É isto o que quero dizer com “Cuide do Contexto”. Dê atenção àqueles que estão ao redor de suas personagens. Isto ajuda a humanizá-las. Desta forma, tudo aquilo que posteriormente afetar a relação entre eles (morte, traição, alegrias) também será capaz de afetar emocionalmente os leitores.

Pressione as Personagens

Nós enfrentamos uma variedade de pressões no dia a dia que afetam as decisões que tomamos. Utilizar este padrão comportamental em seu livro pode ter um bom efeito em provocar emoções nos leitores.

Há algumas pressões que podem fazer com que suas personagens tomem decisões precipitadas. Por exemplo, quando o protagonista precisa tomar uma importante decisão, mas não tem tempo hábil para raciocinar sobre isso. Este tipo de pressão aumenta a tensão da narrativa. Além disso, ela é capaz de justificar as ações da personagem, gerando empatia.

Procure explorar diversas outras situações que sejam capazes de pressionar suas personagens. Lembre-se que pressões são ótimas oportunidades para forçar as personagens a escolher entre o ruim e o pior. Se, às vezes, você precisa que seu herói tome uma decisão imbecil, mas não consegue justificar este tipo de ação, experimente colocar uma pressão sobre ele.

Capriche no Antagonista

Não pense que gerar emoção é um sinônimo de simpatia pelo protagonista. Raiva e repulsa também são sentimentos que ajudam a criar emoção na narrativa. Se você conseguir despertar estes sentimentos nos leitores em relação ao antagonista, então, já conseguiu criar uma resposta emocional.

Faça uma descrição caprichada (mas sem exageros) dos sentimentos, palavras e ações do antagonista. A crueldade dele precisa atingir não apenas as personagens do livro, mas também o leitor.

No entanto, para conseguir isso, você precisa fazer com que o protagonista e demais personagens tenham uma resposta emocional às ações do antagonista. Você precisa descrever o que as personagens sentiram diante da ação cruel dele. Mas não se contente apenas com a descrição dos sentimentos. Vá além, e diga o que eles fizeram e disseram em reação a isso. É mais fácil para o leitor ter uma resposta emocional às ações do antagonista quando o protagonista reage à sua crueldade.

Seja Realista

A conectividade entre leitor e narrativa depende, em grande parte, de quão real a história é. Você talvez pense: “Mas eu estou escrevendo um livro de fantasia. Como vou ser realista em um livro de fantasia?”. Não confunda as coisas. Ser realista significa apresentar realidades e problemas concebíveis para o mundo que você criou.

Por exemplo, digamos que criou um mundo onde os casais que não tem filhos são considerados amaldiçoados. Esta é a realidade do seu livro. Todo o contexto precisa apoiar esta realidade. Desta forma, os leitores serão transferidos para o seu mundo.

Outra dica para conferir realismo é permitir que suas personagens sejam capazes de expressar uma variedade de emoções. Eu sei, você criou uma personagem que é pura alegria. Mas ninguém é alegre o tempo todo. Criar uma personagem assim pode diminuir o envolvimento emocional dos leitores com seu livro. Assim, não tenha medo de descrever um momento de angústia desta personagem. Da mesma forma, não hesite em apresentar um temível vilão como tendo medo ou um resquício de compaixão.

Independentemente de qual seja sua história, as pessoas enfrentam os mesmos problemas, como medo da morte, alegria da vitória, etc. Explorar estes sentimentos e pesamentos é uma forma de conferir realismo ao que está escrevendo, e gerar empatia nos seus leitores.

Escolha Bem as Palavras

O tipo de emoção que deseja despertar nos leitores determinará as palavras que você deve utilizar.

Ao descrever emoções cruas, sentimentos rígidos, apele para palavras que contribuam para esta acidez.

Por exemplo, observe este trecho extraído da crônica Adeus, Olimpo:

“Mal percebe o corpo recurvado, dia após dia. Mal percebe o hálito apodrecendo. A visão começa a lhe trair a percepção. Os passos já não tropeçam em obstáculos. Mas em si mesmos”.

Note o uso de palavras como “apodrecer”, “trair”, “tropeçar” – por si só, elas já transmitem aspereza. Assim, elas ajudam a impulsionar os sentimentos que estão presentes na história.

Desnecessário dizer (mas vou dizer mesmo assim): a regra também vale para quando quiser descrever sentimentos puros, suaves, meigos.

Portanto, quando o escritor consegue transferir a emoção das personagens para os leitores, então, deu um importante passo para tornar sua obra inesquecível. Afinal, a leitura proporcionará uma satisfação não apenas intelectual, mas também emocional.

Você é capaz de despertar sentimentos em seus leitores? Tente me emocionar nos comentários abaixo.

5 Comments

  1. Muito boas essas dicas todas.

  2. Genial essas dicas! Obrigada!

  3. Achei as dicas muito boas e principalmente os exemplos com eles dá pra ter uma ideia do que pretendo passar.

  4. Nunes Cristóvão

    12 setembro, 2017 at 03:55

    Gostei, assim desenvolvo mais o meu livro,

  5. Uaaau ameeiiii!!!! As dicas são ótimas isso me inspirou muito na hora de fazer a minha Crônica. Acho que de todos os gêneros textuais o meu favorito é a Crônica ela sempre me trouxe muita emoção muitas lições , acho muito parecido com minha forma de criar algum texto.

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