Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Category: Contos On Line (page 1 of 2)

Contos On-Line da Literatura Corrosiva

Costumo definir um conto como o texto que se coloca entre uma crônica e um romance. Quando me sinto inspirado, gosto de escrever romances. Quando preciso atualizar o blog, mas não estou lá muito estimulado a derramar meu ser sobre o teclado, escrevo uma crônica. Quando não estou nem uma coisa ou outra, escrevo um conto.

Pela quantidade de contos on-line que possuo, dá pra perceber que, na maioria das vezes, ou estou muito inspirado ou não tenho inspiração nenhuma. A verdade é que este tipo de literatura não é tão privilegiado. Quem lê algo na internet, prefere textos mais simples e curtos. Atendendo à esta necessidade de um mundo moderno, me dedico mais às Crônicas Pequenas“. Assim, posso tentar lhe oferecer uma viagem pela literatura com poucos caracteres.

Assim, disponibilizo estes contos on-line, e espero que mergulhe fundo neste mundo que somente a literatura pode nos proporcionar.

Dr. Capgras (3 de 3)

Cuidado com a inocente esposa dando-lhe um beijo de bom dia. Pode ser o mendigo da praça!

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Sr. Cotard (2 de 3)

Vive, respira, come, bebe, dorme e exala saúde. O único problema é que está morto!

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Sr. Fregoli (1 de 3)

Cuidado com o inocente mendigo na praça. Pode ser sua esposa!

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Camila Helena IV

Confira as primeiras partes:

Sonambulismo ou insônia. Nos dois casos, nunca dormindo, e nunca acordado. Vivo assim, um estado latente. Impactado por flashes à minha volta. Às vezes, coisas reais. Outras vezes, apenas memórias. Suponho que entre uma ou outra, algum tênue delírio. A pior parte é nunca saber quando é uma e quando é outra.

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ONDE ESTÃO AS CHAVES?

Eu duvidava que poderia me sentir livre, novamente. Nova mente. Bem nova, fresquinha, direta do forno. Confesso que duvidava. Dúvidas de homem disforme. Coisas que vem e vão numa mente metade confusa, metade caótica. Eu achei que assim poderia evoluir – um homem sem planos que cresce, e cresce, e cresce. Mas não consegui dar muitos passos. Nada além disto aqui. Essa pequenez. Essas paredes que sufocam e sufocam. Apenas cumpro as regras que me ditam. Não há muito o que dizer. Todo meu universo caberia em apenas uma linha. Com meus medos, acho, encheria um romance. Com meus traumas, talvez, eu consiga terminar este conto online.

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CAMILA HELENA III

Confira as duas primeiras partes:

Cuidado com a luz no fim do túnel – pode ser um trem vindo em sua direção.

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CAMILA HELENA II

Helena tinha aquele jeito inóspito de ser. Uma espécie de outra dimensão. E eu ali, com a mesma cara imbecil, perdido entre latrinas, mais um apaixonado cambaleante pelas madrugadas suburbanas. O Tolo Messina. Só mais um carente de Helena. Mas olha, não é exatamente o que parece. E com o que realmente isto parece? Que droga, apenas ouça.

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CAMILA HELENA I

Pergunte ao elemento debruçado sobre a mesa, com aquela aparência decadente e frígida, respiração cadenciada, sobre Camila Helena, e ele lhe dirá que os céus fizeram silêncio, que a primavera contorceu-se de inveja, e que o mar se declarou perdidamente apaixonado no dia em que ela nasceu.

Apague seu cigarro. Repouse seu copo sobre a mesa. E preste atenção no que vou dizer: ninguém sobrevive a um olhar de Camila Helena. Pra ser sucinto, ela pode fazer apenas duas coisas com você: te dar atenção ou te ignorar. Na prática, as duas coisas levam ao mesmo fim: ela vai te destruir. Se duvida, pergunte ao infeliz debruçado sobre a mesa, acariciando o pires dá décima xícara de café que tomou naquela madrugada fria. Ele pode te dizer em palavras frias (como ele) como veio a colocar seus pés sobre o gelo frágil (como ele) e confiar num tal despertar traiçoeiro (como ela) lhe afagando os cabelos numa manhã de sol.

Crônica Camila Helena - Arte: Nimalan Tharmalingam

A propósito, o elemento debruçado sobre aquela mesa sou eu…

A mosca repousa no pires. Olha para mim. Olhar lacônico. O dela? Também. Imagino que não seja tão divertido ser uma mosca. Viver entre lixo, deve ser deprimente. Eu que o diga. Onde estava? O olhar lacônico. O meu, quero dizer. Olho para a mosca com tristeza. Não se consegue ser alegre após 49 horas seguidas acordado. Duvida? Experimente. 49 horas, 9 minutos e 25 segundos. 26. 27. Corda-bamba. 29. Mosca-amiga. 31. Vai passar, mosquinha. Ela dá com os ombros. Como se dissesse: é a vida, camarada. Não espere demais dela, e ela não te cobra. Ela dá 2 passos em minha direção. Os olhos brilham. Os da mosca. Os meus continuam ali, dançando lá e cá. A mosca se prepara para falar. Silêncio. Calem-se. “Dá pra colocar um pouco mais de açúcar nessa porcaria de café?”.

Foi uma gosma quase branca, um amarelo suave, pegajoso, consistente, que esvoaçou do abdômen dela. Acertei-lhe um belo dum tapa. Daqueles certeiros, que se alastra em ecos repulsando paredes ao redor. Minha mão ficou vermelha – forte impacto. Mão vermelha com uma tira longa e delgada resultado da mistura suculenta dos intestinos, gânglios e túbulos da mosca abusada. Aprendi com meu pai. Se quiser me esmurrar, pode escolher: lado direito, esquerdo ou queixo? Mas não mexa com meu café. É preciso valorizar o que nos completa.

E por falar em completar, percebo que está vazia. Minha vida? Não, a xícara. Tente acompanhar o que estou dizendo e me poupará de explicações desnecessárias. 10 minutos. Mosca despedaçada. Brinco com a gosma grudada em minha mão. Se era fêmea, ali um caldo do ovipositor. Se for macho, aedeagus. Fora isso, eu e uma xícara vazia. Vamos resolver isso agora.

Faço um sinal para ser atendido. Mas a garçonete não me vê. Aí fico com aquela cara idiota. Disfarço. Coço a cabeça. Todo mundo disfarça nessas horas. Sempre coçam a cabeça. Eu também. Mas nem precisava. Não há nenhuma alma calejada naquela pista. Naquele porcaria de bar, digo. Ou lanchonete. Ou qualquer espelunca onde se serve café. Que horas são? Não sei. Tarde demais para deitar. Tarde demais para levantar. Meus olhos ardem. A mosca se contorce. Está viva ainda, a desgraçada. Paro de coçar a cabeça na hora que a garçonete me olha. E aceno. Mais um café, por favor. Mais um? Não sei se ela disse isso ou se foi o olhar dela. Ou talvez nenhuma das duas coisas: estou vendo e ouvindo coisas. Louco? Fique acordado 49 horas, 10 minutos e 37 segundos, 38, 39, e verá onde o louco se esconde.

Estou cheirando os restos mortais da mosca, percebendo um cheiro, digamos, acre, quando a garçonete se aproxima. Parece impaciente. Qualquer um fica impaciente com um imbecil como eu. Sabe o último cliente que nunca vai embora? Ela me xinga, eu sei. Idiota, palerma, imbecil, ou qualquer outra coisa que faça parte do repertório de palavras ofensivas dela. Mas não diz. Apenas pensa, eu sei.

Eu poderia ir embora, também sei. Mas preciso estar ali. Quando digo que preciso, quero dizer que PRECISO. Eu, meu café, meus restos de mosca. Você pode me achar um maluco, mas se você a visse, me daria razão. Não é pelo café que estou ali. Estou ali por ela. Por Camila Helena. Sinto o perfume dela espantar o cheiro acre deixado pelos intestinos da mosca em minhas narinas. Quando ela se recurva, meu corpo paralisa. Estagnado, observo-a. O corpo levemente inclinado, a pele alva, o suor que secara, mas deixara seus cabelos artisticamente grudados um ao outro, em sua testa. Alguns grãos de farinha na ponta do seu nariz. Chego a esboçar um movimento. Tocar o nariz dela. Tirar-lhe a farinha. Tirar-lhe o pó. E aquela solidão que se esconde naqueles olhos esfomeados. Nossa solidão, a minha e a dela, são irmãs.

– O que é isso? – ela entoa suas palavras apontando para o meu dedo.

Ergo o dedo com o que restou da abusada.

– Isso? É… creme. – Levo o dedo a boca, e o lambo. É salgado. Levemente salgado. Anotem: mesêntero e proctodeo de moscas são salgados. Mas isso eu já sabia faz tempo.

– Você não vai pra sua casa? – Ela pergunta, não resistindo a angústia do último cliente que não vai embora.

Por que ela quer ir embora? Por que tanta pressa? Para chegar em sua casa, e se lembrar que não há ninguém esperando por ela? Para olhar para a mesa vazia, e se lembrar de um tempo que se fora, e que nunca mais voltará? Para se lembrar de que sua vida é tão frágil quanto a minha?

– É o último – digo, enfim. No dia seguinte, voltarei àquela espelunca, para vê-la novamente. Como todos os dias, como todas as noites.  Eterna obsessão. Eterno elemento das mesmas crônicas tristes.

Neste instante, outra mosca pousa na mesa, e me encara. Como um homem de princípios, decido avisá-la:

– Se falar mal do meu café, eu juro que te engulo.

continua…

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O ÚLTIMO DIA DE VIDA DE LEVI ANTUNES – Parte III

– Quando eu era criança, eu tinha um sonho: salvar o mundo.

Laura se sentiu melhor ao ser trazido à sua atenção, o fato de que aquela estranha figura, um dia, já fora uma criança. Por pouco tempo, afinal. Perdera a infância antes que pudesse começar a desfrutá-la. Antes que pudesse se entender, se definir, existir e coexistir. Perdera os pais num incêndio. Dali, uma criança traumatizada. Medo de tudo, e do nada. Dificuldade em se relacionar. Queimaduras em todo o corpo. Queimaduras em cada desejo. Desde então, tinha pesadelos recorrentes. Sempre incêndios. Fogo. Sua camiseta branca amalgamando-se com a pele frita. A fumaça cinza da sua carne lhe vedando as narinas. Ele buscara por ar naquele dia, como o buscara em cada dia vivido desde então.

– Para uma criança, tudo pode ser resolvido. Tudo será resolvido. Até que o mundo resolve nos mostrar sua verdadeira face. E os super-heróis voltam para os quadrinhos. – Era quase um homem poético, mas no fim, era apenas um homem atormentado. – Qual o seu maior medo? – perguntou, do nada.

Laura olhou ao redor. Uma lanchonete. Mesa para dois. Um sanduíche para cada. O que estava fazendo ali, afinal? Respirou.

– Acho que o medo da maioria das pessoas. Medo de não ser feliz, de não realizar meus sonhos.

– Eles estão interligados?

– Eles?

– O sonho e a felicidade.

– Sim, acho que sim. Acho que são uma coisa só.

– Tem medo da morte?

– Quem não tem?

Ele sorriu. Um sorriso estranho. Tudo o que vinha dele era estranho.

Ela:

– Você falou que sonhou com o incêndio. Mas não era exatamente esse incêndio, era?

– Faz diferença?

– Você disse que sempre tem pesadelos desde que seus pais…

– Você estava no sonho.

– Eu?

– Não era você, exatamente. Mas era você. – Ele deu uma pausa. Olhou ao redor. Na verdade, olhava para si mesmo. – No dia do incêndio, em que perdi meus pais, fui arrancado de dentro da casa por um bombeiro. Eu não me lembro do rosto dele. Nem sei se usava capacete, se tinha barba, não me lembro sequer se era homem. A única coisa que me lembro era de uma garota, no meio da multidão do lado de fora, que nos olhava. Me olhava. Devia ter minha idade. Era loira como você. Tinha olhos claros como o seu. E parecia assustada, como você. Desde então, passei a ter pesadelos com incêndios, e garota sempre está lá. Sempre. Até hoje. Como se quisesse me ajudar. Como se quisesse fazer toda a diferença. – Ele parou. Talvez, lágrimas em seus olhos. Talvez… – Você não é exatamente a garota do sonho, mas… eu sei que é você.

– Eu não posso salvar ninguém. Não consegui salvar ninguém hoje.

– O que você poderia fazer afinal?

– Eu não sei.

– A gente sempre tenta se perdoar. É uma reação natural, uma defesa. Quem não se perdoa, se apaga de uma vez.

– Eu também sonhei com esse incêndio essa noite.

– Esse?

– Sim. O incêndio no shopping.

– Milhões de pessoas sonharam com incêndio essa noite. Outras com maremotos, ou terremotos. Algumas sonharam que tinham superpoderes, que ganharam na loteria, que eram meio gente, meio animal.

– Só uma coincidência?

– Como tantas outras que ainda teremos de encarar.

Ficaram em silêncio. Observando-se mutuamente. De repente, ele, Levi, já não era tão assustador. Talvez fosse apenas o assustado. A criança que acorda dum pesadelo, e se descobre sozinha num quarto escuro, sem coragem de levantar, ou de chamar pelos pais. Talvez ele fosse como ela, e estivesse apenas a procura de um pouco de ar para respirar. Agora, ela sabia, não havia o que temer.

Então, de forma espontânea, Laura lhe sorriu.

Quando viu aquele sorriso, Levi pensou: Ainda há belezas nesse mundo a espera de serem descobertas.

Depois de se despedirem, Levi voltou ao apartamento onde morava. O ar estagnado ali dentro fê-lo enjoar. Caminhou até seu quarto. Um caminho longo para uma vida tão curta. A carta de despedida estava ali. Repousava. Olhava para ele, abria os braços e perguntava: E agora, Levi, o que você fará? Pensou em Laura. Pensou no seu sorriso – o mais lindo que já vira em sua vida. Pensou no ar que sentira entrar em seus pulmões. Talvez devesse dar um tempo para que o universo lhe brindasse alguma saída. Alguma opção. Sabia muito bem que não fora assim que esse conto começara. Não era assim que deveria terminar. Mas ele era livre, e tomaria as suas próprias decisões.

Voltou a se olhar no espelho.

Experimentou um sorriso.

Gostou do que viu.

E arrematou:

– Daqui pra frente é comigo!

F I M

O ÚLTIMO DIA DE VIDA DE LEVI ANTUNES – Parte II

“A quem encontrar essa carta…

Está ouvindo isso? Silêncio. Preste atenção. Está ouvindo isso? Não? Eu sei que não. Eu também nunca ouvi. Refiro-me às batidas do meu coração. Você sabe o que é viver 30 anos sem ouvir as batidas do seu próprio coração? Eu sei que não. Se soubesse, não estaria aqui, lendo essa carta, e pensando: “Pobre infeliz”. Então, tente não me julgar. Se eu tivesse sua vida, seus sonhos, seu cheiro, eu não teria feito o que fiz. Não é difícil de imaginar, se você tentar. Faço minhas as palavras do poeta Paulo Lucká:

Salve esse poeta por ter sido tão estúpido
Por ter acreditado que algum dia seria feliz
Salve sua poesia, pois ela o levará ao túmulo
Assim como fará com todos os que traíram o amor.

Se eu tivesse seu rosto, suas roupas, sua esposa, eu não teria feito o que fiz. Quando as portas se fecham e a brisa se recusa a entrar, então, nessa hora, todas as sensações desaparecem, e tudo se torna um perigoso “tanto faz”. Aí qualquer coisa pode começar ou acabar que… tanto faz. Se eu tivesse seus pais, seus filhos, seus medos, eu não teria feito o que fiz. E não é que seja tarde para mudar de ideia. É que é simplesmente tarde para tentar querer recomeçar tudo outra vez. É nessas horas que a plateia se posiciona para levantar, certa de que as luzes irão acender. Deveria eu decepcioná-la?

Se eu tivesse metade do que você tem, eu não teria feito o que fiz.

Então, faça-me um favor: largue essa carta, e volte para as pessoas que ama. E faça com que a vida delas valha a pena.

Levi”

Era apenas o retrato da desolação. Estava curvado. Um moribundo. A carta ainda em mãos. Olhou-se no espelho. Olheiras, rugas, manchas, pele que se desprendia do seu rosto. A carta em mãos. Tremia.

Ele soltou a carta no momento em que ouviu as sirenes das ambulâncias e dos bombeiros passando em disparada. Ergueu os olhos marejados de lágrimas – seriam suas últimas lágrimas –, e viu as chamas no horizonte. O fogo. O mesmo que deixara marcas no seu corpo quando criança. O mesmo que tirara a vida de seus pais. O mesmo vilão acendia agora aos céus numa dança amedrontadora. Desenhando as formas assassinas com que sonhara os últimos 25 anos. O fogo rebolava ao sabor do vento. Era contornado pela fumaça. Envolvido. Adornado. Maldito fogo. Ele viu mãos. As mãos do fogo, chamando-o. Parecia convidá-lo: “Venha para cá. Sentiu minha falta?”.

Levi Antunes soltou a lâmina que tinha em mãos.

Dois minutos depois corria, insano, em direção ao incêndio.

E meia hora depois, conheceria a garota que viria a salvar a sua vida.

– Conheço esse fedor.

Laura mal ouviu. Eram muitas vozes. Na verdade, a maioria, gritos. Pessoas correndo. Algumas para longe do incêndio. Outras se aproximando. Curiosos. Ela, como hoje de manhã: suor e lágrimas. Exatamente igual. Mas estava de pé. Porém, desta feita, o medo não se dissipava. Pior assim.

A voz lúgubre ao lado continuava:

– É cheiro de carne.

Ela olhou para o lado. A forma esguia tinha um cabelo ralo e preto. Escorrido sobre o rosto. Suava, como ela. Um nariz adunco. O rosto fino. Vestia preto. Parecia um corvo. Da cabeça aos pés. Foi o que ela pensou. Ele olhou para ela. Um olhar estranho. Um corvo psicótico, algo assim. Laura sentiu medo daqueles olhos. Olhos vazios. Como buracos negros, a sugavam. Ele tinha assustadores olhos vazios.

– Escapou ilesa?

Ela concordou com a cabeça.

– Bom para você. – Ele sorriu. Sorriso malévolo. – Já eu não tive a mesma sorte.

Laura desviou os olhos. Começou a se afastar quando a figura disse as palavras que a fizeram voltar-se para ele:

– Eu sonhei com esse incêndio noite passada.

Continua:

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